Anastácio
Professora abriu portas de casa e presenteou crianças terena com arte, cultura e poesia
O fogo que já consumiu milhões de hectares do Pantanal é visto nos noticiários há alguns meses e tem chamado a atenção da população sul-mato-grossense, que assiste, de mãos atadas, parcela considerável de um dos biomas mais ricos do mundo ser degradada dia após dia.
Milhares de cidadãos que dependem dele para sobreviver observam, desesperados, a situação, que até agora parece estar longe do fim. Neste final de semana, crianças e adolescentes da etnia terena, da Comunidade Aldeinha, em Anastácio, dedicaram um momento para reflexão acerca do problema.
Com olhar inocente, ilustraram, por meio da arte, a traumática situação da região pantaneira, que arde em chamas. A iniciativa partiu de um grupo de professoras que evidenciaram a necessidade de chamar a atenção para problema, ao mesmo tempo em que atuam para romper o preconceito em torno dos povos indígenas, justamente no Estado com a segunda maior concentração no País.
“Ao acompanhar toda essa queimada na nossa região, refleti e escrevi algumas aldravias e, então, tive a ideia de convidar algumas crianças e adolescentes da Comunidade Aldeinha para refletir conosco e expressar, por meio de desenhos, poesias e artes plásticas toda essa preocupação, que é nossa”, narra a Flávia Rodht, coordenadora da ação.
Ela conta que convidou algumas amigas, professoras terena Évelin Hekeré, Lidimara e Kelly Aquino, que prontamente abraçaram a ideia e ajudaram a concretizar o trabalho, ali mesmo, em sua própria casa.
Flávia é professora de Língua Portuguesa e trabalhou na comunidade indígena de 2013 a 2017, até que, em 2018, passou numa seletiva e agora atua na Fundação Bradesco, escola de Bodoquena. “É um trabalho voltado à valorização da cultura e dos povos indígenas, ao resgate da autoestima deles, enquanto crianças, enquanto cidadãos. Essa divulgação vai ajudar muito nisso, pois precisamos de mais ações assim.
Homenagem à professora Tisa Tati, vítima da Covid-19
Conforme a professora, o projeto começou a ser pensado em 2017, quando ela ainda lecionava na Escola Estadual Inígena Guilhermina da Silva, mas ficou engavetado até agora. “Passaram-se alguns anos, mas a vontade de oportunizar essa função da arte Aldravista com a arte indígena permanecia”, narra.
Inicialmente, tinha parceria com a professora de artes e musicista Tisa Tati, que faleceu em agosto deste ano, vítima da Covid-19. “Todo esse projeto é dedicado em memória dela”, conta.
“Como eu faço parte do Movimento Aldravista, comentei sobre essas ações com os poetas aldravistas, criadores do Movimento e gênero, de Mariana-MG, e eles nos presentearam com a edição, diagramação e registro ISBN. Todas as produções feitas pelas crianças e adolescentes farão parte de um e-book, que será produzido pela Andreia Donadon, pela Editora Aldrava, Letras e Artes”, adianta.
Todo o material escrito será traduzido para a língua Terena pela professora Lidimara Francisco, porque a Comunidade Aldeinha deve ser reconhecida positivamente, ainda há muito preconceito, mesmo que implícito, sobre ela, sobre os povos.
Grupos de 10 crianças e 10 adolescentes participaram da ação. Na quinta-feira, eles participaram de uma oficina de aldravias, poesia minimalista, onde produziram textos e desenhos que demonstravam o cenário vivenciado na região pantaneira. “As crianças trouxeram para os diálogos as imagens que viram nos noticiários, animais morrendo, queimados, fugindo”, antecipa.
Na segunda oficina, realizada neste domingo (11), foi a vez dos adolescentes produzirem telas. “Nosso maior desejo seria ter condições para edição de livros impressos e exposição das telas produzidas”, pontua a professora. “Estima-se que até o mês de novembro esteja tudo pronto para o lançamento virtual desse material”, avisa.
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