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Ciência

Felicidade não se compra, mas confiança, sim

Para pesquisadores, a criação de um sistema financeiro foi crucial para tornar possível a vida em sociedade

1 SET 2013 - 13h00min
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Um estudo feito por economistas de universidades dos Estados Unidos e da Itália concluiu que o dinheiro pode ter sido crucial para que os humanos consigam viver em grandes grupos. De acordo com os pesquisadores, o dinheiro pode ser usado para 'comprar' e 'vender' cooperação, servindo de lastro para que desconhecidos estabeleçam relações de confiança.
 
Enquanto as primeiras sociedades humanas eram pequenos grupos de coletores ou caçadores, em que todos cooperavam, as sociedades modernas se mantêm devido aos esforços coordenados de inúmeros desconhecidos.
 
Para analisar como o dinheiro influencia o comportamento das pessoas, o economista Gabriele Camera, da Universidade Chapman, na Califórnia (EUA), em parceira com sua equipe de pesquisadores, desenvolveu uma série de experimentos. Os resultados foram publicados no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
 
Confiança ? Em uma sala com computadores, os participantes do primeiro grupo jogaram o "jogo da ajuda" ("helping-game"), em grupos virtuais de duas, quatro, oito ou 32 pessoas. Nesse jogo, as pessoas interagiam em pares escolhidos aleatoriamente, sendo um membro de cada par designado como produtor e outro como consumidor.
 
Cada jogador começa com oito unidades de uma moeda virtual que seria convertida em dinheiro para os participantes ao final do experimento. A cada rodada, o produtor deve decidir se ajuda ou não sua dupla. Ao fazê-lo, o produtor abre mão de seis unidades, e o consumidor recebe doze. Se o produtor decide não ajudar, os dois terminam a rodada com o mesmo número de unidades com que começaram.
 
Nas condições descritas acima, quanto maior o grupo, menos as pessoas se ajudavam. Enquanto nas duplas a cooperação era de 70,7%, em grupos de 32 pessoas ela caiu para 28,5%. Segundo os pesquisadores, isso provavelmente acontece porque as pessoas apostam na reciprocidade direta, ou seja, uma retribuição vinda de quem eles ajudaram. Em grupos grandes, a chance do mesmo par interagir mais de uma vez é muito pequena (3,2% no maior grupo), de forma que as pessoas ficam mais desconfiadas e cooperam menos.
 
Moeda de troca ? O segundo experimento era similar ao primeiro, mas com um novo fator: os tokens (palavra em inglês para símbolo, sinal). Além das unidades de moeda virtual, cada jogador recebia também dois tokens, que não tinham qualquer valor no mundo real, nem seriam convertidos em dinheiro. Eles serviam apenas como uma moeda de troca de favores. Assim, as pessoas podiam optar por cooperar em troca de um token, que na rodada seguinte poderia ser usado para 'comprar' a cooperação de outra pessoa.
 
Assim, esse sistema monetário primitivo passou a funcionar com base na crença de que era possível 'vender' e 'comprar' ajuda em troca de tokens. No novo cenário, a cooperação se manteve estável, independentemente do número de participantes em cada grupo, com uma média de 52,1%. Em comparação com o primeiro cenário, a existência dos tokens reduziu a cooperação entre grupos muito pequenos e aumentou-a em grupos grandes. No maior grupo, com 32 pessoas, o índice de cooperação passou de 28,5% para 51,7%, com os tokens. Já entre as duplas, ocorreu o oposto. Esse valor passou de 70,7% para 54%.
 
Para os pesquisadores, esses resultados mostram que o dinheiro desempenha o importante papel de tornar possível a cooperação humana em larga escala. "Nossa pesquisa sugere que as normas de cooperação voluntária são difíceis de prevalecer em uma sociedade de desconhecidos, a não ser que elas sejam mediadas por alguma instituição. No experimento, a troca monetária, uma das instituições econômicas mais básicas, levou a um nível de cooperação estável em pequenos e grandes grupos?, escrevem os autores no estudo. Por outro lado, eles admitem que a existência de um sistema monetário prejudicou a cooperação voluntária entre as pessoas, vinculando a ajuda a uma recompensa estabelecida.

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