A década de 60 apresentava divertimentos diversificados - bailécos (domingueiras), futebol nos campinhos da periferia, reuniões no Estadual, no GIC, na casa paroquial, banhos no Mangal, jogos... Cláudio Robba, Enio Ferreira preparando atletas, a fanfarra do Mongelli, o "escurinho" do Cine Glória, o Feminino, as procissões... o sacro, o profano conviviam; no "vai-vem" dos jovens, o estudar fora via-Bauru e a NOB presente... o quebra-queixo, o algodão-doce, o vendedor de porta em porta, o amolador de facas/tesouras e a sua gaitinha, os campeonatos amadores... Aquidauana respirava-deputados... éramos de uma cidade que efetivamente crescia, acreditava em dias melhores.
Morava no Bairro-Alto, casa sem forro, rua de terra, banheiro nos fundos, a energia elétrica fornecida pela Cemat e seu "impávido" motor sempre "tossindo"/acudido pelo incansável Zéca, as velas/lamparinas eram "estepes" necessários à todas as casas/escolas/lojas... estudava no Cândido Mariano, conseguira vaga/vaga na fanfarra, na equipe de esportes... o professor Areias, Dona Maria, João Carneiro, Hélio Codorniz... saudades!
Lembra de um jogo de bolita na Praça dos Estudantes, recebera uma "esteca"... ouvira risos, olhara no nível dos "furos-box" - sapatos pretos, meias brancas, um pedaço de pernas com "risonhos" joelhos que prometia... um riso largo nos lábios, cabelos presos "mas" não agüentou o escárnio: - O que tá rindo magrela ?
Aí sim, a gozação foi maior/maior foi a vergonha de encará-la na fila de entrada. O riso ficara gravado, o olhar, a raiva... mas quem era? Como chamava? Qual a classe? Onde morava ? Nesse tipo de dificuldade, "surgia" a eterna Dona Arminda - misto de mãezona, de sargentão, de protetora - baixa, "físico-cheio" e, as dúvidas foram sanadas.
A raiva murchou, nasceu uma atração, gostava de encontrá-la na pracinha com os livros, na fila do matinée, nas competições, nos desfiles, tentava criar coragem para "chegar" - ensaiava na frente do espelho, como falaria, quais as palavras, dias/noites mal dormidas... e, ela deixa de aparecer na escola, perde o contato, com a bicicleta emprestada, passa/re-passa na frente de sua casa, nada/nada além de um cachorro que, a cada passada latia anunciando ao mundo que, alguém, ali transitava.
Dias após, até o animal calou/sumiu. Casa fechada.Vizinhos informam: - mudaram para Campo Grande!
Dona Arminda confirma a transferência e, entrega um bilhete escrito em folha de caderno pautado, preciosidade que gravou e guardou para todo o sempre" - em letra redonda, meia página, leu: - foi pena não conhece-lo melhor mas, a sua cara no jogo de bolita, não esqueço. Beijos. (...no canto inferior, lado direito, dois olhinhos com gotas pendentes e uma traçada boca em choro...)
Anos, anos passaram-se. Formara-se no Contador do Falcão, abrira escritório em Dois Irmãos, filhos, família... ia constantemente a Campo Grande a compras/passeio... de início esperanças de encontro, depois a figura foi esvaecendo... já não recordava mais, nem do riso, nem do sorridente joelho... ficara na lembrança, ela, Estadual, bolita, juventude...
"A esperança é que nos introduz na vida, ela é que envolve o menino alegre, seu brilho mágico entusiasma o moço..." aprendera no ginásio, costumava recordar nos momentos de angústia... indo à Campo Grande, no shopping, procurando comprar um presente para a esposa, entra numa loja de roupas e, ei-la/ei-la no balcão, atendendo. Espera - quis ser atendido por ela. Parece não reconhecê-lo, faz o mesmo, pede: - por favor, quero ver aquela blusa verde-musgo, número 44.
-Pois não.
Olham-se, o "filme" repassa em sua mente, imagens... paga a mercadoria no caixa, vai buscá-la no balcão, já acondicionada:
- Obrigado!
Estende a mão, sente o contato quente, o riso e... ouve:
-Você ainda joga bolita?
Aquidauana de ontem...
a.begossi
a.begossi@opantaneiro.com.br
22/02/08
Obs: A esperança... entusiasma o moço e não é enterrada com o ancião; pois quando este encerra cansado a corrida, planta ainda a esperança sobre o túmulo. Schiller (1759 - 1805).
Natural da cidade de Salto-SP, reside em MT desde 1970, recebendo o título de Cidadão Aquidauanense. É economista, artista plástico, professor aposentado da UFMS e articulista do Jornal O Pantaneiro.
Leia mais