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23 de maio de 2018
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: TERRA INDÍGENA BAÍA DOS GUATÓ

Giovani José da Silva
13 MAI 2018 - 19h23min

        Uma notícia das mais incríveis chegou até a mim pelo celular no último dia 26 de abril! A amiga Anna Maria me informava que depois de mais de 17 anos a Terra Indígena Baía dos Guató, localizada no Pantanal de Mato Grosso entre os municípios de Barão de Melgaço e de Poconé, fora finalmente homologada pelo Governo Federal. Elaborei, como antropólogo coordenador, o relatório de identificação e de delimitação daquelas terras de extensão de pouco mais de 19.000 hectares para uma população estimada na época em 72 indígenas. Hoje são 202 indivíduos autodeclarados Guató, herdeiros legítimos dos “senhores e senhoras do Pantanal”, que demonstram a força e a vitalidade das culturas indígenas em pleno século XXI. Os dias que se seguiram à emissão da Portaria (Funai 1.145/ 2000) que designou a mim e a outros profissionais para compor o GT foram intensos e agitados. Nos deslocamos para o Pantanal mato-grossense em dezembro de 2000 e permanecemos quase 45 dias em campo, envolvidos por um ambiente quente e úmido e, também, repleto de tensões e perigos. Eu era, então, um jovem que não tinha sequer completado 30 anos de idade e havia recém me especializado em Antropologia, pela UFMT. Convivera com os Guató de Mato Grosso do Sul desde o final dos anos 1990, mas não fazia ideia, até então, de que havia outros indígenas da mesma etnia localizados em distintos pontos do Pantanal. Os Bororo da Terra Indígena Perigara tinham procurado a Funai em Cuiabá e informado da existência daqueles indígenas. O que encontrei ao chegar ao Pantanal? Uma população vivendo em condições precaríssimas, proibida de circular pelos rios e corixos, de pescar, coletar e caçar, além de não poder retirar madeira para a construção de casas e de canoas. O velho Domingos, ainda vivo nos dias de hoje, único falante da língua dos antigos, era o patriarca do grupo, respeitado e querido por todos. Ele e alguns outros indígenas acompanharam a equipe (composta por mim, por funcionários da Funai – auxiliar de Antropologia e topógrafo –, por um auxiliar de pesquisa e uma ecóloga), percorrendo caminhos de terra e de água, identificando aterros, cemitérios, vasculhando o que se tornaria a Terra Indígena Baía dos Guató, território outrora espoliado por negócios escusos e sobre o qual não podiam sequer perambular! O governador de Mato Grosso à época enviou um emissário até o local, para me intimidar e lembrar que existiam muitos interesses em jogo. Fui obrigado a usar colete à prova de balas e ter a companhia de policiais fortemente armados, a fim de enfrentar “vigias” que mais pareciam “jagunços” e “capangas”. Uma das cenas mais tocantes para mim e que não me sai da lembrança daqueles dias foi ter encontrado na sala de estar de uma sede de fazenda a reprodução de uma gravura de Hércules Florence, demostrando que a antiga Baía dos Guató fora habitada por indígenas canoeiros já no século XIX, o que vinha sendo desmentido com veemência pela “proprietária” não indígena... Voltei para casa alquebrado, impressionado com a força daquelas gentes que viviam em apenas 2 hectares de terras, inundáveis na metade de cada ano. A última visão que tive dos indígenas Guató foi a nossa despedida na “prainha” do Aterro São Benedito, em que Berenice, filha de Domingos e Teodorica, pintou as peles das crianças e pediu, quase como uma súplica, que eu não duvidasse de quem eles eram, de fato. Nunca duvidei! Há duas semanas tive a grata sensação de que tudo, absolutamente tudo valeu a pena! A Terra Indígena Baía dos Guató é apenas uma pequenina parte do vasto território ocupado por esse povo no passado! Sei disso, mas também sei que corríamos o risco de vê-los envoltos em processos judiciais que se arrastariam por anos, talvez por décadas, sem perspectivas de sucesso. Enfim, os Guató de Mato Grosso estão em suas terras, as de seus ancestrais, onde o mundo surgiu e se acabará. Sinto-me honrado por fazer parte dessa história!

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