"O carnaval é uma amostra, na terra, de como será o inferno no céu." (Júlio Camargo)
14... 14x3=42; x 5=70; x7=98... ainda conseguia calcular... Adriano, deve ser esse mesmo o nome do garção, se não for... o Jóinha que desculpe, garção deveria ter um crachá bem grande no peito... depois da 3ª ou 4ª "cápsula"... a vista fica turva, será a visão ou os neurônios que empacam? Mesa 14... não gosta de números pares... e, não escolhe por causa do Zé da Casa Portuguesa, mas era a única, na esquina da Pantaneta/Travessa... e essa chuva? Já puxaram a mesa duas vezes... é bom ver a chuva cair, fertiliza a terra, lava a alma.
Se o Heliophar ou o Frazão estivessem por aqui, por certo diriam: chove a cântaros! Nada como ser intelectual. Falar diferente... pausado, palavras difíceis, gosta deles... êta cidade porrêta!
- Adriano, por favor, mais uma.
A "baianinha" com pimenta, exige uma "gelada". Só não gosta de acumular garrafas na mesa, dá má impressão. Com esse toró... o jeito é esperar/esperar de barriga cheia é bem mais fácil.
Carnaval de água... será? Sem desfile oficial das escolas, também sem autoridades para ir na "cola" e fazer discursos sacais, falando em tríduo de Momo... PQP. Será que sabem por que Momo? O carnaval que era uma manifestação popular, de rua, virou coisa de vitrine... abadás, cordas, pipocas, piriguetes... e chove!
A turma do sereno, olha/olha e olha. Se não tiver dinheiro "sifo". Carnaval de três dias passou á semana, eterno na Bahia. Entrudo era o de antigamente, o professor Corrêa da Costa é que escreve no Pantaneiro sobre origens, participações... e, a roupa das meninas, encolhendo/encolhendo... virou Doril - sumiu. Beleza!
Interessante... uma guria caminha sob esse chuvaréu, vem em nossa direção... anda altiva, como se nada ocorresse... próxima da esquina, ele visualiza... chapéu amarelado, blusa roxa, calça preta justa até a canela uma bolsa grande também amarela... nos pés... não sabe, a água corre... é um andar fidalgo, passo a passo, cadenciado... apitos, surdos, cuícas, repiques... a bateria da Portelinha vem adentrando, Jussara a porta-bandeira e Wilson, o mestre-sala, ambos de branco e dourado, fazem evoluções, a brejeirice da morena, os passos obedecendo o ritmo, ela volteia está descalsa, ele sorri... 14x9=126... a jovem, agora aparece no canteiro central, o mesmo andar... a chuva continua torrencial.
Um casal caminha em direção a "andarilha", estão debaixo de um guarda-chuva praieiro, não parecem notar a jovem, essa continua, tudo muito normal... perpassam/perpassam-se... ela caminhando vai...
- Adriano, a conta!
Corre até o carro, molha-se mas, quer ver a figura de perto, quem sabe uma carona... liga o "possante", encosta no meio fio, chama-a:
- Moça... venha, eu lhe dou uma carona!
Ela some, reaparece na calçada oposta; - acelera, faz o balão, ela reaparece no central, encosta... ela desaparece, circula/circula e, nada.
Retorna para casa, a andante, o seu porte elegante, fidalga... esguia, o chapéu, a bolsa com a alça sobre os seios, o caminhar na chuva, o sumir/aparecer... ficaram impressos em sua mente... não dera resposta, foi-se... seria projeção do inconsciente, solidão de meia-idade?
Dias/semanas-carnaval... Aquidauana dorme no já teve... o Bloco Curicaca da Madrugada, anima o sábado e as ruas centrais... bonecos-onça, arara, curicaca... a turma do Odorico/Mack, beleza nativa/pura... "A curicaca cantou, o gato mia, no céu..." é o pantanal mostrando a sua cara... é valeu e ela, não apareceu.
A noite, Anastácio fervilha, estaciona numa travessa próxima da rodoviária, adentra... uma passista de frevo, um arlequim, estilizados, dão as boas vindas aos foliões logo no portal. Som envolvente, caminha entre o povaréu, as barracas, encosta... pastéis/carreteiro/cerveja... vislumbra a figura da chuva, da Pantaneta... a mesma bolsa, roupa, chapéu... vai em sua direção, ela some, re/aparece noutro lugar, tenta/tenta e só consegue, no barulho da folia dizer: - jovem eu quero falar contigo!
Perde-a na alegria, conhecidos, cumprimentos... ela, nada... desiste. Vai em busca do carro estacionado, olha o relógio, no mostrador 02:13 horas do domingo... ela/ela está próxima o veículo...
- Posso oferecer condução?
Sob o chapéu, cabelos negros/negros olhos de gazela em pele acobreada. A bolsa, a blusa roxa, a calça preta, pulseiras de metal, um pendente no pescoço, um perfume de terra molhada, de flores agrestes, parece recém saída de um banho de ervas... nada diz, mas, aceita a oferta.
Tenta conversar, recebe monossílabos em respostas. Uma voz grave mas melodiosa, um timbre peculiar, orientado segue as instruções, ela quer ir para casa, segue por vias/ruelas, já não sabe onde está, quando ouve: - chegamos, é ali, à esquerda!
Casa simples, tipo Cohab, escondida na vegetação. Descem, ela segura a mão do acompanhante, caminham em direção a porta que abre-se com um leve toque, abre-se um local maior do que parecia por fora, a luz acende... não vê interruptor/fonte, luminosidade ímpar, carmim... uma cama, manta colorida/listrada, fulgurante ela re/surge, parece uma pintura andina ou descolada das telas de Rivera/Frida/Orozco... bela/enigmática.
Na rústica e baixa mesa, uma flauta de pequenos pedaços de bambu, uma pedra ovóide toda gravada, a peça chama atenção, indaga e ouve: - é de Ica, são quatro, que juntas contam uma estória. Seria como uma Via Sacra. Contam/relatam uma vida, estou em busca das outras três.
O piso era vistoso, brilhante, pareciam os ladrilhos que Dona Elza e Santu produziam. Ambiente limpo, odor mentolado, música estranha/estranho pássaro cantante esvoaçava pelos cômodos. Não induz/percebe como acabou no leito e foi possuído... não sabia como, sabia que ela era fogosa, cheirosa, afagos, beijos, prazer, doses de uma bebida azulada em taças de metal... orgasmos sem fim.
Ouvira palavras estranhas, estórias/relatos... a mãe era Jivaro, o pai espanhol, ora falava em português, ora em castelhano, ora usava expressões numa língua não entendível.
Ayacucho, Nazca, Cusco y Puno... pedras sulcadas, cerâmicas policromadas, instrumentos ritualísticos... prazer e mais prazeres, nas mais diversas posições...
Acordou... dormira no volante, olhou o relógio, leu 02:13 horas, o calendário marcava 03 de fevereiro... tinha no corpo o cheiro de ervas, ligou o carro que estacionado estava frente ao poliesportivo, sem nada entender, dirigiu-se até o Viana, pediu um café, ouvindo da Ciça:
- Doutor... que perfume, o carnaval deve ter sido muito bom!
- Como? Por quê? Que dia é hoje?
- Dia 06, quarta-feira de Cinzas.
Sem nada entender... passou a mão no pescoço, tinha um adorno, preso por embira, uma "serpiente bicéfala em oro laminado, filigrana/repujado", no bolso da calça uma "faja tejida, chumpi" para dar sorte... continuou sem nada entender mas... nunca mais conseguira achar indícios da casa, da jovem, de tudo... de si mesmo! Um momento que nem o sábio Garcia conseguiu explicar... até hoje, sente o hálito de hortelã, o calor, o cheiro de ervas... saudades! Carnaval!
a.begossi
a.begossi@opantaneiro.com.br
03/02/08
Natural da cidade de Salto-SP, reside em MT desde 1970, recebendo o título de Cidadão Aquidauanense. É economista, artista plástico, professor aposentado da UFMS e articulista do Jornal O Pantaneiro.
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