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25 de maio de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: AINDA SOBRE SER PROFESSOR

Giovani José da Silva
20 OUT 2019 - 21h34min

         O último dia 15 de outubro, Dia do Professor, passou e uma sensação estranha me percorreu ao ver muitos colegas se manifestando em redes sociais e afirmarem que não desejavam homenagens! Os motivos seriam vários: desde a intensa e progressiva precarização do trabalho docente à atual situação em que se encontra a Educação brasileira, especialmente após os desmandos do atual governo que ocupa (transitoriamente, ainda bem) o Palácio do Planalto e adjacências. Eu, ao contrário, e sem querer bancar a Pollyanna (a célebre personagem literária de Eleanor H. Porter, conhecida por praticar o “jogo do contente”, ou seja, sempre procurar extrair algo de bom e positivo em tudo), quero dizer que aceito homenagens, maçãs (desde que não estejam envenenadas) etc. e quero, também, melhores salários, condições ideais de trabalho, enfim, tudo a que tenho direito. Por que uma coisa deveria excluir outras? Já escrevi dois textos sobre ser professor para a coluna Histórias de admirar (23/10/2018 e 13/10/2019) e em ambos reafirmei o compromisso que assumi quando me tornei professor, licenciado em História pela UFMS, no (agora longínquo) ano de 1995. Hoje, quero escrever sobre o que considero uma postura adequada, motivado por uma entrevista da qual participei na última semana na Rádio Universitária da Unifap, onde sou docente desde 2013. Perguntado sobre o que é ser um (bom) professor de História não titubeei um momento sequer ao responder com firmeza que um professor digno de sua profissão reúne determinadas características. É aquele que provoca nos alunos um processo de reflexividade mais aprofundada sobre suas próprias histórias e origens, recorrendo para isso a memórias individuais e coletivas. É, também, o que apresenta forte compromisso com os aprendizes, o empenho em valorizá-los e, no mesmo movimento, levá-los a apreciar a história/ a História. Além disso, o bom professor prepara os alunos para aspectos que extrapolam o contexto escolar. Ele (ou ela) sabe muito da ciência de referência, mas não descuida das teorias da aprendizagem e tampouco das metodologias de ensino. Quando me perguntam quais as teorias de aprendizagem que permeiam o meu trabalho como professor, afirmo sem pestanejar (e sem medo de críticas) que no início da carreira me apoiei sobretudo em Célestin Freinet (1896-1966), notadamente na produção de material próprio e no labor pedagógico feito coletivamente; e em Paulo Freire (1921-1997), especialmente as ideias relativas à emancipação pelo conhecimento: ao tornar-se agente de sua própria história, o aprendiz vai descobrindo-se alguém autônomo e crítico do mundo que o rodeia. Mais recentemente, as ideias e propostas da pedagogia decolonial de Catherine Walsh e outros têm me encantado e me feito rever as formas de (re)existir/ resistir como professor! O diálogo e a escuta, princípios fundamentais da pedagogia freiriana devem estar sempre no horizonte daquele professor que deseja criar em sua sala de aula uma comunidade argumentativa, com gentes cada vez mais autônomas e menos (ou nada) autômatos. É um longo caminho a ser percorrido aquele que vai da heteronomia à autonomia! Um bom professor não manda/ ordena: faz junto, primeiro sensibilizando e depois mobilizando. Faz autoavaliação juntamente com os alunos, prepara, orienta, organiza, planeja, contextualiza. Não está preocupado somente com conteúdos, pois sabe que não passam de pretextos (pré-textos) para o que realmente importa: a aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. No encontro de diferentes subjetividades, igualmente ricas e importantes, as relações dialógicas entre professor e aluno são muito importantes. Um bom professor encanta pelas palavras e pelos gestos, é um encantador, fala com todo o corpo e ensina ao aluno a aprender a aprender. Tem que ser um erudito na sua área de estudos (sem ser enciclopédico e chato), ser uma figura de autoridade (sem ser autoritário), ser capaz de estabelecer vínculos afetivos positivos (sem ser piegas). Não, caros leitores, não é fácil ser um bom professor: é mais do que copiar textos no quadro, mandar ler ou responder a questionários enfadonhos de livros didáticos. Ser um bom professor é manter vivos os sonhos de crianças, adolescentes, jovens e adultos (incluindo idosos) que vão para as escolas e, muitas vezes, sequer sabem o que fazem por lá... É transformar gentes em gentes melhores! É, enfim, buscar tornar-se a melhor versão de si e oferecê-la a Outros, servindo-os!

* O texto da semana foi livremente inspirado em algumas ideias presentes em um capítulo escrito por Claudia Davis e Walkiria Rigolon para um livro que a Fundação Carlos Chagas (FCC) está preparando com experiências de ensino de todo o Brasil que venceram o Prêmio Professor Rubens Murillo Marques. O livro será lançado em breve e conta um pouco de minha trajetória como professor na Universidade Federal do Amapá. Em tempo: fui um dos vencedores do Prêmio em 2016!

 

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