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21 de fevereiro de 2018
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Raquel Anderson

Pequeno profundo diário IV

Raquel Anderson
16 ABR 2017 - 18h00min
Mais um domingo com tantos respingos....na casa pantaneira, onde a chuva lava a palha
A chuva lava a lata
A chuva encharca a terra
A chuva dilacera os pensamentos arrumados...
A chuva revolve a terra e a mente
A chuva faz florir
A chuva desalinha
A chuva derruba as folhas
A chuva remexe no tempo
A chuva muda o estado de ser da gente
A chuva dá sono
A chuva aflora o desejo de abrigo
A chuva enfatiza o sentimento de abandono
A chuva fria do outono causa reflexões retrospectivas e, molhada, esfrega na cara da gente o que o tempo fez, o que nuca se desfez, a chuva, afrodisíaca, reascende a libido adormecida, a chuva, com sua magia, faz sentir nostalgia do que nunca se teve, saudade do amor que mexeu com seus instintos vitais, ainda que de maneira fugaz, no seu imaginário, a felicidade fez morada numa tarde encharcada pela chuva que se repetia e, à cada vez, se fazia excêntrica, romântica. Não havia consciência, aparência, nada....sensações que bombardeiam o coração sem que haja precisa noção, apenas o sentir extasiado...
A chuva pediu café e bolinhos de chuva e ela, mais uma vez, obedeceu, emudeceu, desligou o rádio para ouvir o barulhinho vindo de fora, sentou-se no banco, cruzou as pernas, olhou para o nada e viu, vindo da estrada, a carrocinha azul...sentado com uma mão na rédea e com a outra ajeitando o chapéu, ele vinha driblando a chuva, parou na porteira, desceu, abriu puxou o cavalo, atravessou a carroça, fechou a porteira, uma a uma, harmonizou suas varas, subiu na carroça e rumou até o terreiro.
Entrou sem nada dizer... sua pele, apesar da fria chuva outonal, estava quente, a boca vermelha...ele queria dizer, não sabia, foi criado para ser macho apenas, movimentar-se na vida sem expressões, queria falar de suas mazelas, queria ser doce, queria saber dizer, não sabia, obedecia seus instintos, era dominado por eles. Aproximou-se dela, ofegante, sentou-se ao lado, nada disse, suspirou, levantou-se, foi até o fogão, empurrou a lenha, aumentou o fogo, tomou café, catou a mistura de açúcar e canela que adornavam os bolinhos de chuva e colocou um punhado na xícara, voltou-se para ela, sentou-se novamente ao seu lado no banco de madeira, como se estivesse sentado no cavalo, girou o corpo dela no mesmo sentido, aproximou-se, catou a mistura de açúcar com canela e, carinhosamente, derramou por entre os ombros dela....lambeu seu colo, nada dizia...gente é pra se cuidar, gente é pra se lamber deliciosamente numa tarde chuvosa, gente é a coisa mais gostosa, gente é imensidão numa casinha simples, gente misturada com café e cheiro de canela, chuva fina entrando pela janela, gente no chão, gente permitindo os ditames do coração, gente é entrega, gente é faceirice, gente é meninice, gente é o banho de chuva, gente é o gostoso cansaço do depois...gente é o desejo, gente é o beijo, gente é a necessidade dita sem falar....gente é o deixar!

 

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