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28 de fevereiro de 2020
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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: UM ENCONTRO ENCANTADO - OS QOM

Giovani José da Silva
8 ABR 2019 - 19h30min

           Estou em Assunção, capital do Paraguai (como na letra da música Galopeira), desde o dia 08 de março. Vim para cá, em licença capacitação da Unifap, para cursar língua Guarani e, também, Tupi antigo. Para que isso? O Guarani – uma das línguas oficiais do Paraguai, da Bolívia e do Mercosul – sempre foi falado entre meus familiares maternos. Cresci escutando minha mãe, minha avó, minhas tias-avós e primas/ primos mais velhos expressando-se no idioma indígena. Sempre quis conhecer melhor aqueles sons, o Avañe'ẽ, pois me remetiam à infância na casa de muitas mulheres, entre bordados, costuras e cerzidos. Quanto ao Tupi antigo, meus estudos na Licenciatura em Teatro, iniciados no ano passado na Universidade Federal do Amapá, me levaram a conhecer o teatro jesuítico, notadamente as obras cênicas atribuídas a José de Anchieta, escritas em muitas línguas (Português, Espanhol, Latim e... Tupi!). Enfim, cá estou em uma viagem que tem me envolvido em muitas surpresas e novidades! Uma delas ocorreu na semana passada, em Benjamín Aceval, uma cidade que fica a pouco mais de quarenta quilômetros de Assunção. Fui convidado pela Secretaria Nacional de Cultura do país, no marco do Ano Internacional das Línguas Indígenas, para um “conversatorio” intitulado  La Lengua Guaikurú en la historia del Paraguay: Los escritos del Jesuita José Sánchez Labrador, siglo XVIII. Não fazia ideia de quem encontraria por lá e por isso preparei uma “charla” científica, “pero no mucho”. É que não consigo (por mais que me esforce) ficar lendo textos intermináveis, aborrecendo o público que me assiste, nem quando o evento é uma daquelas terríveis mesas redondas em que (em geral) nada se discute, de fato, pois os participantes parecem estar mais preocupados com os certificados do evento. Haviam me falado que talvez eu encontrasse os indígenas Qom (que eu conhecia pelo nome de Toba, por causa dos documentos do período colonial que havia lido/ estudado). Tinha a curiosidade de saber mais sobre os “parentes” linguísticos dos Kadiwéu, ficava imaginando como seriam (se parecidos ou não) os também descendentes dos Guaikuru. Eram povos que possuíam em comum uma história pretérita, embora mais de duzentos anos – e muitos quilômetros, além da fronteira internacional – os separassem. Os ascendentes dos Kadiwéu teriam atravessado o rio Paraguai no final do século XVIII, fixando-se onde hoje é Mato Grosso do Sul, Brasil, enquanto os Qom (eles me ensinaram que não gostam de ser chamados de Toba, pois é pejorativo) permaneceriam no Chaco, resistindo à presença dos colonizadores e a toda sorte de desventuras. E lá estava eu, no salão de um simpático e arborizado hotel localizado à beira da Transchaco. Diante de mim, cerca de quarenta indígenas Qom me olhavam com interesse, curiosidade e atenção. Falei em Espanhol e, logo de início, fui interrompido pelos indígenas, que queriam um tradutor. Quando pensei que teria minha fala expressa na língua Qom, percebi que o intérprete traduzia tudo para a língua Guarani, uma das línguas mais usadas no país e dominada por, praticamente, todas as populações indígenas daqui! Expliquei a eles que vivi entre os indígenas Kadiwéu por quase 10 anos, no Pantanal, que aprendi um pouco de sua língua e de sua história. Os Qom presentes ao “conversatorio”, especialmente os anciãos, prestavam atenção a tudo e dialogavam com o que eu lhes contava, ora em Castelhano, ora em Qom, outras vezes em Guarani. Quanta riqueza nas falas, nos cânticos, na postura firme daquelas pessoas de rostos cansados, roupas puídas, mas com uma altivez digna dos senhores e das senhoras Guaikuru. Ao final de minha fala, completamente envolvido por eles e encantado pela dialogia/ polifonia do encontro, pedi que me dessem a oportunidade de adentrar em seu mundo, que me permitissem obter as chaves que me abrissem portas e janelas da cultura/ da história Qom. Para minha surpresa e alegria, as mulheres, os homens, adultos e crianças, disseram que irão se reunir e, coletivamente, decidirão sobre a nossa parceria. Eu reforcei a eles que isso não lhes custará dinheiro algum e que eu, se aceito, serei um servidor daquele povo. Assim, pretendo colocar todo o conhecimento que adquiri com os estudos e as vivências entre os indígenas Kadiwéu, dentre outros grupos, à disposição daquelas gentes Guaikuru, aparentadas dos cavaleiros/ guerreiros/ artistas, que me receberam em uma manhã de quarta-feira cinzenta no Chaco paraguaio. Durila e Dominguinhos, meus “memés” Kadiwéu, deviam estar rindo alto, lá na aldeia da memória onde agora vivem...

 

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