O Pantaneiro

segunda, 06 de junho de 2011

24 de Dezembro

A rodoviária "pipocava", era gente saindo pelo "ladrão", olhou o bilhete, procurou o coletivo - "Campo Grande/Aquidauana - Via Anastácio", apresentou a passagem, localizou o lugar, não conseguira a janela. . . acomodou a moxila no bagageiro, sentou, fechou os olhos-divagava. . .

Dificuldades no subir/entrar no veículo, barriga "caída" de fim de período, mãos ocupadas com sacolas. . .

- Moço, o senhor troca de lugar comigo? No corredor eu acomodo melhor. Pode ser?

Assentos quase lotados, a maioria de jovens, muito riso, conversas, cumprimentos. . . no som interno, músicas natalinas tornavam o ambiente acolhedor.

Feita a troca, ajeitam-se . . . o ônibus ganha a estrada rumo à Princesa do Sul, defronte ao Clube Militar, ela interrompe o devaneio do parceiro:

- Moço, o senhor frequentava o terreiro do Prado, lá perto da AABB? O senhor parece com um tocador de atabaque. . . era mais novo mas, a sua cara pouco mudou.

Ele surpreso confirmou: anos e anos atrás, era eu sim, na época morava em Aquidauana, no Guanandy. . . mas como você sabe? Você conheceu o Seo Prado?

- Minha mãe freqüentava o Centro. . . eu era pequena e ficava sentada nos bancos, ouvindo as batidas dos "tambores", achava legal. Àquele cheiro de incenso, os cantos, o ritmo sacro/profano. . . eu "surfava".

- Eu e meu irmão éramos tocadores. . . meu pai, minha. . .

- Lembro de seu pai também. . . baixinho/gordinho/barbudinho, todo de branco. . . de óculos, lendo a Bíblia católica, foi o primeiro Centro que vi alguém lendo a Bíblia-gozado. Sua mãe era loira, "cambona" se não me engano. . . tinha outras. . . uma loira mais "forte", uma morena de cabelos crespos. . .

Raciocinava. . . interessante, essa "barriguda", senta ao meu lado e fala como se me conhecesse, e eu, não sei quem é. . .

- Faz tempo que o senhor saiu de Aquidauana?

- . . .

- . . .

- Em São Paulo eu trabalhava num escritório. Carteira assinada, fiz o pré natal mas, quando foi chegando a hora, meu coração ficou apertado/saudoso e, decidi ter a criança por aqui. Não avisei nem a minha família que vinha. Foi tudo de repente. Lá, eu já tinha médico/hospital definido, aqui vamos ver. . .

Os médicos antigos "viajaram". A Socimed fechou-reabriu com a Cassems. . . você tem ainda o Hospital da Cidade, o Funrural, três opções. Eu sei dessas coisas porque recebo "O Pantaneiro" toda semana.

- Que bom moço, assim o senhor me ajuda.

- Claro/claro. . . e, o seu marido não veio ou, não vem?

- Moço. . . essa é uma estória que agora não quero lembrar. Vou ter a criança por aqui e depois, eu vejo o que posso fazer. . .

Era ainda bonita, de tez morena, "arretada", naquele estado e feliz/sorridente, uma "pantaneira de xepa". . . enfrentando. . . distância/desconforto/viagens/aglomerações.

A conversa caminhou célere. . . banheiro/água. . . pareciam velhos conhecidos. Nomes perdidos/perdidos lugares-pessoas/fatos-festas, políticos, o padre que foi "transferido". . . as luzes de "beira-estrada" ascendia a nostalgia de ambos.

- Moço. . . parece que estou mais pesada, vou ficar um pouco em pé.

- Você quer que eu levante? Você teria mais espaço. Posso sentar lá atrás. . .

- Não moço, por favor fique comigo. Não conheço ninguém e, estou achando que muito breve mais um pantaneiro ou uma, vai chegar.

Os "vizinhos de carreira" ao perceberem o à acontecer, começaram a levantarem-se e oferecerem seus préstimos: - moça, tome é suco de laranja puro! -Dona como esta maçã, vai te fazer bem. - Olhe, fique com esta medalha da Imaculada, ela me acompanhou em meus cinco partos. . . a "família" estava formada. . . a grávida transpirava/respirava com dificuldade mas sorria. . . - moça, sou cabo da polícia, fiz curso de parto, se precisar. . . o preparo estava acontecendo: - eu tenho uma toalha de banho: - eu tenho tesoura: - canivete ajuda? - a gente deita a poltrona. . .

O motorista percebendo a alteração, vai até o foco dos acontecimentos e comunica em voz alta: vou direto para Aquidauana! Aplausos.

Ponte, praça, luzes coloridas. . . trocam sorrisos, ele orienta: - puxe o ar com o nariz, solte pela boca. . . um/dois/um, devagar, vai dar tudo certo.

Cejar, Igreja, Rodoviária. . . na descida é "um auxílio só", muitos votos de bom-parto, de felicidades, boa sorte. . . amanhã vamos ver o "mano". . . risos, piadas, os estudantes pegam os tickets, as malas, o cabo quer chamar uma ambulância mas, o rapaz informa:

- Meu "tio" vem me buscar de carro!

- Então mande ele ir com a mão na buzina, é caso de emergência.

No estacionamento, o "carro" uma Brasília "baguá", cinza, um barbudo grisalho, óculos. . ., a "desafinada, tossindo" buzina sai descendo a Pandiá Calógeras em sua mais "alta velocidade". Os habitantes da região, pensando em comemoração, acenam, "urras", votos. . .

O hospital em novo vislumbre, o vermelho das "palhetas" integra-se ao espírito do dia. . . atendimento imediato, na maca, ela segura a mão do parceiro: - Moço, muito obrigado. . . no concreto, a imagem de braços abertos, protetor.

Alguns minutos, uma atendente: - já informamos a família!

O barbudo coloca o braço nas costas do jovem, sentam-se ao relento na porta da instituição, o "coroa" acende o cachimbo, olham no céu estrelado. . . a maior estrela/brilhante, parece estar fixa sobre a última casa à esquerda. . . pouco falam, a presença é tudo o necessário, da porta uma voz comunica: - Moço, seu "filho" nasceu, é menino-homem" A patroa está bem" Está no "soro". . .

. . . risos, a "austera Brasília" toma a vereda do Guanandy. . . parece um "trenó guiado por dóceis renas". . . é Natal!

a. begossi
a.begossi@opantaneiro.com.br
12/12/07

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Sobre o colunista

A Begossi

Natural da cidade de Salto-SP, reside em MT desde 1970, recebendo o título de Cidadão Aquidauanense. É economista, artista plástico, professor aposentado da UFMS e articulista do Jornal O Pantaneiro.

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