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18 de Novembro de 2017
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: AFINAL, PARA QUE SERVE UM PÓS-DOUTORADO?

Giovani José da Silva
11 NOV 2017 - 11h35min

Na semana passada escrevi sobre um projeto idealizado e posto em prática por mim entre indígenas Kadiwéu da aldeia Bodoquena, em Porto Murtinho. Trata-se de um Cursinho Pré-Vestibular/ ENEM que já teve sua primeira etapa realizada nos primeiros dias de outubro e que seguirá ocorrendo no ano que vem, agregando outros professores ao projeto. Alguns talvez se perguntarão: mas, Giovani, você não é professor da Unifap (Universidade Federal do Amapá)? Como esteve no Pantanal por esses dias todos? Licença? Férias? Não, caros leitores, eu estava em estágio de pós-doutorado na UFF (Universidade Federal Fluminense) sob a supervisão da Prof.ª Dr.ª Maria Regina Celestino de Almeida, afastado de minhas funções como docente da universidade onde atualmente leciono. E o que os Kadiwéu têm a ver com isso? No último ano (iniciado em 1.º de novembro de 2016) estive pesquisando a escrita jesuítica de José Sánchez Labrador, espanhol de La Guardia (Província de Toledo) que veio para as Américas ainda muito jovem e conheceu as terras e gentes do que viria a ser um dia o Paraguai. Eu utilizei seus escritos (particularmente El Paraguay católico) em meus estudos de mestrado (sobre os Kadiwéu, orientado por Gilson Rodolfo Martins, na antiga UFMS/ Dourados e atual UFGD) e de doutorado (sobre os Camba-Chiquitano, orientado por Joana Fernandes, na UFG) e me ocorreu retornar aos textos de Sánchez Labrador em busca de novos olhares, com novas perguntas. Então é para isso que serve um pós-doutorado, Giovani? Em meu caso, sim, pois desde que cheguei ao Amapá, em 2013, vinha me interessando mais e mais pela presença jesuítica nas Américas, tanto que atualmente oriento um acadêmico de mestrado profissional em Ensino de História, Bruno Nascimento, que trabalha com esse tema. Não estou/ estava particularmente interessado nos jesuítas, mas em suas impressões e registros sobre os indígenas com quem eles conviveram, verificando em que medida os religiosos foram se “convertendo” à vida “selvagem”, talvez mais do que catequizando os nativos. Aí entram os Kadiwéu em cena: Sánchez Labrador viveu com uma parcela dos antigos Mbayá-Guaikuru, ancestrais dos atuais “índios cavaleiros”, e sobre eles escreveu páginas e páginas em El Paraguay católico, além de nos legar uma gramática bastante interessante da língua indígena. E onde se encontravam os originais desse precioso material? Sem saber muito bem por onde começar, empreendi uma viagem de pesquisas ao Paraguai e obtive referências de que partes da obra do jesuíta que eu estava pesquisando poderiam ser encontradas nos Estados Unidos e na Europa. Lá fui eu, então, a viajar por Espanha e Itália à procura dos documentos (a parte que se encontra nos EUA será publicada em breve e se refere aos Guarani). Nos arquivos de Alcalá de Henares, localizados proximamente à capital espanhola, encontrei os originais de uma das partes da obra, mas que ainda não era o que eu realmente desejava: a gramática e os escritos em língua Guaikuru! Qual não foi minha emoção ao perceber que estava diante dos originais (digitalizados) da parte que realmente me interessava para a pesquisa, quando o diretor do ARSI (Archivum Romanum Societatis Iesu) me mostrou aquelas páginas escritas por volta de 1770, guardadas com tanto cuidado! Fui informado ali que não poderia ter acesso aos originais e sequer poderia levar cópias digitalizadas do material. Contudo, as páginas abertas de forma aleatória me mostraram a receita de um unguento para picada de cobras, escrita em Guaikuru antigo, que eu imediatamente comecei a ler, com certa dificuldade. O diretor me perguntou se eu conhecia a língua ali registrada e eu afirmei que sim, que convivera por quase uma década com os descendentes dos Guaikuru e que havia aprendido sua língua, falada e escrita. Além disso, também informei que levaria os documentos (se pudesse, é claro!) aos Kadiwéu, a fim de que a eles fossem “devolvidos” conhecimentos obtidos há muitos anos e que se perderam com o tempo e com o prolongado contato. Para isso também serve um pós-doutorado, caros leitores: para se colocar a serviço da sociedade (de qualquer sociedade, seja ela indígena ou não indígena) o conhecimento acumulado ao longo de séculos sobre quem somos, quem fomos, pois isso permitirá, em minha humilde opinião, que saibamos o que queremos ser e onde queremos chegar! Em tempo: o estágio de pós-doutorado não confere título acadêmico, ou seja, podem continuar me chamando de professor Giovani... 

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