O Pantaneiro

segunda, 06 de junho de 2011

"Nós não somos bicho não..."

Tenho um amigo de família tradicional de Dourados - não vou citar o nome por razões de segurança - que de vez em quando viaja para a amazônia. Não para turismo, mas objetivando participar de alguma iniciativa sócio-evangelizadora com integrantes de uma missão evangélica alemã, sediada em Campo Grande, que desenvolvem diversos projetos junto a determinadas tribos indígenas. Numa dessas incursões eles não se aproximaram de um grupo a ser beneficiado por um desses projetos, pela possibilidade de literalmente apanharem e voltarem pelados para a cidade de Porto Velho, em Rondônia. O trabalho foi feito por índios colaboradores, já convertidos ao cristianismo.

É sabido que por detrás de algumas posturas aparentemente nocivas de nossos indígenas em relação aos missionários evangélicos, existem forças que não são "das trevas", como alguns gostam de mencionar. São homens brancos mesmo, pertencentes a grupos organizados, que têm lá suas opiniões formadas sobre a evangelização dos povos indígenas. Uma delas é que os projetos evangelísticos ignoram determinados aspectos das culturas estabelecidas. Esse argumento é totalmente descabido, quando se sabe a maioria das missões evangélicas formam seus agentes evangelizadores em questões transculturais, de forma que o diálogo da fé cristã se estabeleça num nível de igualdade lingüística e de usos e costumes.

Na verdade o objetivo de alguns - inclusive antropólogos - é evitar essa aproximação inter-racial, visando a difusão das boas novas de salvação, segundo a ótica do cristianismo. Criam sérios obstáculos, como uso até da lei. Contudo, se esquecem que a lei de Deus é maior. Tanto que em meados do ano passado um verdadeiro milagre foi presenciado no programa Fantástico, da Rede Globo. A saga da JOCUM, uma dessas missões corajosas que operam na amazônia, para salvar da morte dois bebes da tribo suruwahá, foi mostrada ao país. Como disse a diretora da instituição, Bráulia Ribeiro, poucos esperariam que a Globo, pelo menos numa reportagem, mostraria ao país a causa defendida por meros "missionários protestantes" contra a opinião de antropólogos e da FUNAI. Demorou 21 anos para que o trabalho da JOCUM naquela tribo fosse visto de outra perspectiva. Entre os sofrimentos vivenciados neste período, repercutiu um processo, na justiça, por terem "salvado da morte" duas órfãs da tribo, que seriam torturadas até a morte. O Ministério Público, na época, entendeu a ação como "interferência cultural", pois o suicídio e o extermínio de órfãos é considerado pelos antropólogos como um traço cultural que faz parte da identidade daquela etnia. Esse argumento, também precisa ser questionado, pois um jovem líder da tribo, conhecido como Xagani, afirmou a um representante do MP: "nós falamos diferente, usamos roupa diferente, mas nós não somos bicho não. Nós somos gente como vocês e sabemos o que é bom para o nosso povo".

Essas realidades deveriam produzir no mínimo uma mudança de ótica de instituições como a FUNAI, que tratam os índios de maneira doentia e paternalista. No caso do costume suruwahá e de outros grupos indígenas de eliminar as crianças órfãs, o cristianismo tem muito a ensinar, principalmente que Deus é pela vida, conceito aliás que é defendido pelas leis do país. Se as ações evangelizadoras, que envolvem além do cuidado espiritual ao atendimento de várias carências dos nossos índios, fossem vistas com outros olhos por alguns instigadores do mal, meu amigo douradense, apaixonado por essa causa, não teria sido impedido de penetrar um pouco mais nas matas da amazônia e teria voltado são, salvo e com roupas.

*Pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
Email:
pvhvivaldo@hotmail.com

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Sobre o colunista

Rev. Vivaldo Melo

Vivaldo da Silva Melo, formado em teologia pelo SPN (Recife) SPS (Campinas) e UNIFIL (Londrina), pós graduado em Ciências da Religião pela UMESP e jornalista atuante em Mato Grosso do Sul e ministro Presbiteriano em Dourados-MS.

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