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06 de abril de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: FANTASIAS

Giovani José da Silva
23 FEV 2020 - 17h38min

       Mais um Carnaval passando e eu, que nem gosto tanto assim da festa de origens pagãs, estou cá a conversar com meus próprios botões sobre alguns acontecimentos da última semana, em especial aquele que diz respeito ao uso “politicamente correto” de fantasias e adereços. O que pode ou não pode ser usado? A rigor, não caberia a mim (e penso que nem a qualquer outra pessoa!) decidir o que pode/ deve ou não ser vestido por foliões e folionas no Carnaval ou em qualquer outro festejo popular, especialmente aqueles que mesclam o sagrado e o profano (desde que, me parece óbvio, não sejam transgredidos os limites do bom senso)! Contudo, permitam-me, caros leitores, recuperar as origens da palavra fantasia (ai, ai, mania de historiador, diriam alguns!). “Fantasia” deriva do Latim (phantasia), e, por sua vez, trata-se de uma herança do Grego (phantasía), sobre a qual se associa a phantos, a partir da ideia de algo que se mostra (phainesthai), também vinculado à ideia de revelar algo ou tornar visível (phainein). No campo linguístico, sobre a base grega, compreende-se termos como “fantasma” (phántasma), e “fantástico” (phantastikós). Pois bem, Fântaso ou Fantasos (possivelmente do grego Φαντασος, transl. Phantasos, pelo latim Phantasus) é uma figura da mitologia grega, um dos oneiros (ou oniros), irmão de Hipnos (sono) e filho de Nix (noite). Aparece nos sonhos, na forma de objetos inanimados ou “sem vida” (no sentido greco-romano), como elementos da natureza (rochedos e bosques). Seus outros irmãos, Morfeu – que ao tomar a forma humana é capaz de imitar as peculiaridades mais sutis de cada pessoa – e Fobetor (conhecido, também, como Ícelo) – que toma a forma das bestas, podendo imitar aves, quadrúpedes e serpentes – o auxiliam nos sonhos: enquanto Morfeu vigia os sonhos plausíveis, Fobetor cuida dos pesadelos. Fântaso seria o mensageiro daqueles sonhos em que as coisas sem vida parecem ter seu próprio espírito. Voltemos, pois, às fantasias de Carnaval e à polêmica instaurada a partir dos usos delas. Uma fantasia, no sentido aqui tomado, é uma evocação, uma lembrança de algo ou de alguém. Assim, fantasiar-se de “índio” traria consigo uma lembrança, evocaria uma identidade (por suposto, genérica e bastante colonialista) e representaria uma liminaridade, uma inversão de papéis (o homem que se traveste de mulher e, nesse caso, o não indígena que se fantasia de “indígena”). Claro está que não estou aventando a possibilidade de se utilizar qualquer coisa (como uma fantasia de “nazista”, por exemplo, com direito à suástica e apologia à violência), mas é necessário tomar cuidado com a “patrulha” e o “politicamente correto” que assolam o país (além de outras besteiras, como diria Sérgio Porto). As populações indígenas, de Norte a Sul/ de Leste a Oeste do Brasil vivem um momento dramático, em que setores da sociedade não indígena avançam sobre suas terras e sobre suas vidas, com os mais distintos e escusos interesses (econômicos, religiosos etc.). Implicar/ Excluir/ Cancelar alguém porque se vestiu de “índio” no Carnaval me parece de uma infantilidade (para não dizer imbecilidade) tamanha, quando há tantos (reais, não fantasiosos) problemas a serem enfrentados coletivamente no Brasil de hoje, de agora. Voltando à Fântaso, precisamos de fantasia (em todos os múltiplos sentidos da palavra), sim, nos lugares em que cabe fantasiar (em uma rua, por exemplo, em meio aos brincantes) e de sonhos para enfrentarmos a dura realidade de vivermos em um país que historicamente maltrata tanto a Educação de seus cidadãos, não indígenas e indígenas, esses últimos distribuídos em mais de 250 grupos diferentes. E precisamos sair, urgentemente, do “mundo de fantasia”, da “bolha” em que tudo parece tão bem (a Economia, a Saúde, a Segurança Pública etc.) e não está! De um lado vemos gentes reafirmando que já estivemos muito bem (obrigado!), saudosistas de um passado recente em que as mesmas populações indígenas de agora se viam/ se sentiam vilipendiadas em seus direitos históricos; de outro, os defensores de tudo o que aí está e que se resume à destruição, morte e tristeza! Eu não saio pelas ruas no Carnaval, mas também tenho a minha “fantasia”, transmutada em sonho de uma noite de verão macapaense: a de que paremos de discutir o “sexo dos anjos” (ou a “fantasia usada pela atriz fulana de tal”) e nos ocupemos todos do que realmente interessa: índio não quer apito, não quer tutela e tampouco quer “patrulheiros” de plantão da fantasia alheia: os indígenas que vivem no Brasil (e pelo mundo) querem respeito, direitos constitucionais garantidos e a certeza de que sobreviverão com dignidade em suas terras! Afinal, não se “preservam” culturas e tradições sem a preservação das vidas humanas que elaboram tais “culturas” e “tradições”. Se não pudermos afiançar isso, podem ter certeza, o “pau irá comer”, infelizmente para todos nós, “índios” e “não índios”!

 

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