Recém-aprovada em faculdade federal, a miss indígena se orgulha para além da representatividade: "ninguém há de tirar o meu próprio conhecimento", diz
"Hoje começa um novo ciclo na minha vida,
uma nova caminhada com novas batalhas por vir".
É assim que Maria Eduarda "Duda" Aquino, a estudante aquidauanense de 17 anos, avalia sobre a sua aprovação no curso de Direito da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), uma das faculdades mais concorridas da instituição. Para ela, que é uma jovem terena de Aldeinha, a conhecida aldeia já urbanizada de Anastácio, a novidade demonstra que sua conquista vai muito além da representatividade.
Na terça-feira (24) desta semana, a jovem terena Maria Eduarda Aquino confirmou aprovação no curso Direito UFMS."Com a aprovação, gostaria de incentivar outros – não só indígenas, claro – ao dizer que o estudo é o caminho certo. Porque ninguém tira o seu conhecimento. Não será cor, classe social, muito menos etnia uma barreira para que cada um de nós deixemos de realizar nossos sonhos", reflete.
E continua: "eu, que também assumi a coroa de miss indígena no ano de 2019, estar cursando Direito UFMS não é apenas uma honra, mas uma forma de mostrar que você também pode estar aonde quiser, levando sua cultura debaixo do braço sem nunca desistir daquilo que te faz feliz", pontua.
Duda estava em casa, deitada junto da mãe, quando recebeu a carta de aprovação. Isso foi na última terça-feira (24), conta.
Pontualmente às 17h30, Duda estava com a mãe quando recebeu o e-mail; "impossível não me emocionar", diz."Ao ler o e-mail 'parabéns estudante, você foi aprovado na maior e melhor faculdade federal do Mato Grosso do Sul', eu fiquei extremamente feliz. Chorei, pulei, gritei! Foi a maior felicidade do mundo", descreve.
Não foi à toa. Como sua família nunca teve renda para bancar educação particular, a jovem terena sempre estudou em escola pública. Da pré-alfabetização até o terceiro ano do ensino médio, Duda ganhou aprendizados e lições para vida toda por meio da Escola Estadual Indígena Guilhermina da Silva. Hoje, sua trajetória revela mais do que uma futura advogada.
"Quero ser delegada", assinala. "Eu vinha estudando para entrar em Medicina, mas com o tempo percebi que não era a faculdade que eu realmente queria cursar. Comecei a pesquisar outras e percebi que o Direito se encaixava melhor comigo", decidiu.
Desde 2019, Duda vem sendo a terena que recebeu a honra da coroa de miss indígena; agora, novos futuros à frente.Mesmo a vaga ser uma reserva às cotas (Lei número 12.711/2012), Duda confirma: "o mérito de alcançá-la e conseguir de fato a aprovação foi totalmente meu. De toda a história do meu povo, ter esse gostinho é ganhar – mesmo que aos pouquinhos – a luta pelo nosso lugar no mundo", reflete.
"Ter passado na federal foi um mérito enorme. Não só por ser uma universidade pública, a melhor do nosso Estado, mas também pelo curso de Direito ser bastante concorrido. Ainda, enquanto uma mulher indígena, terena, aquidauanense, pantaneira, isso me dá a honra de vestir a minha verdadeira cultura".
E finaliza: "espero que eu não seja a única indígena da Aldeinha a fazer o mesmo. Torço para que venham muitos e muitos outros!".
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