Pegou do bolso o redondo relógio Eska, esticou a corrente, olhou os ponteiros, o mostrador informava; se estivesse no horário, ele chegaria dentro de 15/20 minutos. Era momento de ir para a estação... charretes dispostas à espera dos viajantes/passageiros, alinhadas ficavam. Vendedores de chipa/frutas/refrescos, à tentar vender seus produtos. A chegada do “cavalo de ferro” era um encorajar para a cidade/cidade de nome esquisito, de ruas de areia, de energia provida pela Cemat e seu cansado gerador, cuidado pelo zeloso Zéca de Castro...o trem era sempre o chegar de novos alentos.
Viajantes ainda de guarda pó, protegendo-se das possíveis fagulhas da máquina. Burburinho, pessoas que partem /chegam – chegam encomendas – móveis, jornais/revistas, frutas...o trem era fagulha de esperanças para os hotéis, vendedores, lojas à espera dos representantes, moços de fora...saldo casamenteiro.
Aquidauana de árvores frutíferas nascidas nas calçadas – goiaba, manga, caju, amora, bocaiúva...; de quebra queixo e algodão doce, lembranças dos flocos azuis provocando a gula da gurizada; dos amoladores de facas/tesouras e sua gaita...”fiu/fiiiuu”; do Mariano e seu indefectível pacote sob o braço, desfilando com o seu trôpego andar, trocando conversas por moedas; “dirigindo o seu fantasioso veículo”, encontrávamos o Touro, cuidadoso na mudança de marchas e sinalizações; do Álvaro nas ruas centrais ; da Rádio Martelinho do Garcia e seu abraço significativo a meia jornada solar...jornadas no tempo, memórias-lembranças.
Cine Glória – Décio/Aurema, Jaime criança, multidão à espera, “apinhado”, filme brasileiro, longa fila à cata de ingressos, a bomboniére repleta, Mazzaropi era a atração...jovens/adultos em seus trajes de “ver Jesus”. Dr Muniz, chegando no apagar das luzes, era um privilegiado, tinha o seu assento guardado “ o último do lado esquerdo de quem entrava...se o filme passasse uma semana, uma semana ele assistia àquele filme”. O cinema era o grande informante visual do mundo lá fora, aos habitantes do pré pantanal.
No antes-“ Cine Santa Cecília do Fanaia...na Mal Mallet”. Época dos carnavais, das fantasias, dos espetáculos no palco; “Cine Brasil, ...do Rafael Orrico,...onde é ( era ) o Banco Real (rua Estevão Alves Correa)”...local prestigiado pelas famílias marcantes da comunidade- “Sr João de Almeida Castro, que era o pai de Paulina, do Janguinho, de Magalona, da Dona Maria Cabral... camarote reservado...ele era um dos fundadores, então, gozava desse privilégio”.
Período do instigante jovem jornal – O Canivete; do Alfinete...repositários de idéias dos nativos que estudavam fora (Rio de Janeiro, São Paulo, Bauru ) e traziam o “molho” para os aqui residentes.
A telefonia era primitiva, ia-se à central( rua Augusto Mascarenhas), pedia-se a ligação e ficava-se 4/5 - mais horas, a espera de um contato com São Paulo, quando conseguia-se; nas residências de destaque , os aparelhos eram pretos, pesados, ter telefone era sinal de status. O celular ou algo semelhante, com as mesmas funções, era um objeto das H.Q – nos roteiro dos heróis Flash Gordon, Dick Tracy.
Temos casos hilariantes do uso nascente do celular na comunidade – irmãos assaz conhecidos na sociedade, no antigo Rio Bar, ligavam de mesas distintas para “conversarem” e, a platéia estupefata com o modernismo ficava “babando de inveja”; outro conhecido “ astro”, hoje circunspecto senhor, com o celular no ouvido, desfilava pelas esquinas de movimento, como se estivesse falando. Gesticulava, tentando chamar atenção dos passandantes, e isso, é relativamente recente.
Na década de 40... “As pernas das brasileiras são realçadas pelas meias de seda importadas do Tio Sam: as cintas ligas adornam o recôndito feminino, escondidas pelos vestidos, cujas barras, estavam bem abaixo dos joelhos; - era um tempo das cadeiras nas calçadas, do bate papo ao cair da tarde, do tomar à fresca”; - “dos carros importados; - da Emulsão de Scott, remédio obrigatório para as crianças/crianças não tomavam Rhum Creosotado, ideal para bronquite...”
“A Coca Cola chegara ao Brasil; - a caneta era Parker que, escrevia a seco com tinta líquida; - surgia a caneta esferográfica, onde, a esfera substituia a pena”; - “Nos salões os ritmos quentes : - tangos/rumbas/congas/sambas”; - “ os super heróis liberais multiplicam-se : - Capitão América, Capitão Marvel, O Espírito... no dial as Rádios – Nacional e Record transmitiam o Repórter Esso...”.
Chega-se a 1970 – “a menina sonhadora” – Dóris Mendes Trindade – apoiada por Fernando Lucarelli/Rudel Trindade/Pedro Pedrossian/José.M. F. Fragelli, trás para Aquidauana um “bando de pau rodado”- barbudos/cabeludos que andavam de chinelos/tamancos, com bolsas penduradas nos ombros...elas, jovens professoras, nas madrugadas, com os colegas nos bares, morando em “república”...criaram a UEMT/CPA, hoje UFMS/CPAq...tempos do Clube Feminino, do Santa Marta...dali nasceu o CERA, grupos de teatro/cursos...um ontem de passeio na memória/saudades !
“ Tu também, ó princesa...sobrevoas o mar da história para um dia pousares numa ilha,...
Mas a tua ilha é aqui.
Permanecerás, para sempre, à beira do Xaraés, cortejada pelo teu eternamente apaixonado rio.”- ( Cantares de Menestrel – Hildebrando Campestrini )
a.begossi
20/01/10
Fontes: - memória/rodadas de tereré/ “escutação de causos”/fofocas – obra “ Décio Correa D´Oliveira : Alinhavador do Insólito Cotidiano” – a.begossi/m.baldo- UFMS/93- Dep.História.