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03 de julho de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: UM MERGULHO NO CAOS

Giovani José da Silva
13 ABR 2020 - 21h06min

         Em tempos de pandemia/ pandemônio tenho me mantido mais introspectivo do que de costume (porque morando em Macapá, sem família e com pouquíssimos amigos por perto, isolado eu já estou há tempos...) e aproveito o tempo para refletir sobre como as pessoas aprendem! Sim, caros leitores, se tem algo que me preocupa desde que me tornei professor – em meados dos anos 1990 – não é, exatamente, como ensinar História ou Língua Portuguesa/ Espanhol, ou qualquer outra coisa, mas como uma criança, um adolescente/ um jovem, um adulto, uma pessoa idosa aprendem. Afinal, nossa crônica falta de Educação (em todos os sentidos) nos fez chegar à situação em que nos encontramos e eu ainda vejo/ percebo muitas gentes mais preocupadas em xingar, ironizar, lembrar que avisaram, dizer – em alto e bom som – que nos tempos de fulano ou cicrana tudo era melhor (será?), mas vejo quase ninguém se perguntando se o que temos hoje não seria o espelho/ o reflexo de uma sociedade que se construiu sobre os alicerces da desigualdade extrema, dos privilégios a determinados indivíduos e grupos, do compadrio e da falta de Educação, dentre outras mazelas. Ah, lá vem o Giovani culpar – novamente – os professores e as professoras pela situação em que nos encontramos... Não se preocupem com isso, pois não estou me esquecendo dos baixos salários, da precarização do trabalho docente, da falta de infraestrutura e da ausência de políticas públicas voltadas para as reais necessidades de nossa sociedade. A questão é que quando se fecha uma porta de uma sala de aula e lá dentro um professor/ uma professora (de História) se vê diante de seus (muitos) alunos, ela/ ele, de fato, tem a preocupação de como as pessoas aprendem? Eu arrisco afirmar que, na esmagadora maioria dos casos, a resposta seja negativa! Nem faço distinção entre escolas públicas ou particulares, urbanas ou rurais, pois em todas elas predomina a ideia de que ensinar bem é ensinar somente conteúdos. Não importa se aquilo tenha ou não significado, faça (ou não faça) sentido: o importante é que os alunos sejam “abastecidos” com conteúdos que, uma vez “assimilados”, serão despejados em provas/ avaliações/ verificações da aprendizagem. Contudo, de que aprendizagem se está falando? Em História, por exemplo, os conteúdos são voltados majoritariamente para a história dos europeus, sendo, portanto, eurocêntrica e colonialista. Como as coisas são assim, pelo menos desde o século XIX, qual seria a razão de se mudar o status quo? Ouso afirmar que a principal razão para a mudança seria porque chegamos a uma situação insustentável, em que as pessoas desacreditam do conhecimento acumulado por cientistas e se apegam a mentiras propagadas por diversos meios de comunicação. Os púlpitos e os palanques substituíram os espaços de aprendizagem, formais e informais. Temos um tosco ocupando a presidência da República? Quantos toscos não conhecemos ao longo da vida, quantos não conheci em minha jornada, tendo morado em sete diferentes Estados da Federação (Amapá, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo)? E não estou me referindo apenas a gentes não estudadas, pois há muitos mestres e doutores toscos, sabichões que ostentam títulos e publicações e que não aprenderam o básico: fracassamos como sociedade e de nada adiantarão conquistas pessoais/ individuais (e tampouco a frase feita “eu estou fazendo a minha parte”), enquanto houver um oceano de pessoas que não comem o suficiente por dia, que não têm acesso à Escola (e quando têm, recebem uma absurda carga de conteúdos), que são desrespeitadas cotidianamente no direito a existir com dignidade. Não sabemos lidar com isolamento social, nem com Coronavírus e muito menos com nossas próprias mazelas sociais. Deve ser porque nas escolas em todos os quadrantes do Brasil o que se encontra muito é “ensino” de conteúdos, mas pouca dedicação à aprendizagem de conceitos (da dimensão conceitual e não da definição de palavras), de atitudes (de empatia, de solidariedade, de assertividade, de autonomia etc.) e de procedimentos (de pesquisa, de autoavaliação). Não se fala de morte, nem de como doenças foram combatidas ao longo da História, não se fala de sexualidade (cuidados e higiene com o próprio corpo e com os corpos que nos rodeiam), enfim, não se fala da vida... Depois, me perguntam como a situação chegou aonde ela se encontra, com gentes tão mal preparadas conduzindo nossas vidas sem rumo. Uma volta pelas ruas, escolas (e universidades, também) localizadas longe das ilhas de excelência, dos condomínios fechados e das “bolhas” poderia dar uma ideia da vida – como ela é – nesse país... E não, cara pálida, nem eu e nem você estamos fazendo a nossa parte, porque se estivéssemos nós não estaríamos mergulhados no caos...

 

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