Felipe Milanez
No Pantanal, um movimento de mulheres luta por afirmação, direitos e independência econômica. É a Associação de Mulheres Independentes na Ativa.
Pantaneiro é na dele. Sujeito quieto, discreto. Ressabiado. Escuta bem, antes de falar e dar prosa. Toma o terere e analisa firme o sujeito interlocutor - uma roda de mate é sempre cheia de regras sociais nem sempre bem percebidas pelos de fora. Pantaneiro sabe usar o tempo, leva com calma a aproximação. Não é bruto, como a imagem dos truculentos cowboys americanos. Tem educação regional, própria para seus usos e costumes, e bastante sofisticada. Lida no campo. Passa o dia fora.
E na casa, nos afazeres da família, no controle do gasto e na liderança intelectual, está a pantaneira. A mulher. A posição social da mulher na cultura tradicional pantaneira não é feita da opressão característica de muitas sociedades do campo no Brasil. Nunca foram de ocupar posição submissa. E sim de viver em comunhão com o marido no núcleo familiar.
Mas acontece que o Pantanal é uma região que tem sofrido um bocado ultimamente. E como ele, sofrem as mulheres e os homens pantaneiros. Projetos de hidrelétricas ameaçam os rios da região, e trazem uma leva de população migrante. A pecuária, antes explorada em harmonia com as pastagens naturais, tem provocado desmatamento que já atinge 15% do bioma. E a iminência da chegada da cana e da soja, que já rodeiam as serras que circundam o vale pantaneiro, tem transformado o jeito de ser da gente da região. A cultura pantaneira está mudando bruscamente. Está ameaçada de extinção, de sofrer uma transformação profunda pela urbanização da região.
Do campo, essa gente vai para a cidade. Um êxodo, que está em curso. Agora, no pantanal, essas posições sociais começam a assumir as características interioranas do Brasil, muitas vezes tidas como "machistas". E assim a opressão às mulheres começa a aparecer de forma mais evidente. Mas na cidade de Anastácio, no Mato Grosso do Sul, essa situação está sendo invertida. Justamente por influência da cultura igualitária pantaneira - que resiste entre as mulheres de Anastácio.
Em 2004, um grupo de mulheres vizinhas uniram-se para formar a Associação de Mulheres Independentes na Ativa (Amina). Foi uma iniciativa quase sem pretensão, voltada prioritariamente para a produção de artesanato, em cooperativa, e para facilitar o comércio dessa produção. Idealizada por Nilma Infran da Silva, presidente da associação, essa união serviria para ocupar o tempo vago das donas de casa, que queriam se inserir no mercado de trabalho. E como pantaneiras, o simples ato de ser coadjuvante na vida doméstica não lhes servia.
Aprenderam a administração na prática, com pouco acesso a informação. No início, a associação procurou dar apoio ás mulheres em situação de risco e vulnerabilidade social. Passaram a oferecer cursos de artesanato, para criar uma alternativa de vida.
Primeiro, eram as mães de família. Com a engrenagem do artesanato andando, começaram a auxiliar as mulheres que estavam passando dificuldade. Usuárias de drogas, prostitutas que queriam se desvencilhar da profissão, e ajudar aquelas que sofriam com violência doméstica.
"Destas ações, muitas lições foram aprendidas. Também muitas histórias surgiram das mulheres que mudaram de vida. E disso vieram lições de vida valiosas que agora elas querem registrar em um livro", me explica Lia, como é conhecida Neliane Corrêa, que auxilia a Amina através do Projeto Resgate da Cultura Pantaneira, uma instituição ligada ao Centro de Pesquisa do Pantanal.
O orgulho do trabalho tem levantado a auto-estima. Do trabalho manual, elas estão partindo para os intelectuais. Conseguiram um ponto de cultura, junto do Ministério da Cultura. E Nilma já escreveu o primeiro livro. Por enquanto, não é da vida das mulheres. Ela entrevistou os pracinhas militares da região que foram à segunda guerra mundial. "É a história de verdade que eu conto. Não a oficial. O sofrimento deles, a experiência, e como ficou a vida quando voltaram. O Exército não quis me ajudar a publicar", diz ela.
O próximo livro em andamento são as histórias das mulheres da associação que atravessaram períodos de crises e dificuldades. Nem sempre, me explica Nilma, as histórias terminam com um "final feliz". Como é o caso de mãe e filha que se prostituíam, mesmo recebendo apoio da Amina e o companheirismo das outras mulheres. "Uma delas, a filha, era casada com um bom marido, segundo seu próprio relato, mas resolveu largar tudo para voltar a se prostituir. Não por necessidade, mas por opção", diz Nilma. "Esta história comprovou que nem sempre a prostituição é por necessidade. Mas, em alguns casos, pode ser por fetiche ou por opção", relata. Essa memória está sendo escrita por as duas, mãe e filha, com ajuda das outras companheiras.
Tem também o caso de "Maria" que, quando jovem, "saia muito pra se divertir, festejar, beber e namorar. Ela passou a usar drogas e viver na farra" conta Nilma. Vieram os conflitos familiares, e uma gravidez indesejada. "Quando o bebê nasceu, Maria descobriu que ele tinha deficiências físicas e mentais", diz. Mas se pensam que ela iria desistir e, como é comum por lá, doar o filho, negativo. "Diferente do que pensava sua família, a maternidade trouxe maturidade para Maria. e ela se tornou uma mãe dedicada ao filho, que precisava de atenção especial." Maria também está escrevendo sua história. Assim como diversas outras mulheres que encontrei quando visitei a sede da Anima e me contavam, orgulhosas, suas lutas de vida.
Elas, por enquanto, não querem se envolver na política estrito senso, lutar por cargos públicos ou depender de favores de políticos. Sabem que isso acarreta um custo, e Nilma diz que já recusaram várias ofertas de apoios. Preferem a política efetiva. Direta. Pressões em autoridades, união, conversa, luta por independência. Ativas, como as pantaneiras sempre foram.
Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.