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29 de maio de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: O TEMPO SÓ EXISTE PARA QUEM ESPERA

Giovani José da Silva
27 MAR 2020 - 18h56min

         Em casa, enclausurado, em isolamento social por conta da pandemia provocada pela disseminação do novo Coronavírus ao redor do mundo, me coloquei a pensar/ sentir/ perceber a respeito do que o tempo de espera nos provoca/ desperta/ ensina. Nesta semana que se finda amanhã, sábado, fui envolvido pela sombra/ mortalha das memórias da infância roubada e transportado para São Paulo, capital, minha terra natal, em um dia cinzento em que os céus pareciam também chorar, assim como eu. Meu pai, João José da Silva (Sertãozinho, SP, 29 de março de 1943 – São Paulo, 25 de março de 1976), se foi em uma quinta-feira “chuvisquenta” e fria, sem tempo para despedidas, aconselhamentos ou quaisquer salamaleques... Tão jovem – e, ao mesmo tempo, tão enfermo –, deixou a mim e minhas irmãs, além de nossa mãe, à própria sorte, sem eira e nem beira (física ou emocional!). Eu era muito pequeno, mas me lembro dos dias de luto que se seguiram à partida dele e de como desejava que o tempo passasse/ parasse a fim de que cessasse a dor... Ledo engano infantil: com o passar dos anos as saudades cresceram em ritmo e em tamanho vertiginosos e o desejo (louco, alguns diriam) de que meu pai retornasse, de que tudo teria sido apenas uma brincadeira de (muito) mau gosto, só aumentava! Estamos em 2020 e vejo pela televisão comboios de inúmeros caixões, na Itália, em geral contendo os corpos de idosos vitimados pela Covid-19, mais de 500 por dia... No outono da vida, aquelas pessoas, e outras mais pelo Brasil e pelo mundo, tiveram suas vidas arrancadas pelo terrível hálito da morte espalhado por todos os recantos do planeta... Penso/ Sinto e choro por meus amigos na Europa, enterrando pais/ avós/ bisavós e espero chegar a hora de – de alguma forma – ser atingido (in)diretamente pelo tsunami da pandemia/ do pandemônio. Tempo de espera... Enquanto vivemos, esperamos o dia da partida que, assim como o da chegada, escapa ao nosso controle, posto ser imprevisível (há exceções, é claro...). Nascer, morrer e, entre as duas pontas dos delicados fios do destino, viver. Meu pai teve seus fios cortados abruptamente por Átropos, uma das Moiras/ Parcas/ Fates da Mitologia, ainda muito jovem. Eu mesmo já vivi pelo menos 15 anos a mais que ele! Nesses últimos quarenta e quatro anos de espera (pois eu confesso, caros leitores: aguardo um reencontro) não houve um dia em que me esquecesse de sua figura singular: um homenzarrão alto, magro, inquieto, com cara de poucos amigos (assim como eu...). De que maneira poderia olvidá-lo se sou “igual” a ele, inclusive no jeito teimoso e impaciente? Como perder sua memória, para sempre, se ao me olhar em algum espelho, ao fazer a barba ou mesmo ao falar eu o vejo, percebo suas mesmas manias, ainda ouço sua voz anasalada ou sinto o cheiro de sua loção de barbear? Ah, o tempo transforma tudo, mas é incapaz de apagar recordações de um menino que subia no “cangote” do pai e fazia dele o seu “cavalinho alazão”. Não, não desejo que o tempo retorne, pois o sentido da vida é para frente, lição aprendida com os anciãos indígenas com quem tive o privilégio de conviver. Com eles também aprendi que o que sou, o que fui, o que serei é muito daquilo que meu pai me legou e que não pode ser traduzido somente pela “parecência” física: temos laços espirituais eternos, formados pelos tais fios do destino, entrelaçados por vezes em angústia e dor, outras vezes em alegrias e esperanças. Esperar: é tudo o que nos resta nesses tempos de novo Coronavírus, pandemia de Covid-19, isolamento social. Assim como os indígenas que plantam e aguardam, pacientemente, o tempo da colheita ou como aqueles que caçam/ coletam e expectam o tempo bom para acossar este ou aquele animal, catar esta ou aquela fruta, colher o mel, assim estamos nós, esperando que o dia “chuvisquento” e frio dê lugar a um ensolarado e caloroso momento em que cada minuto de aspiração/ desejo/ ânsia se faça valer a pena. Agora entendo que meu pai esteve presente o tempo todo comigo/ em mim, inclusive na escolha em ser professor de História/ historiador. Ao lidar com a “ciência dos homens (e das mulheres e de todos os seres humanos) no tempo”, aprendi no chão da escola, nos terreiros e quintais de uma aldeia indígena ou sentado no colo de minha mãe, ainda de luto e preparando-se para a luta, que o tempo, ah, o tempo só existe para quem espera...

 

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