Revisando o Passado

06/06/2011 00:00:00


Segundo o meu amigo Chiquinho Palhano - aquele que nos enleva com espiritualidade romântica semanalmente em suas Crônicas pelas páginas do Correio do Estado - tempo é tempo, aquele que cura feridas e nos desperta para verdade. Nada mais sábio.

A propósito, ainda n'outro dia assisti pela televisão a um interessante documentário sobre a trajetória de vida e da existência política do eminente brasileiro, o ex-presidente Jucelino Kubitschek. Devo escrever, de antemão, que ainda jovem não fui correligionário e muito menos admirador de JK. Como udenista, na minha modesta esfera de atividades, o combati, muita das vezes com razão, n'outras fui embalado pelo radicalismo natural de minha mocidade.

Agora já septuagenário, mas não velho, me mostrei atento ao documentário, a cada cena televisiva fui me conscientizando de que JK buscou em seu governo ser um dirigente nacional de estatura política diferenciada. Não foi um visionário, mas apostou no futuro promissor do Brasil. Rompeu com o ordinário, abriu nossas fronteiras para o desenvolvimento econômico atraindo capitais externos para a consolidação das nossas ainda incipientes indústrias de base - processo iniciado no período getuliano. Despertou, com a construção de Brasília, o sentimento de conquista de nosso hinterlande, talvez lembrando a célebre previsão de Frei Vicente Salvador, no século XVII, de que, para progredir, a então novel colonia portuguesa (o Brasil) não podia ficar "arranhando as areias do litoral", e sim avançar sobre a Serra do Mar e conquistar o planalto interiorano. JK mostrou-se democrata na acepção ideológica do termo, tolerou gestos golpistas de militares da aeronáutica, a "revolta dos bondes" na então capital, o Rio de Janeiro - foi como a repetição histórica da célebre noite de São Bartolomeu, 30 de maio, quando a mocidade universitária (lá estavam o Nelson Trad, Nelson Fontoura, Ubaldo Barém, Yasuo Oshiro, Mustafa Esgaib, Onildo Basrbosa, Eduardo Contar, Jorge Siufi, Benedito Dutra Pimenta, Salomão Amaral, eu e tantos outros jovens mato-grossenses, então rebeldes) se insurgiu contra as tarifas de bonde, seu único meio de transporte - anistiando militares e dando a nós, estudantes, o sentido da compreensão.

Muitos outros gestos de estadista praticou JK. Evidente que, com o andar da minha carruagem etária, vinha eu abrindo os olhos de meu horizonte para sem afetar o estamento doutrinário que me conduz na política, me impor à uma revisão de conceitos com relação a algumas figuras de projeção nacional e mesmo aqui de nossa labuta caseira, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, nas lutas do passado, já nostálgicas.

Aquele documentário televisivo da cadeia NET foi a gota que faltava para encher o meu cálice de convicções de que o tempo é realmente o senhor da verdade, e que esta só surge, com nitidez, quando ele, o tempo, indica que chegou o momento da racionalidade.

* Foi deputado estadual, federal, constituinte de 1988, secretário de estado, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e é suplente de senador.


dothCom Consultoria Digital - Ruben Figueiró de Oliveira