Gente da terra
Seu Nilson sofre com dores após complicações decorrentes de um acidente, mas não desiste da arte
Considerada uma das profissões mais antigas e, vista até para muitos como em extinção, profissionais do meio têm tentado resgatar e manter viva essa cultura regional, mesmo diante das dificuldades impostas no dia-a-dia. Para seu Nilson não tem sido diferente. Dono de uma pequena selaria localizada na Rua Aziz Scaff, nos altos de Anastácio, o artesão tem sentido o baque tanto em relação à procura quanto por conta de um problema de saúde que o impele a trabalhar sob constantes dores na perna.
Nilson Rodrigues de Melo, de 69 anos é muito tímido e não é de muitas palavras. Mas há quase 20 anos se dedica ao ofício de tratar o couro, sua principal matéria-prima, e transformá-lo em diversos produtos, como selas, conserto de botas, bainhas de faca, os populares chicotes e chaveiros rabos de tatu, além de cintos.
O trabalho minucioso do artesão não para, mesmo tendo que conviver com fortes dores após um acidente de moto. “Eu sofri um acidente e precisava fazer uma cirurgia, mas acabei não fazendo, o que me trouxe consequências e hoje convivo com dores constantes”, desabafa o seleiro.
Peças confeccionadas bem no estilo campeiro. Foto: Francis LeonePara amenizar um pouco o sofrimento, seu Nilson confeccionou para si mesmo um chinelo de couro com uma altura maior que o outro, já que após o acidente e, sem ter passado pelo tratamento recomendado, uma perna ficou mais curta que a outra.
Outra preocupação é em relação à clientela. Seu Nilson relata que passa por dificuldades, pois há clientes que reclamam dos preços dos produtos confeccionados à mão. “Hoje está muito difícil. Está parado demais”, diz consternado.
Seu Nilson, que já foi casado, mas hoje mora só, ainda arca com os custos do aluguel do ponto em que está a selaria. Mesmo com tantos obstáculos, problemas de saúde e timidez, suas peças artesanais impressionam.
O couro é tratado e possui costuras manuais bastante reforçadas. Com criatividade, seu Nilson “desenha” as peças com ilhoses, botões, argolas e demais marcas em baixo e alto relevo. Mesmo utilizando ferramentas rudimentares, seu trabalho é muito bem feito. E assim, o artesão vai tocando em frente, como diz a célebre composição de Almir Sater e Renato Teixeira: apesar dar dores que carrega, o seleiro tem o dom da arte em couro, apenas à espera da oportunidade de ter mais reconhecimento.
*Colaborou Francis Leone.
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