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23 de Outubro de 2017
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Dois Irmãos do Buriti

Com amor e muito trabalho agricultores provam que acidez fica apenas no sabor da fruta

As mudas de laranja e as técnicas foram trazidas da Espanha, pelos colonizadores portugueses, para criar um abastecimento de vitamina C

11 JUN 2017 - 11h33min
Assessoria

No ranking de produção de laranja em Mato Grosso do Sul, o município de Dois Irmãos do Buriti ocupa o primeiro lugar com 488 hectares dedicado ao cultivo da fruta, com produção anual de 330 mil caixas o que na balança representa 6,6 mil toneladas.

Já em todo o território brasileiro são 800 mil hectares dedicados ao cultivo da fruta, conforme o último lançamento oficial do IBGE. Para ter uma ideia, em 2013, a colheita da laranja com a do limão chegaram a 18,5 milhões de toneladas, conforme informações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Com tanta representatividade no setor econômico nacional, as frutas cítricas ganharam destaque em nosso calendário a partir de 1.969. Tanto que na quinta-feira (8.6), foi comemorado o Dia do Citricultor.

Todavia, a ligação histórica das frutas cítricas com às terras tupiniquins vem muito antes do final da década de 60 e início de 70. Mais precisamente no período em que Cristovão Colombo caiu acidentalmente no “novo mundo”, continente americano.

Através das grandes navegações mudas desse tipo de frutíferas foram trazidas para o continente americano e, só partir de 1.530, quando os portugueses decidiram, efetivamente, colonizar o Brasil, foi que frutas como a laranja, originária da Ásia, ganharam espaço dentro de nossas terras.

As mudas de laranja e as técnicas foram trazidas da Espanha, pelos colonizadores portugueses, para criar um abastecimento de vitamina C, considerado um poderosíssimo antídoto contra doenças da época como o escorbuto que dizimava a maioria das tripulações dos navios em um período importante de desbravamento e colonização da América Latina.

De lá para cá, o Brasil se tornou um dos maiores produtores mundiais de laranja. A maior parte da produção destina-se à indústria do suco, concentrada no estado de São Paulo, responsável por 70% das laranjas e 98% do suco que o Brasil produz. Acredita-se que de cada cinco copos de suco de laranja consumidos no mundo, três são produzidos em solo brasileiro.

Agricultura Familiar

Em Mato Grosso do Sul, com terras férteis e muita dedicação dos agricultores a laranja encontrou clima propício para o cultivo. Dessa forma, o gosto pela cultura da laranja é passado de geração em geração e em alguns casos essa hereditariedade agrícola vem não apenas consanguíneamente.

No assentamento Santa Amélia, de Dois Irmaõs do Buriti, o agricultor familiar Daniel Fernandes é um exemplo disso, pois trocou a pecuária leiteira pelo pomar, por influência do cunhado Adelson Magri Rosa. “Comecei o ano passado o plantio em 13 hectares do sítio. Eu mexia com gado, mas a área era pequena demais e a laranja dá mais do que o gado de leite em termo de produção. Meu cunhado já planta laranja há mais de 10 anos”, conta.

Como a laranjeira leva um tempo considerável para dar os frutos. A média é de 24 meses após o plantio. Daniel explica que no momento faz uso da técnica de cultivo consorciado para já ter uma renda de dentro do pomar. “Em outubro o pomar completa os dois anos. Por enquanto, eu tiro a renda de casa nos canteiros que fiz entre um pomar e outro. Eu tenho plantado abóbora, maxixe, batata-doce e outras verduras. Já estou colhendo e vendendo”.

Uma forma rentável para ele tirar o sustento da família enquanto aguarda os galhos ficarem carregados de frutas. “Você só consegue plantar assim até um ano e meio antes, porque depois as plantas fecham as ruas [faixa entre uma árvore e outra] e com muita sombra não tem como ter verdura”.

As dúvidas sobre cultivo, colheita e alternativas de mercado, Daniel tira com o cunhado e, também, com os técnicos do escritório da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) de Dois Irmãos do Buriti. “O produtor Adelson já é considerado um médio produtor. Aqui, no município, a gente conta com 12 produtores no segmento da laranja. É um grupo de grandes, médios e pequenos produtores. Isso porque tem gente que dedica 100 hectares, outros 90, 60, 25 ou 13 hectares como o Daniel. É um grupo bem diversificado nesse sentido”, explica o coordenador da Agraer do Município, Valdemir dos Santos.


No sítio de Daniel e no de Adelson a qualidade da fruta escolhida é a “Pera Rio”, “Pera do Rio” ou mais conhecida pelos consumidores, nas gondolas dos supermercados, como laranja pera. Uma das mais utilizadas no preparo de sucos e geleias, sendo considerada a mais importante variedade cítrica produzida no Brasil. Seu suco na forma de concentrado é exportado e, intensamente, utilizado no consumo de mesa.

“Antes a gente plantava soja e milho e a escolha foi ficar só com a laranja. Aqui perto já tinha outros vizinhos que cultivava e a gente viu que estava dando certo. Lembrei-me dos meus parentes, no estado de São Paulo, que já plantava laranja e vez ou outra quando a gente conversava já ouvia: você tem que mudar para a laranja, planta laranja”, recorda o citricultor Adelson Rosa.

Ao contrário da soja e do milho que requerem uma plantação a cada safra, a laranjeira exige apenas paciência no início do cultivo e certos cuidados. “A soja você tem que plantar todo ano, com a laranja não tem isso. Se você cuidar bem é possível chegar a 15 anos com a mesma árvore”, garante Adelson.

Argumento esse que ele utilizou também para transformar o pasto, do cunhado Daniel, em um pomar. “A área que ele tinha lá era muito pequena para os animais. O gado leiteiro tem época que o preço está lá em cima e em outros lá em baixo. Com a laranja ele vai viver mais tranquilo”, justifica.

Com experiência no mercado, Adelson consegue até mesmo antever a rentabilidade do familiar. “Ele deve tirar de R$ 3 a 4 mil por mês, bem mais do que tirava com o leite pensando no pomar dele que está com 6 mil pés de laranjeira”.

A expectativa na propriedade do agricultor é colher 6 mil caixas já na primeira safra. “O Adelson disse que no primeiro ano é um pé por caixa e que a cada ano aumenta de uma a duas caixas, ou seja, em cinco anos posso ter oito caixas e mais para frente chegar a dez”, calcula Daniel.

Na chácara de Adelson a área destinada ao cultivo é de 40 hectares. “Aqui eu tenho de duas a três floradas no ano e quando o tempo ajuda, consigo até 12 caixas”, afirma o agricultor que acredita que o maior desafio do momento é a comercialização. “De agora até agosto é época da Poncã e isso dificulta um pouco no preço que cai já que você mais uma opção. Tem também os supermercados que compram muito de outros estados, além de não termos grandes indústrias como em São Paulo. Felizmente temos a Ceasa [Centrais de Abastecimento de Mato Grosso do Sul] e os mercados pequenos como alternativa no momento”, avalia.

Cultivo de abacaxi

Há 116 km de Dois Irmãos do Buriti, em Campo Grande, quem também encontrou há 20 anos na citricultura uma fonte de renda e qualidade de vida foi o produtor de abacaxi, Mário Gonda. “O cultivo de abacaxi requer atenção exclusiva, por isso optei em trocar as verduras e legumes pela fruta. Para o pequeno produtor é complicado juntar os cuidados da fruta e das hortaliças”, justifica.

Em área equivalente ao do agricultor Daniel, 13 hectares, Mário Gonda e o sócio, o agricultor Sebastião Roberto Agutili, chegam a produzir até 300 mil unidades/ano de abacaxi hawai. “É uma parceria entre um japonês, eu, e um italiano-alemão, o Sebastião. Um trabalho entre etnias que vem dando certo”, afirma em tom descontraído.


Figurinha carimbada na Ceasa da Capital, Gonda afirma que quem se queixa do preço das frutas no mercado quase sempre não fazem ideia da morosidade que é o cultivo. “Estamos plantando uma parte e outras já estamos colhendo. Do cultivo à colheita é necessário de um ano e meio até um ano e oito meses. Plantei uma leva em fevereiro e a colheita só no próximo ano”.

Nos períodos tidos como entressafra, o agricultor prefere recorrer ao fornecedor para manter a clientela cativa. “Tem um ciclo difícil para a gente produzir, de janeiro a março, considerado a pior época para produção. Os grandes produtores conseguem manter porque tem maior condição de investir em tecnologias. Mas, acredito que em longo prazo isso possa mudar”.

A Agraer para incentivar a produção de abacaxi, no Estado, já fez doações de mudas para agricultores familiares em 2016. Além de promover diversas capacitações sobre o cultivo dos diferentes tipos de abacaxi pelos municípios do interior.

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