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Agronegócio

Bovino pantaneiro é tema de discussão entre pecuaristas e pesquisadores da UEMS

Gestores do Nubopan abordaram as potencialidades da raça para sustentabilidade da pecuária na região

4 JUL 2017 - 14h50min
Redação

O Presidente do Sindicato Rural de Aquidauana, Frederico Stella, um grupo de pecuaristas e os gestores do Núcleo de Conservação de Bovinos Pantaneiros de Aquidauana (Nubopan) – da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) – se reuniram na sexta-feira (30) para tratar sobre a história do pantaneiro e suas potencialidades para a pecuária sustentável.

De acordo com as informações divulgadas pelo professor doutor Marcus Vinicius Morais de Oliveira, apesar de, inicialmente, o bovino Pantaneiro ser desconhecido pelas pessoas, basta um pouco de prosa para já se ouvir: “Mas é esse o gado”, “Já ouvi falar muito, mas não tinha visto ainda”. Isso ocorre porque o bovino pantaneiro está intimamente associado às tradições culturais do povo da região e encontra-se eternizado nos poemas e nas modas de viola, como a “Boiada Cuiabana”, “Boi Soberano”, “Boi Fumaça”, “Boi Cigano”, etc.

Durante o encontro técnico, os produtores foram norteados com informações sobre a atual situação dos bovinos pantaneiros, assim como suas qualidades zootécnicas e potencialidades. Esta raça de bovinos genuinamente brasileira, e extremanente adaptada às condições do Pantanal, descende de animais espanhóis e portugueses, trazidos durante o processo da colonização do Pantanal, quando os exploradores vieram em busca de minas de ouro e prata. “É maravilhoso sabermos que temos um bovino Europeu totalmente adaptado às condições ambientais do Pantanal, fruto de quase 500 anos de seleção natural, afirma o fundador do Nunobopan, doutor Marcus Vinicius, fundador do Nubopan.

Até o início do século XX, o bovino Pantaneiro foi a base da economia da região, sendo os animais utilizados além da produção de carne, couro e leite, como meio de transporte, como bois de sela, bois de carga, para puxar carroças e arados, e como força motriz para impulsionar moinhos. Todavia, essa raça foi gradualmente substituída ao longo dos anos por meio de cruzamentos absorventes com outros grupos genéticos, em especial os zebuínos, como a raça Nelore. 

Ressalta-se que este processo de miscigenação racial foi grandemente estimulado pelos Paulistas, principal mercado comprador deste gado, pois naquela época os principais meios de transporte era o trem e a marcha (comitivas de gado); e em ambos os meios, o gado Pantaneiro era preterido, já que os seus chifres prejudicavam a acomodação no trem e suas pernas curtas retardavam as comitivas. Isso levou ao quase extermínio da raça Pantaneira, restando hoje cerca de 500 indivíduos puros criados em Fazendas e Núcleos de Conservação e de mais algumas dezenas em estado selvagem na região do Pantanal de Porto Jofre (MT).

Segundo o prof. Marcus Vinicius, o NUBOPAN possui a maior diversificação de animais da raça Pantaneira, haja vista que existem cerca de 3 a 5 exemplares de cada criador, garantindo uma grande diversidade genética e reduzindo os efeitos deletérios da consanguinidade. “Temos feito também nas Fazendas um trabalho de salvamento dos animais identificados como Pantaneiros, mas que por algum determinado motivo o produtor não tem mais interesse em criar”. Nesse caso, esses animais têm sido negociados e incorporados ao rebanho do Nubopan”, ressalta o professor.

Externamente o bovino Pantaneiro, pode ser caracterizado como um animal de menor estatura (devido as pernas serem curtas), porém possui um tronco robusto, com as vacas pesando em torno de 450 kg. Possuem uma cabeça em formato triangular, olhos redondos, orelhas pequenas localizadas acima da linha dos olhos, o dorso é retilíneo e não possui cupim e nem barbela ou umbigo proeminente, ou seja, “é um animal tipicamente europeu”.

Possui chifres muito elegantes e em diversos formatos (existem 13 tipos com 7 cores diferentes). A pelagem também é muito variada (foram identificadas 47 cores diferentes), porém há uma predominância da cor baia e castanha, sendo esta possivelmente uma característica de mimetismo com a paisagem do Pantanal, especialmente na época de inverno onde a biomassa vegetal se torna mais amarelada, em virtude da seca. Possivelmente, essa coloração ajuda a esconder (camuflar) o animal na paisagem, dificultado a predação por onças. Ressalta-se ainda que a cor da pelagem do animal também pode variar com a época do ano e com o tipo de forragem que está comendo, assim, em um determinado momento ele pode estar com a cor brasina (com listras negras pelo corpo) e no outro voltar com a cor baia (amarelo claro). 
Possuem pelo fino e sedoso e a pele é pigmentada, geralmente negra. O leite é saboroso, gordo e de cor amarela, e a carne é macia, suculenta e apresenta bom marmoreio, ou seja, aquela gordura entremeada que confere grande sabor a carne.

De acordo com o professor Marcus Vinicius o gado pantaneiro é tão importante que foi declarado em Lei pelo Governo de Mato Grosso e pela cidade de Aquidauana, como Patrimônio Cultural e Genético do Pantanal, por se constituir como Patrimônio Natural portador de Referência à Identidade, à Ação e a Memória da Sociedade Mato-Grossense. A própria ONU / FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) e a revista Nature (uma das mais importantes e conceituadas revistas científicas do mundo, sediada em Londres, na Inglaterra) também destacaram a importância do gado Pantaneiro para o mundo, em especial no âmbito segurança alimentar.

O presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Bovino Pantaneiro (ABCBP), Thomas Horton, também destacou as características de resistência ao calor e tolerância a carrapatos e verminoses do gado Pantaneiro. Alia-se ainda suas características de precocidade sexual, e aos ótimos produtos “Pantanel”, oriundos do cruzamento entre o touro Pantaneiro e vacas Nelore, gerando bezerros pesados na desmama. O produtor José Atanásio Lemos, criador do bovino Pantaneiro a mais de 40 anos, corrobora as qualidades desse gado, e ressalta a beleza dos animais portadores da pelagem Jaguané.

Já o Deputado Estadual Felipe Orro demonstrou preocupação com os problemas que muitos produtores enfrentam com onças no Pantanal e das legislações ambientais que protegem esse felino “Quem sabe o bovino Pantaneiro seja uma boa opção para auxiliar na redução das perdas de bezerros”, ressalta o deputado. 

O professor Marcus Vinicius reitera que observações empíricas de pecuaristas e pesquisadores corroboram essa menor perda ocasionada pelas onças, especialmente de bezerros pantaneiros em relação a outras raças de bovinos criados no Pantanal. O motivo para a menor predação do gado pantaneiro está baseado no processo evolutivo o qual esses animais sofreram ao longo dos últimos quatro séculos de coexistência com as onças. Sendo os aprendizados dos ancestrais repassados para as novas gerações por meio de ensinamentos comportamentais característicos dessa espécie. Assim, a pelagem diferenciada, facilitando a mimetização com o ambiente, aliada a elevada capacidade do bezerro permanecer imóvel e de se esconder no ambiente, auxiliam significativamente a sobrevivência desses animais. 

Cita-se ainda o comportamento gregário do bovino pantaneiro, onde o instinto do grupo faz com que os animais se juntem formando uma verdadeira barreira de chifres e cascos; assim, quando um animal está sendo atacado os outros vão em sua direção com o intuito de assustar e afugentar o predador. O temperamento ativo do gado Pantaneiro é outra de suas qualidades, com os animais apresentando grande coragem individual e destreza nos movimentos corpóreos. Garantindo assim, uma capacidade nata para proteger a si próprio e suas crias de predadores.

O produtor João Murano, também criador do gado pantaneiro, ressaltou a necessidade de mais trabalhos que comprovem a melhor qualidade da carne do bovino pantaneiro, e que haja também uma produção em escala, de modo a facilitar a inclusão deste produto no mercado consumidor, com Selo de Certificação de Origem. “Para isso, precisamos que um maior número de produtores crie o bovino Pantaneiro”. O Presidente do Sindicado Rural de Aquidauana, sr. Frederico Stella, ressaltou a importância da produção dos animais Pantanel, ½ sangue Pantaneiro com Nelore, haja vista o baixo número de animais Pantaneiros puros existentes atualmente. “O sêmen de bovinos Pantaneiros será a melhor saída, onde poderemos inseminar as vacas nelore, para produção desses animais cruzados”.

“Por todas essas razões acredito que o gado Pantaneiro tem muito a contribuir para a manutenção da conservação desse Bioma tão singular que é o Pantanal, o qual é considerado como “Patrimônio Natural” pela Constituição Brasileira e “Reserva da Biosfera” pela Unesco”, ressalta o professor Marcus Vinicius, reiterando ainda a importância da parceria dos produtores junto ao NUBOPAN e dos órgãos financiadores, como o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP), a Rede Pró-Centro Oeste, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect).

Por fim o Gerente da UEMS - Unidade de Aquidauana, professor Elói Panachuki parabenizou todos os participantes do evento e, em especial, aos professores, funcionários e alunos que trabalham no Nubopan, reafirmando o compromisso da UEMS, junto a sociedade sul-mato-grossense na geração de informações técnico-científicas em prol do desenvolvimento da pecuária.

Divulgação/Nubopan

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