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21 de fevereiro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: O JARRO DE PANDORA

Giovani José da Silva
9 FEV 2020 - 14h04min

         O leitor acostumado à mitologia greco-romana (muito mais do que às mitologias africanas, afro-brasileiras e/ ou indígenas, infelizmente) deve achar que me equivoquei no título atribuído ao texto desta semana para a coluna Histórias de admirar. Na verdade, a famosa “caixa” tratava-se, na narrativa mitológica original, de um jarro! A tal “caixa de Pandora” é, pois, um artefato presente no mito da gênese da primeira mulher criada por Zeus. O grande jarro continha todos os males do mundo e quando sua proprietária o abriu, deixou escapar praticamente todo o seu conteúdo maligno, menos a “esperança”. No mito, vejam só, a “esperança” é vista como um mal da Humanidade, uma vez que traria uma ideia superficial acerca do futuro, inclusive paralisando as ações no tempo presente... Pandora fora criada com um único defeito – a curiosidade – e Zeus, esperta e vingativamente, lhe dera o jarro porque sabia que, um dia, a vontade da curiosa mulher a levaria a abri-lo e a libertar o mal pelo mundo, castigando os humanos pelo fogo que haviam recebido de Prometeu contra a vontade do deus dos deuses. E o que isso tem a ver com a nossa história de admirar? Ora, caros leitores, se ainda não perceberam estamos vivendo um momento em que a nossa “caixa de Pandora” já foi aberta e todas as mazelas que acometem a sociedade brasileira há séculos (sim, eu reafirmo: há séculos) se espalham com grande velocidade e voracidade. Nos espantamos com os erros crassos de postura, de Gramática e outros, de ministros de Estado e do atual presidente da República e de seus asseclas? Nos divertimos em fazer piadas com as lambanças perpetradas por agentes públicos que colocam diariamente em risco as vidas vulnerabilizadas de grupos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros, além de servidores públicos, na ativa ou aposentados? Nos apressamos em dizer, com certo orgulho indisfarçável, “eu avisei” e apaziguamos nossas consciências de que estivemos sempre do lado “certo” e nada temos a ver com o que está acontecendo? Lamento em informar, mas tudo o que está havendo agora (e o que ocorreu antes e o que ainda acontecerá) se encontra dolorosamente entrelaçado ao tipo de sociedade que construímos ao longo do tempo (sim, cara pálida, NÓS todos), assentada na escravização de indígenas e africanos e seus descendentes, na falta de Educação Básica a todos, nos privilégios e benesses reservados somente a alguns indivíduos e suas poucas famílias, transmitidos hereditariamente (lembram-se da lição de História sobre as capitanias hereditárias? Pois é...). Abriram a “caixa de Pandora” do Brasil! E agora? Fingir que nada temos a ver com isso, que “eu avisei” ou fazer troça daqueles que estão no mesmo barco que nós (e o barco está afundando...), enquanto o circo e o pão pegam fogo, não me parecem ser atitudes que se pretendam racionalmente viáveis para a mudança do estado de coisas. Não nos esqueçamos de que Pandora estava envolvida em uma trama de vingança de Zeus e fez exatamente o que se esperava dela: abriu o jarro! Como esperar atitudes diferentes de uma parte da população brasileira que frequentou aulas aborrecidas de História e que não aprendeu a compreender os fenômenos fascista e nazista, contextualizando-os, por exemplo? Quem os educou para pedirem o retorno à ditadura militar? Alguns dirão: – Ah, Giovani, você não está levando em conta os meios de comunicação e o poder deles sobre as pessoas! Então, eu me/ lhe pergunto: se a TV em passado recente (outra “caixa de Pandora”) e a Internet se fazem onipresentes em meio à população, especialmente a que vive na pobreza/ miséria (e que não dispensa um celular de última geração), o que estamos fazendo? Ensinamos os alunos a lidar com as informações transmitidas/ distorcidas/ manipuladas ou, simplesmente, dizemos que não assistimos a TV faz muito tempo e que estamos livres do problema em nossos lares? A sociedade brasileira, em seu conjunto, fez como Pandora e atuou exatamente como se esperava dela nas últimas eleições: uma sociedade em que grassa o analfabetismo funcional, o “sebastianismo”, a miséria material/ intelectual/ espiritual escolheria outra coisa que não abrir o jarro da boçalidade e da estupidez? Enquanto isso... Formadores de opinião debatem em ambientes esterilizados, longe das ruas e do povo, os rumos da Nação, sem olhar para a própria arrogância intelectual que nos levou a uma compreensão pálida e pérfida do que é realmente ensinar e aprender História, obrigando alunos a decorar nomes, datas e “conteúdos”. Felizmente, recuperando a narrativa mítica, no jarro de Pandora (ou na “caixa", como preferir) ainda existe algo que, mesmo tendo sido considerado maléfico, pode nos redimir a todos e ajudar a atravessar o deserto em que nos colocamos como sociedade: a esperança! Há esperança!

 

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