NACIONALISMO, CLIMA E FUTURO

21/09/2019 07:36:00


             A propósito do clima atual, que está incendiando o país, veio à minha lembrança “Não verás país nenhum”, livro escrito por Ignácio de Loyola Brandão, lá pelos idos dos anos 1980.  O pano de fundo da narrativa era a ameaça nuclear. A obra, uma anti-utopia, descrevia o que poderia vir a ser a vida em um futuro distante.

            Apesar de toda a descrição assustadora, o que mais me ficou na memória foram pessoas fugindo do forte sol que aniquilava qualquer vida que fosse atingida. Todos tinham que se abrigar, em pé, debaixo de imensas Marquises Monumentais, construídas pelo Ministério de Obras Faraônicas Populares. Controlando tudo havia o “Esquema”. Apenas uns poucos subversivos cultivavam sementes sobreviventes em subterrâneos.

            Essas descrições, mutatis mutandis, poderiam servir para retratar nosso planeta queimando com as mudanças climáticas. Já a sentimos na Amazônia virando fumaça, na Groenlândia derretendo e nas Bahamas atingida por tempestades devastadoras, cada vez mais frequentes.

            Cada vez mais, sugamos recursos do meio ambiente, devolvendo-lhe lixo e veneno, o que tem mudado a composição da atmosfera, do solo e da água.

            É certo que o homo sapiens existe a centenas de milhares de anos e sobreviveu a inúmeras idades do gelo e ondas de calor. Resistirá a essa? Mesmo que a civilização se adapte, quantas vítimas perecerão?

            Para muitos, esses fenômenos parecem distantes, mas não o são. As mudanças climáticas já são uma realidade para a população mundial e as evidências já fazem parte do dia-a-dia do brasileiro.

            Erupções vulcânicas no Peru já fecharam aeroportos no Centro-Oeste. Os incêndios da Amazônia encobrem o céu em São Paulo. O fogo nos países africanos também já poluem cidades brasileiras. É impossível saber se o oxigênio que respiramos é nacional ou importado.

            O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas - organismo científico nacional - em relatório recente, apontou como serão afetados alguns aspectos importantes da vida cotidiana dos brasileiros. A quantidade e a qualidade de agua potável estarão em xeque; a produção de energia correrá risco; as edificações sofrerão graves danos por deslizamento de encostas e inundações; acenderá um alerta vermelho para o sistema de saúde, pois alterações do meio ambiente e os eventos climáticos também causam impactos negativos sobre a saúde das pessoas. Apontou também que a parceria é chave para enfrentar os problemas, eis aí uma questão chave.

            Onde se encaixa o nacionalismo?  Conforme chama a atenção Yuval Harari, nenhuma nação, mesmo poderosa, será capaz de fazer parar o aquecimento global. Para que medidas sejam eficazes tem que ser adotadas em nível global. Quando se trata de clima, os países simplesmente não são soberanos.

            A reação dos europeus ao aumento das queimadas na Amazônia foi mal recebida pelo governo brasileiro. Embora existam muitos interesses inconfessáveis, a proteção do bioma amazônico é do interesse do Brasil, mas é um interesse coincidente com o dos demais países do planeta. O que serve para a Europa, neste caso, serve também para o Brasil. Precisaríamos dar o exemplo da responsabilidade ambiental.

            Em recente artigo “Chega de gols contra” Fernando Henrique Cardoso apontou que em lugar de reagir toscamente, negando dados empíricos e insultando cientistas e chefes de Estado de outros países, deveríamos ter reagido prontamente para combater as queimadas e mostrar, na prática, o compromisso soberano do Brasil com a proteção do meio ambiente. Afirma ainda que patriotismo não se mede por bravatas nacionalistas, sobretudo com insultos.

            Daqui para frente, nossa preocupação não deve ser apenas cuidar melhor do meio ambiente, mas também das nossas escolhas políticas. 


dothCom Consultoria Digital - Fausto Matogrosso