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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: A BOLSA E O NADA OU OS LADRÕES DO TEMPO/ DA VIDA

Giovani José da Silva
23 JUN 2019 - 20h42min

      O título do texto para a coluna, nesta semana, remete ao nome de uma obra lida há tempos, na graduação no CeUA/ UFMS, entre 1991 e 1995, em modorrentas aulas de História Medieval. É, também, uma referência à crônica cujo título é A bolsa e a vida, de autoria de Carlos Drummond de Andrade, além de uma brincadeira com o som de certo sobrenome de políticos que atormentam o Brasil há anos. Em A bolsa e a vida: a usura na Idade Média (Brasiliense, 1989), o medievalista francês Jacques Le Goff (1924-2014) aborda Economia e Religião, por meio da “bolsa” e da “vida”. A “bolsa” caracterizaria a Economia, representada pelo dinheiro “sujo” adquirido por meio de usura (cobrança de juros) pelos usurários/ agiotas, considerados “ladrões do tempo” (uma vez que o tempo pertenceria somente a Deus). A “vida”, por sua vez, caracterizaria a Religião, representada pela salvação, a redenção concedida por Deus no Purgatório aos “ladrões do tempo”. Já o texto do poeta brasileiro Drummond (1902-1987) trata-se de uma crônica levemente bem humorada sobre os dilemas éticos/ morais vividos por alguém que encontra uma bolsa feminina em certo coletivo. Como os textos se relacionam, além de terem o mesmo título? Ora, tanto no escrito de Le Goff quanto no de Drummond há dilemas que tentam ser superados, ou por usurários ou pelo homem que encontra a bolsa. Filosoficamente, o dilema é um raciocínio que parte de premissas contraditórias e mutuamente excludentes, terminando, porém, por fundamentar uma mesma conclusão, ainda que paradoxalmente. Assim, em um dilema, ocorre a necessidade de uma escolha entre alternativas opostas A e B e que resultará em uma conclusão ou consequência C, derivada necessariamente tanto de A quanto de B! Por extensão, pode-se dizer que o dilema se trata da necessidade de escolher entre duas saídas contraditórias e igualmente insatisfatórias. No caso do agiota, sua intenção era manter a “bolsa” e, ainda assim, alcançar a “vida” eterna, ou seja, não ter de escolher entre uma e outra. A usura, contudo, sendo considerada um grave pecado, obrigava-o a questionar-se se, para sua própria salvação, deveria separar-se da “bolsa” (lucro ilícito obtido pelo empréstimo a juros), ou se seria possível encontrar um meio de guardar a “bolsa” e alcançar o Paraíso. Eis o grande dilema do usurário no Medievo europeu: escolher entre o dinheiro e o Inferno. Daí surge o Purgatório, lugar onde as almas ficariam em uma espécie de terceiro plano, sofrendo as dores do Inferno até que seus pecados fossem completamente apagados por penitências, a fim de que a alma fosse, finalmente, encaminhada ao Paraíso. É importante lembrar que o usurário era, também, considerado um “ladrão do tempo”, pois havia um “roubo” que se passava entre o momento do empréstimo e o do pagamento, sendo que o “tempo roubado” pertenceria somente a Deus. Por fim, no mundo medieval o agiota era, segundo Le Goff,  comparado a animais: boi (pesado trabalhador que nunca descansa), leão (raptor de presas), raposa (por não dividir o que tem) e lobo (por carregar na pele toda a riqueza e ter forte ligação com o demônio). Já o homem da crônica de Drummond vive, também, seus dilemas: devolver o objeto perdido à dona ou deixá-lo em algum lugar para que outro a encontrasse? Abrir ou não abrir a bolsa para verificar seu conteúdo? Procurar ou não a dona, incansavelmente, até encontrá-la? O resultado é decepcionante para o homem (sem spoiler), que, ao fim e ao cabo, decide nunca mais pegar nada que encontrasse em lotação! Enfim, quanto ao som do título do texto da semana, evocando certo sobrenome bem conhecido pelos brasileiros, pode-se dizer que ano passado se viveu um grande dilema: escolher entre duas saídas contraditórias e igualmente insatisfatórias. Os “ladrões do tempo”/ da vida de brasileiros e brasileiras agiram/ agem como bois, leões, raposas e lobos, obrigando a todos a escolhas amargas e decepcionantes. Entre a Bolsa e o Nada (de novo!), fomos levados ao Purgatório, a um não lugar por excelência, ao lugar do Nada, das almas errantes e descrentes, outras cínicas e covardes. Diferentemente do que muitos imaginaram, contudo, não fomos conduzidos ao Inferno. Nele, descobrimos agora, já vivíamos antes, muito antes, pelo menos desde 1500!

 

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