O Pantaneiro

sexta, 21 de outubro de 2011

Crack

Há dias, aproveitando uma manhã de domingo, percorri de carro os principais pontos da cidade onde “moram” os dependentes químicos do crack.
 
Fiquei impressionado com o número de jovens, de ambos os sexos, acendendo o cachimbinho da droga.
 
Tudo na mais absoluta tranquilidade, diante da ausência do poder público e a da indiferença da sociedade.
 
A droga também foi banalizada.
 
Esses jovens são praticamente crianças que, apesar de possuírem, com certeza, uma mãe, estas se sentem impotentes frente a essa destruidora doença.
 
Maltrapilhos, mal alimentados, envelhecidos, são mortos andando sem assustar a nossa alienada sociedade, já que o poder público, geneticamente, é.
 
As imagens produzidas pelos clarões dos cachimbos acendendo a pedra mortal, dificilmente esquecerei.
 
Sinto-me impotente diante de tanta crueldade, pois essas crianças-adolescentes estão doentes, sem assistência médica e social, em um Estado riquíssimo.
 
Somos os maiores produtores de alimentos do mundo e de menores abandonados, o que é, no mínimo, uma incoerência.
 
No papel consta que temos algumas casas de reabilitação desses doentes, mas na verdade, elas funcionam mais como um depósito de dependentes.
 
Falta o essencial, que é gente habilitada para atender este tipo de paciente, outrora considerado marginal.
 
Uma luz está surgindo no final do túnel. A nossa professora-doutora em saúde mental de dependentes químicos - Delma Souza -, conseguiu incluir a nossa UFMT entre as 44 instituições no Brasil que cuidarão da formação de equipes multidisciplinares para cuidar desses pacientes nos PSF, Policlínicas, ambulatórios e casas de atendimento aos mais graves.
 
Sem gente esclarecida e preparada não se faz nada.
 
Com competência a nossa professora, que é oriunda do curso de Serviço Social da UFMT, e agora, uma das responsáveis pela pós-graduação, trouxe para a academia a discussão esse tema tão atual.
 
Pela proximidade com um dos países exportadores dessa droga que mata, é elevado o número de dependentes químicos no nosso Estado.
 
O pior é que funcionamos como corredor de entrada do pó maldito no Brasil para exportação.
 
Além do crack, as camadas com menos recursos financeiros conheceram, na cracolândia paulistana, um produto mais barato e mais agressivo à saúde, que é o oxi, derivado da cocaína.
 
A cocaína é absorvida pela mucosa nasal. O crack, oxi e a pasta básica são consumidos pela aspiração no cachimbo. As drogas inaladas pela fumaça são as mais letais e as mais consumidas no nosso Estado.
 
O oxi é fabricado a partir do querosene e cal virgem, para redução dos seus preços no mercado das drogas.
 
A dependência química é uma doença, e não, safadeza - além de ser motivo de grande sofrimento familiar.
 
A nossa professora Delma da UFMT encarou o desafio de, pelo menos, minorar o sofrimento de tanta gente em nosso Estado, propondo a formação de equipes multidisciplinares para enfrentar esse terrível problema.
 
Acredito que o caminho seja esse: formar gente. Depois, prédios com placas dos pedreiros eleitoreiros.
 
Parabéns, professora Delma, pela iniciativa! E parabéns também à nossa UFMT, que nasceu sem o DNA da enganação!
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Sobre o colunista

Gabriel Novis Neves

Reitor fundador da Universidade Federal de Mato Grosso, é médico em Cuiabá.

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