O Pantaneiro

segunda, 06 de junho de 2011

Reflexões em torno de Daniel 9:1-19.

Marcos Antonio dos Reis Franco
e-mail:
mreisfranco@hotmail.com

Não é uma tarefa fácil, para um helenista familiarizado com os períodos arcaico e clássico gregos, analisar um material literário produzido nas regiões sobre a influência do império selêucida. Esta empreitada torna-se ainda mais complicada quando se considera que esse material não foi produzido por um autor grego, nem originalmente escrito em grego. Em se tratando de Daniel, as dificuldades só tendem a aumentar, já que o seu livro apresenta uma série de "armadilhas" históricas, capazes de confundir até mesmo o especialista no assunto. Não é sem propósito, neste sentido, que o título do referido artigo traga a idéia de reflexão, já que ele busca compartilhar com o leitor algumas observações acerca da passagem Dn 9:1-19.

Como ponto de partida, há um aspecto que perpassa a referida obra: as imprecisões históricas. Elas parecem sugerir um desconhecimento do autor, principalmente na primeira parte do livro, do próprio contexto histórico onde a ação se desenrola. Quanto mais distante temporalmente a narrativa se situa do período de Antíoco IV Epífanes, onde o autor do texto demonstra possuir não apenas um bom conhecimento, mas também um enorme interesse, maiores são as possibilidades de acontecerem estas imprecisões. Assim, por exemplo, para o período babilônico, elas ocorrem logo no inicio das primeiras linhas das narrativas. O autor observa (Dn 1:1) que o rei Nabucodonosor participou diretamente do cerco de Jerusalém. Esta afirmação apresenta os seguintes problemas: de imediato, Nabucodonosor, naquele momento, não era rei, já que o seu pai, Nabopalasar, ainda estava vivo; segundo problema: ele não participou do cerco de Jerusalém. Imediatamente após a batalha de Karkemís, em 605 a.c, ele retornou a Babilônia, já que o seu pai estava muito enfermo, tornando rei em 605 a.c.

Com relação ao período persa, em que pese o fato de existirem pouquíssimas, informações sobre essa época ao longo da narrativa, o autor afirma (Dn 5:30-31) que Dario, o medo, conquistou a Babilônia com a morte de Baltazar. Ocorre porém que não há nem um registro histórico que comprove a existência deste Dario. Ao contrário, os documentos assinalam Ciro, o persa, sendo conquistador da Babilônia.

A leitura do livro de Daniel pode ser dividida em duas partes, os capítulos 1 a 6 - que tratam das histórias de Daniel e seus três Companheiros - constituem a primeira parte; já os capítulos 7 a 12 - relacionados com as visões apocalípticas - compõem a ultima parte da narrativa.

Retornando agora á oração de Daniel (9:1-19), ela pode ser entendida no interior do contexto de criticas ás idéias helenizantes que estavam perpassando toda a sociedade judaica, particularmente, mas não exclusivamente, a de Jerusalém. Esta oração insere-se no inicio das lutas, ou provavelmente, no período que antecede a revolta macabéia. Esta oração busca aglutinar forças contra o inimigo comum, qual seja: Antíoco IV Epìfanes, no particular, ou o império selêucida, no geral.

Em termos conclusivos, o emprego repetidamente da primeira pessoa do plural ao longo da oração, associando o nós aos pecadores, iníquos, ímpios, infiéis, transgressores da Lei, chama para uma proposta de reconciliação entre as partes da sociedade judaica. Elas precisam estar coesas, unidas em torno do objetivo comum, qual seja: libertar Israel da opressão religiosa. Neste caso, o autor da oração estaria enfatizando uma visão histórica mais particularista do que universalista. A questão, portanto não estava em criticar abertamente as influências helenizantes da sociedade judaica, já que esse procedimento não aglutinaria o todo, mas, ao contrário, o dividiria. Daí o fato de que a presente oração, muito embora transpire todo um contexto histórico tenso, busque chamar Israel sob o argumento religioso e não histórico.

Referência Bibliográfica:
CHEVITARESE, André; CORNELLI, Gabriele. Judaísmo, Cristianismo e Helenismo: Ensaios acerca das interações culturais do Mediterrâneo Antigo. São Paulo: Annablume. 2007.

* Marcos Antonio dos Reis Franco é Acadêmico da 4ª Série do Curso de História da UFMS/CPAQ.

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