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22 de agosto de 2019
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: REINVENTAR-SE

Giovani José da Silva
31 MAR 2019 - 20h30min

         Olho para os lados e o que vejo? Gentes e mais gentes reclamando dos absurdos contados aqui e ali, das falácias e das mentiras (travestidas de “interpretações”) veiculadas, reproduzidas, replicadas, comentadas, refutadas, etc. Estamos em um 31 de março e em meio aos debates sobre o significado da data para os brasileiros, pergunta-se: afinal, há o que comemorar? Absolutamente nada! Houve (como houve tantas vezes na história política brasileira republicana) a interrupção de um período de democracia em curso e a entrada em cena de militares e de seus serviçais civis. Eu era criança e ainda me lembro das aulas de Educação Moral e Cívica na escola, além de Estudos Sociais e outras, em que nada se podia falar, pois aprendíamos tão somente a ser “bons” cidadãos – obedientes, complacentes, (re)produtivos, silenciosos. Naqueles tempos, eu não imaginava ser professor e nem me passava pela cabeça os “perrengues” vividos por meus mestres, especialmente os de Humanas. Contudo... Bem, contudo, a ditadura (militar, civil-militar, chame-a como quiser, mas foi uma ditadura!) se encerrou formalmente em 1985, deixando-nos legados de autoritarismo e de nacionalismo raso, assombrados pela Guerra Fria. Desde que entrei formalmente no ambiente escolar, em 1980, as aulas de História tinham sempre a mesma “cara”: tradicionalmente expositivas, com cópias exaustivas e leituras truncadas. As “atividades pedagógicas” se restringiam a responder intermináveis questionários, decorar nomes, fatos e datas. Figuras como os bandeirantes paulistas (nasci e cresci no Estado de São Paulo) eram enaltecidas e não havia espaço para o debate, a argumentação, o compartilhamento de ideias, a leitura em seus quatro níveis mínimos (exploração, compreensão, interpretação e crítica). No antigo Segundo Grau (1988-1990), hoje Ensino Médio, a situação mudou bastante, uma vez que havia professores engajados e comprometidos com a liberdade de pensamento e de ação-expressão. Porém, eu intuía que aquela situação não se estendia a muitas outras escolas Brasil afora. Assim, ao me formar no ensino secundário, decidi que queria ser professor e fui para Aquidauana cursar a Licenciatura em História. E o que aprendi na Universidade? Fiz inúmeros “seminários”, atividades que consistiam nas apresentações de um texto ou de um conjunto de textos por um grupo de alunos mal preparados. Nem sempre contávamos com a intervenção/ orientação de nossos professores, que pareciam mais preocupados em realizar especializações, mestrados, doutorados (hoje em dia as preocupações se dirigem a publicar e pontuar no Lattes). Assim, nos cutucávamos e passávamos o tempo torcendo que não houvesse perguntas vindas da plateia, composta por outros alunos tão assustados quanto os que se apresentavam. Felizmente, tive professores que realmente lecionaram, sem recorrer aos “seminários” e sem maneirismos/ malabarismos/ modismos teóricos ou metodológicos. Mais uma vez tive a sensação de que tal situação não era recorrente em outros rincões. Então, como aprendi a ser professor? Penso que foi na prática, no dia a dia das escolas (indígenas, não indígenas, rurais, urbanas), tentando não repetir o que tinham feito comigo enquanto estudante. Na pós-graduação (aperfeiçoamento, especialização, mestrado, doutorado) mais aulas expositivas, mais “seminários”. Quem aprende a ser professor dessa forma? Como podemos querer que um grupo cada vez maior de pessoas expresse criticidade, criatividade, compreensão/ interpretação de textos com o divórcio que se instalou entre a Universidade e a Escola de Educação Básica no Brasil? Não me espanto em perceber aonde chegamos, com gentes pedindo a volta da ditadura, negando-a, comemorando-a... Falhamos terrivelmente e entre o discurso de que somos, nós professores, os únicos responsáveis por tal estado de coisas e o discurso de que fazemos “milagres” com o sucateamento das escolas (e que, portanto, damos o nosso “melhor”), prefiro o caminho do meio, o da autocrítica, em que nos percebemos parte do problema e, também, da solução. Se não aprendemos a ser professores de excelência e desejamos continuar na profissão, é urgente que nos reinventemos como profissionais da Educação. Se não aprendemos História de outro jeito, que tal refletirmos e agirmos sobre as formas de aprender e de ensinar, de ensinar a aprender? É interessante que quando encontramos alguém que não sabe somar/ subtrair ou alguém que não sabe ler ou escrever, nos perguntamos quem teria sido professor da “criatura” – de Matemática ou de Língua Portuguesa. Quando encontramos alguém com raciocínio histórico (que eu me recuso a chamar de “consciência histórica”) falho, deveríamos nos perguntar quem teria ensinado (tão mal) História àquela pessoa? Por essas e outras sinto que há muito o que fazer, a estudar, a colocar em prática, a rever práticas/ teorias, reinventando-me cotidianamente! Convido meus colegas de profissão a se reinventar, a se (re)encantar e levar para as salas de aula o encantamento do mundo, sem o qual não haverá esperanças de dias melhores dentro e fora de nossas escolas...

 

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