HISTÓRIAS DE ADMIRAR: TANTOS SÍSIFOS, TANTOS TÂNATOS!

26/04/2020 13:15:00


         Sei que prometi uma segunda parte do texto do Dia do Índio (que ficará para a próxima semana), mas devido aos acontecimentos dos últimos dias no país, decidi escrever sobre nós, os brasileiros, mais uma vez recorrendo à mitologia grega... Tânato ou Tânatos (em grego: Θάνατος), entre os antigos gregos, era a personificação da morte, enquanto Hades reinava sobre os mortos no chamado mundo inferior. Seu equivalente na mitologia romana é Mors ou Leto (Letum) e era também conhecido por ter o coração de ferro (ou de feno) e as entranhas de bronze. Tânatos é filho de Nix, a noite, e de Érebo, a escuridão/ as trevas subterrâneas, ambos filhos do Caos. Tânatos é a personificação da morte que, nascido em agosto (como certa figura pública brasileira muito em voga atualmente...), tinha esse mês como o preferido para arrebatar as vidas. Tânatos era representado por uma nuvem prateada que arrebatava a vida dos mortais e tinha cabelos e olhos prateados. E por que estou me referindo a Tânatos, quando afirmei que tinha decidido escrever sobre nós? Em primeiro lugar devo alertar aos leitores que me acompanham que quando escrevo “os brasileiros” estou relacionando o termo a uma “comunidade imaginada”, complexa e genérica, pois, afinal, somos muitos e muito diversos... Dito/ Escrito isso vamos à ideia central das histórias de admirar desta semana: nós, os brasileiros, temos uma indisfarçada pulsão pela morte! Para a Psicanálise, Tânatos seria a personificação mítica da pulsão de morte, um impulso instintivo e inconsciente que busca a morte e/ ou a destruição. Isso explicaria muita coisa: nossa falta de cuidados (não estou falando de mim e nem de você que me lê, mas dos milhões que por aí estão como se não estivéssemos em meio a uma pandemia/ um pandemônio), os políticos que elegemos há tanto tempo e tão preocupados com seus projetos pessoais de poder/ riqueza/ prestígio, o descuido com os espaços públicos – especialmente escolas e hospitais, enfim, com tudo o que está a nossa volta. Sei que posso parecer pessimista demais e outros vão achar que resolvi colocar todos “os brasileiros” no mesmo saco de gatos! Lamentavelmente, continuamos a esperar que um “salvador (ou salvadora) da pátria” nos tire da inércia em que nos encontramos há muito tempo, que resolva todos os nossos problemas, inclusive os cotidianos e mais prosaicos. Estou cansado de tentar explicar às pessoas (e por isso me mantenho mais calado e atento) que o que temos à frente de nossos Estados, de nossos municípios, de nosso país, não são alienígenas que tomaram de assalto o poder/ espaço político: são a expressão do que somos, do que temos de pior como sociedade, como coletividade historicamente construída: racismo, machismo, misoginia, homofobia, desigualdade e tantos outros males que nos acometem há séculos! Somos um povo ainda muito mal educado, que não tem acesso pleno aos serviços essenciais e que produz castas (sim, eu disse castas), mais do que “classes sociais”... Ah, o atual presidente quer proteger os seus e para isso não mede esforços? Já vi isso ocorrer tanto na rua em que morava quando criança, quanto em meu ambiente de trabalho atual, em tantos lugares diferentes por onde passo/ passei... Somos/ Estamos assim: quando um dos nossos erra, todas as justificativas merecem ser levadas em conta, ser ajustadas em nome da honra de um dos nossos! Quando o Outro, aquele a quem Sarte chama de “inferno”, erra, não vemos a hora de apontar o dedo em riste e julgar, condenar, banir, desejar... a Morte! Voltemos à Tânatos: enganado por Sísifo, rei de Corinto, foi acorrentado e como já não morria mais ninguém, o reino de Hades não recebia sequer um “morador”. Observando isso, Zeus interveio e libertou Tânatos, que, por sua vez, procurou Sísifo e fez dele sua primeira vítima. Contudo, antes de morrer, o “esperto” rei de Corinto pediu à esposa que não lhe fizesse cerimônias fúnebres, imaginando um plano para enganar a Tânatos. Assim, quando chegou ao reino dos mortos, não pôde ser aceito, pois seu corpo não havia passado pelos rituais adequados. Conseguiu, então, autorização para voltar ao mundo dos vivos, sob a alegação de que repreenderia a mulher por não ter realizado os tais rituais, impedindo sua entrada no reino das trevas. Na realidade, este era o plano que engendrara para conservar-se vivo por mais tempo e, uma vez descoberta a farsa, Tânatos voltou para buscar e aprisionar Sísifo, que foi então punido por ter tentado enganar aos deuses. Como castigo, recebeu a tarefa de rolar, penosamente, uma pesada pedra até o alto de uma montanha. Entretanto, sempre que chegava próximo ao cume, a pedra escapulia-lhe das mãos e rolava morro abaixo, obrigando Sísifo a voltar para buscá-la, começando tudo outra vez, eternamente. Assim vivemos no Brasil: em meio a tantos Tânatos, tantos Sísifos!


Giovani José da Silva - Giovani José da Silva