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16 de julho de 2019
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Ruben Figueiró de Oliveira

Um pompílio "aporreado"...

Após longa temporada sem dele ter notícias, resolvi procurar o meu amigo Pompílio, gaúcho destemido, de linguagem desabrida, indócil tal como um potro bagual. Despertaram-me não só saudades do velho companheiro, cuja idade não esmaeceu a inteligência...

dothCom Consultoria Digital
6 JUN 2011 - 00h00min

Após longa temporada sem dele ter notícias, resolvi procurar o meu amigo Pompílio, gaúcho destemido, de linguagem desabrida, indócil tal como um potro bagual. Despertaram-me não só saudades do velho companheiro, cuja idade não esmaeceu a inteligência lúcida e a viva percepção do dia-a-dia contemporâneo. Não só saudades; desejava também ouví-lo. Saber como Pompílio entendia os acontecimentos que turvam o cenário político social e econômico da nação.

Como sempre entendi dele, Pompílio não tem papas na língua e se disse profundamente preocupado com as perspectivas que se abrem para o futuro do País. Para ele, os escândalos que atingem a dignidade do Senado da República e, antes, obumbraram com o manto da ignomínia a estrutura da Câmara dos Deputados são fichinha para o que se pretende fazer com as instituições nacionais. Aquelas, apenas fazem parte de um "trailler"para o espetáculo político que devagar - "de passito", como Pompílio diz - os autores fantasmagóricos estão no escuro nos bastidores montando. O objetivo é mostrar aos dóceis e até incrédulos espectadores - o povo - que o que aí está - o Congresso Nacional, o Poder Judiciário - não é o ideal para a tranqüilidade e o bem estar da comunidade e, portanto, mudanças institucionais profundas devem ser realizadas. E devem ser planejadas e implementadas por quem tem a sensibilidade das causas populares, vem da terra seca, adusta e ardente, conhece a angústia do migrante pau-de-arara, foi aprendiz do SENAI, enxergou o sindicalismo obreiro como alavanca para alçar-se a objetivos maiores e, atingindo-os, deles se apraz e está na ansiosa espectativa de mais querer. Inteligente, persuasivo, usa o modelo político corrente para as "negaças" próprias de seu temperamento; estimula seu séqüito de bajuladores e aproveitadores pantagruélicos para que desmoralize o Congresso, atinja a jugular do Senado da República (onde não possui maioria cordeira) e fingindo-se de autêntico democrata, nega o que mais deseja: o terceiro mandato consecutivo. Nessa sua performance - lá onde está, Maquiavel se manifesta perplexo com astúcia do voluntário discípulo - lembra aquela estória do sapo (nenhuma alusão ao adágio "sapo barbudo" que lhe atribuiu o memorável Leonel Brizola) quando questionado o que mais preferia: a água ou a fogueira!

Pompílio lamenta a frouxidão dos partidos políticos, principalmente ao do seu lembrado MDB ( não consegue soletrar a denominação atual PMDB) que deixou de ser aquele dos sonhos de Ulisses Guimarães e o hoje humilhado senador Pedro Simon, cujo pensamento maior era o bem da nação. O PMDB de hoje, segundo Pompílio, traiu suas origens históricas, é fisiológico e só "pensa naquilo"... em empregos !

Pompílio, já em idade provecta, lamenta não ter mais forças físicas para lutar; está descrente da nossa mocidade sem vigor e estímulo cívico. As chamadas classes empresariais estão anômicas, anestesiadas, parte pelos ganhos faraônicos que desfrutam pela onda econômica global, parte porque descrente da ação estimuladora que deveria vir do Estado nacional. Os trabalhadores, classe da qual Pompílio faz parte, estão amortecidos pelas tais centrais sindicais, satisfeitas estas pelas régias benesses de seu maior usufrutuário político, o presidente.

Pompílio foi enfático. Pelo que se vê, ausculta, observa, sente-se no ar, não tem dúvidas: Lula quer já um terceiro mandato, crê nele, até porque não pode ser ultrapassado pelo apetite afrontoso de seu correspondente lá da Venezuela, o pré-ditador Hugo Chaves...

Já no final de nosso encontro, o velho gaúcho, a sua maneira espontânea de largos gestos francos, sem assombros, "aporreado", lançou esta tirada: "a lei é uma prostituta; sorri para os que tem a carteira mais recheada". A decepção popular está ganhando horizontes tais que muitos já começam assim também pensar - infelizmente.

Deixei a residencia do amigo Pompílio mais apreensivo do que quando lá cheguei.

* Foi deputado estadual, federal, secretário de Estado, conselheiro do Tribunal de Contas. É  suplente de senador.

 

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