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24 de Setembro de 2017
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: EU QUERIA...

Giovani José da Silva
7 SET 2017 - 13h04min

Eu queria que meu pai estivesse por aqui ainda, dando-me conselhos, brigando comigo, mas que me defendesse de tudo e de todos, não importasse o que eu fosse ou o que tivesse (mal) realizado. Queria não ter perdido tanta gente pela estrada, por algo que tenha dito ou (mal) feito, desatando laços de amizade que pareciam inquebrantáveis. Queria não ter a triste e amarga sensação de ser “inadequado”, um “estorvo”, apenas tolerado pelos que me olham com piedade ou com interesse. Queria não ter escutado “Deus te odeia” ou “Eu preferia que você vivesse sozinho, já que seus relacionamentos nunca deram certo...”. Ou, ainda, “Por isso você é tão sozinho, as pessoas não te suportam!”. Queria, também, poder me “teletransportar” sempre que alguém se aproximasse apenas para me ofender, achincalhar, humilhar, diminuir, pisar, criticar, me usar... Não, caros leitores, eu não estou de “bode”, despejando nesta coluna alguma coisa mal resolvida. Apenas queria revelar alguns dos meus desejos mais íntimos, muitos não realizáveis, eu sei, somente pelo prazer de imaginar que outros mundos sejam possíveis, não este com que me deparo todos os dias e não gosto: homofóbico, misógino, machista, racista... Eu queria que o “Eu te amo” viesse acompanhado de ações/ atitudes que se coadunassem com o sentimento expressado em palavras faladas ou escritas. Queria, também, ter amigos que se importassem em perguntar, vez em quando, “Como você está?”, sem serem protocolares, burocráticos, simplesmente “educados”. Queria não ser procurado por uns apenas quando estão em apuros – financeiros, emocionais e de outras ordens – para logo em seguida ouvir um sonoro “Estou com a vida muito corrida, agora não podemos conversar” ou “Eu faço da minha vida o que eu bem entender e você não tem nada a ver com isso”. Eu queria... E é tão estranho querer tanta coisa que escapa ao meu controle, que não depende de mim, mas do Outro e da forma como esse Outro me encara e, também, lida com o mundo que o rodeia. Estou aprendendo a dizer “Não!”, a me importar menos com quem comigo não se importa, a ser menos burocrático, protocolar ou “educado” com amigos, colegas de trabalho, parentes e afins. Pode parecer egoísmo, individualismo, mas sei e sinto que preciso me proteger, ainda mais que em breve voltarei ao Norte do país, lugar que escolhi para viver e onde não tenho parentes proximamente e onde fiz poucos (pouquíssimos, aliás) amigos. Queria não ouvir mais, em tom de deboche, “Quem mandou você ir para tão longe?” e queria ouvir mais (muitas vezes mais!) que dissessem o quanto estão ligados a mim, seja de perto ou de longe, não importando o tempo e a distância, como na canção de Fernando Brant e de Milton Nascimento. Queria ter crescido menos sozinho, menos arredio às pessoas, mais ensolarado e nada taciturno. Eu queria ter podido reescrever a minha história de solidão e desencanto infantis, encontrando alguém que iluminasse meus dias, que estivesse comigo, sempre, lembrando que tudo passa, que nada é para sempre, nem mesmo as dores das despedidas e das saudades. Queria poder me reinventar a cada desilusão, a cada desencontro. Que me tratassem apenas como aquilo que sou (filho, aluno, irmão, vizinho, primo, colega de trabalho, namorado, etc.) e não o pequeno “gênio” que se transformou em adulto bem sucedido e invejado ou o provedor que, por não ter filhos, não deve ter, também, uma vida própria a ser vivida e por essa razão deve servir aos outros (inclusive financeiramente), de preferência sem reclamar (“Afinal, o senhor é muito chato!”/ “Fiz tanto por você e é assim que você me paga?”/ “Você tem tempo e dinheiro de sobra”). Eu queria ser olhado, tocado, envolvido com mais amor, mais carinho, mais atenção e mais respeito. Ser admirado não me faz mal, mas me faz sentir-me incompleto, pois diz respeito ao ego e não creio ser possível se viver apenas de afagos, bajulações ou tapinhas nas costas e apertos de mãos. Eu queria sentir mais calor humano e menos frieza de corações petrificados, inclusive do meu... Ah, como eu queria...

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