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02 de junho de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: O PODER DAS PALAVRAS

Giovani José da Silva
23 MAI 2020 - 14h07min

         “O peixe morre pela boca”, afirma o ditado popular, assim como os humanos! Acalmem-se, caros leitores, pois felizmente há outra face nesta mesma “moeda”: assim como os peixes, os humanos vivem pela boca, também... Com isso quero chamar a atenção de todos nós (inclusive a minha) para o cuidado, a cautela, o zelo com as palavras, sejam elas ditas, escritas, cantadas, sussurradas, lançadas ao vento a plenos pulmões. Na semana que se encerra hoje, 23/05, tivemos exemplos do mau uso das palavras. Mal ditas palavras saíram das bocas dos que deveriam utilizá-las para proteger, para salvaguardar, para cuidar de gentes, bichos, paisagens em nosso imenso e mal tratado país. Sem pretender “naturalizar” o absurdo, “espetacularizar” o abominável ou mesmo me isentar do debate, o que mais me chamou a atenção na tal “reunião” ministerial foi que, ao acompanhá-la, “revivi” momentos outros, uma vez que me trouxe à lembrança algumas reuniões de trabalho, de amigos ou de família. Sim, a autocrítica não me permite esconder que eu já me calei diante de inúmeros palavrões proferidos de certas bocas (sujas, diríamos quando crianças), em ambientes absolutamente incompatíveis com tal atitude. A maioria ri, alguns poucos como eu ficam constrangidos, mas ninguém – repito: ninguém – se manifesta de forma a “frear” esse tipo de comportamento em público. Não, em reuniões de família não ouvi falar em “reformas infralegais” (que eu me lembre!), mas já vivi momentos de intenso/ tenso constrangimento e de contrariedade com tanto machismo, tanta homofobia, tanta misoginia sendo destilados com hálitos cheirando a veneno, intolerância e morte (além de cerveja). Isso tudo não pode/ deve ser o “normal”, mas é fato que vivemos em uma sociedade (sim, estou generalizando e penso poder fazer isso, depois de viver em três regiões geográficas brasileiras distintas e em seis Estados diferentes, ao longo da vida) extremamente excludente, desigual, racista e com muitos e muitos outros adjetivos deletérios. Tudo isso não é novo, visto que somos herdeiros de uma colonização europeia que se construiu sob o signo de intensa violência, especialmente frente a africanos e seus descendentes e a indígenas. A língua Tupi, falada no litoral, e outras tantas línguas nativas foram sendo aniquiladas e substituídas pelo Português, a ferros e à força. Criaram-se, assim, palavras para inferiorizar, humilhar, espezinhar, ferir, matar... Sim, palavras podem matar. No entanto... Que bom que há palavras como “entretanto”, “porém”, “contudo” ou “todavia” para esses e outros casos. No entanto, palavras fazem viver, reabilitam, recuperam, podem encantar e curar. Isso eu aprendi com pajés/ xamãs indígenas que conheci ao percorrer aldeias, rios e cidades e me encontrar com anciãos e anciãs indígenas que carregavam consigo o poder da palavra. Aprendi, por exemplo, com o velho koixomuneti Daniel Vicente Terena que quando não temos uma palavra boa para oferecer a alguém, é melhor o silêncio... “Palavra boa” é uma expressão utilizada por diversos povos indígenas (nunca “odiei” o termo) e na minha casa materna significou, desde sempre, aversão aos palavrões e às palavras duras de ofensas, mágoas e ressentimentos. É certo que eu e minhas irmãs já quebramos por diversas vezes o “decoro” das palavras e é triste lembrar que em minha casa paterna havia no ar muitos dizeres de ira e desamor... Ah, mas da boca de Dona Gregoria nunca ouvimos uma palavra que não fosse boa, que não fosse acolhedora e bendita. Segundo ela, somente assim os caminhos dos seus seriam abertos, livres de tropeços e de entulhos. Somos um país de tropeços e de entulhos e falta-nos muita coisa, especialmente Educação, para nos tornarmos um lugar verdadeiramente lar para todos os brasileiros. Ao sermos displicentes com a palavra negligenciamos também todo o restante, a Nós e aos Outros. Uma vida boa somente poderá ser construída com palavras boas, ações corretas. Penso que por isso tenha tanta dificuldade em xingar, em vociferar palavrões na cara de alguém, em maldizer ou postar impropérios no Facebook (embora, confesso, não me falte vontade, às vezes). Exercer a palavra boa: esta é uma tarefa urgente que cabe a cada um de nós, em meio à pandemia do Coronavírus, em meio ao pandemônio dos maus modos e das palavras malditas, mal ditas. Oxalá que aprendamos todos a cuidar melhor daquilo que sai de nossas bocas (pois é ali que está o mal e não no que entra, de acordo com famosa passagem bíblica), que sejam palavras de encorajamento, de ternura, de respeito (pela dor do Outro, inclusive!), enfim, que sejam palavras bem ditas!

P.S.: Não poderia encerrar o texto sem deixar de lembrá-los, caros leitores, que, entretanto, haverá sempre muitos peixes que morrerão pela boca. E humanos, também!

 

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