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21 de Setembro de 2017
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Pantanal sul-mato-grossense

Safári de onças une turismo e preservação

Visitas guiadas e armadilhas fotográficas trazem pistas de como lidar com a espécie

15 MAI 2017 - 10h38min
Estadão

No Pantanal sul-mato-grossense, a esperança tem forma de onça. No bioma onde o maior felino da América muitas vezes é sinônimo de medo e de ameaça ao gado – e onde matar um animal pode ser motivo de orgulho –, um projeto está promovendo a conservação da espécie com o auxílio do turismo de observação. E a esperança vem dando frutos. E netos. Literalmente.

Esperança é o nome de uma das primeiras onças acompanhadas pelo Onçafari, um projeto que importou e adaptou técnicas de observação de leopardos usadas na África para se aproximar do nosso maior gato na planície pantaneira. O trabalho, que teve início em 2011 por iniciativa do ex-piloto de corrida Mario Haberfeld, usa um recurso conhecido como habituação, no qual os pesquisadores se aproximam das onças com carros até que elas se acostumem com aquela presença e deixem ser vistas e estudadas. Guias e turistas em nenhum momento saem do veículo. A ideia é que o bicho não se acostume com a figura humana.

Isso, ao lado de 80 armadilhas fotográficas espalhadas pelo Refúgio Ecológico Caiman, uma propriedade de 53 mil hectares, vem permitindo entender melhor o comportamento das onças, o que traz pistas de como lidar com a espécie para que não seja uma ameaça ao pantaneiro. Por outro lado, permite que turistas e locais a vejam de perto, se encantem e conservem. O encantamento é a parte mais fácil dessa equação – como pôde constatar a reportagem em visita ao Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda. 

Era fim da tarde de domingo. Recebemos pelo rádio a dica de que uma onça se alimentava não muito longe. Um grupo de 11 pessoas, que reunia pesquisadores, ambientalistas e jornalistas, subiu em uma caminhonete aberta adaptada ao safári, e rumamos para lá.

À beira da estrada, onde uma vegetação florestada mais alta cobria um pequeno riacho, a onça havia se entocado para pescar. Os guias que passaram a dica tinham conseguido vê-la antes de ela se esconder. Nós só conseguíamos ouvi-la. Um barulho seco, da espinha do peixe se quebrando. E a expectativa de que ela poderia se irritar com a nossa intromissão na hora de sua refeição.

O motorista decidiu contornar a matinha para tentar vê-la por trás. Mas acabamos atolados em um alagado, a apenas alguns metros de uma onça. 

Enquanto esperávamos o resgate, a tensão aumentava na mesma proporção em que éramos atacados por mosquitos. Será que descemos para empurrar o carro? Na cabeça, a lembrança da palestra era uma tentativa de buscar alguma racionalidade: uma onça dificilmente ataca o gado quando o grupo é grande, prefere animais sozinhos. O risco e o esforço não valem a pena. Além disso, fizemos uma barulheira com o motor na tentativa de desatolar. Ficaria ela intimidada? Mas e outros animais? Na água não haveria jacarés? 

Escurecia e outras imagem vinham à mente, a de duas camisetas à venda na lojinha da fazenda: “Uma onça me viu” e “Eu doei sangue pelo Pantanal”, já que os mosquitos seguiam implacáveis.

Ao sermos enfim rebocados, descobrimos que a onça continuava ali. Voltamos à estrada e paramos o carro. Dessa vez, ela estava muito mais perto, à beira da estrada. Imponente, nos lançou um olhar desinteressado e atravessou tranquilamente a estrada na nossa frente. Entrou no campo do outro lado e seguiu seu caminho. Ficamos olhando, admirados, até ela desaparecer.

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