05 de agosto de 2021
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Diversidade

Transexual assumida, Verônica viu o amor vencer ao ser chamada de neta

"Foi o dia mais feliz que já vivi", conta ao receber sacola de roupas femininas da avó

14 JUN 2021 - 08h49min
Raul Delvizio

Aos 31 anos, Verônica Perez é a maquiadora anastaciana e transexual do mais puro orgulho. Sua trajetória de vida poderia ter sido outra – de abandono, sofrimento e árdua batalha nas ruas para sobreviver – caso a avó não tivesse deixado o amor falar mais alto. Um dia, ao comprar roupas femininas de presente, a matriarca trocou o "neto" pela neta que de fato sua filha do coração é. Assim, a história virou outra e hoje pode contar com um final feliz.

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Relatando em primeira pessoa, Verônica compartilha em exclusividade com O Pantaneiro suas experiências de vida, mostrando que nem sempre o caminho foi o dos mais fáceis. Como o de outras mulheres e homens transexuais, a luta permanece diária. Graças ao respeito próprio, a empatia da família e um pouquinho de "sorte" dos céus, ela pode encontrar sua força interior e – sem mais nem menos – soltar um solene e libertador "sou mulher".

Verônica Perez é a mulher trans de 31 anos que teve na avó materna a "maior sorte" de sua vida: amor incondicional.

"Desde muito pequena eu já sabia ser transexual, só não sabia da existência dessa palavra, muito menos como era ser uma. Sempre fui uma criança afeminada e para mim isso era normal. Nunca fui forçada, pelo menos por parte da minha família, a ter trejeitos masculinos ou mostrar uma 'masculinidade' que não era natural em mim.

Na escola, porém, nos lugares que eu frequentava eu percebia as pessoas me olharem estranho. Eu falava comigo mesma: 'Deus, será que tem algo de errado comigo?'. Eu me via como um menino que gostava de outros meninos e que nem ao menos se identificava como um menino de fato. Era uma confusão interna.

Por isso, até meus 16 anos, me assumi enquanto gay. Contei primeiro para minhas amigas, pois morria de medo da rejeição da minha avó e minha mãe, pensando que se elas soubessem eu seria renegada, expulsa de casa.

Registro dela ao lado de suas mulheres: a mãe e a avó; por causa das duas, trajetória de Verônica pode ser digna.

Já naquela época, eu vestia levemente com roupas mais femininas – tudo escondido, claro. De short curto, dançava sozinha trancada no banheiro e em frente ao espelho. Quando me olhava, não gostava da imagem que eu via. Às vezes, pegava escondido roupas da minha mãe para poder ver como ficaria. Me sentia tão realizada! Meu maior sonho era um dia poder me travestir na rua, sem medo de ser feliz.

Algum tempo passou, questão de meses, e eu tomei coragem de me assumir gay para elas duas. Não foi fácil. Minha mãe já desconfiava, então foi mais tranquilo, porém minha avó pensou ser um 'desvio de conduta', que era tudo invenção da minha cabeça e que seria passageiro. Em resumo, ela não acreditava que aquilo estava acontecendo dentro da sua família.

Até então tinha poucas roupas femininas e saia escondido na rua para não me verem travestida. Com 17 anos, comecei a me montar de dia também. Mas em casa só me vestia com roupas de menino. Com o tempo, isso foi mudando, até que minha avó já começou a perceber essa diferença, de que o neto dela poderia ser uma mulher trans.

Foi se olhando no espelho que Verônica encontrou a coragem para admitir ser uma mulher de coração, corpo e alma.
Além dos carnavais, ela também já participou e até levou título de Miss Trans; mais recentemente, de Miss Simpatia.

Aos 18, cheguei para elas e falei que eu não era gay, mas uma uma transexual/travesti. 'Não consigo mais ficar nesse meio termo, em cima do muro, fazendo tudo às escondidas'. Já estava de mala feita, pronta para ir embora. Foi quando o amor venceu. Minha avó, que tinha um coração mais conservador, mais tradicional, falou que me amava e me aceitaria como eu bem fosse. 'Você não precisa sair de casa, não. Enquanto eu for viva, vai viver com a gente, não vai morar na rua fazendo sabe Deus o quê. Só peço que tenha um pouco de paciência porque isso é tudo muito novo pra mim'.

No começo, ela ficava me olhando querendo saber como é que eu ia sair. Mas depois as coisas se acertaram, tanto é que pouco antes dela falecer até comprou roupas para mim. De mulher. Essa foi umas das primeiras vezes que ela me tratou no feminino, pois até então continuava a me tratar no masculino, como seu neto, e eu deixava. Não a corrigia da maneira que eu corrigia outras pessoas. Nessa ocasião, ela foi até uma loja e disse: 'vim comprar roupas para minha neta'. Quando chegou em casa com as sacolas, imaginei ser camiseta, bermuda e tudo mais, mas quebrei a cara. E posso dizer? Foi um dos dias mais felizes que já vivi".

Diferente de algumas de suas "irmãs", Verônica também contou com a oportunidade de se formar em faculdade.

Corpo e alma – "A primeira vez que eu saí 100% montada na rua não teve uma pessoa que não parou a conversa para me ver passando. Perdi muita gente – que até então considerava amiga – para o preconceito. Não só de olhares vive, mas agressão física também. Uma vez saindo da balada, me agrediram e eu não deixei barato: revidei também. Não deixo mais o preconceito passar em vão, luto para que um dia ele minimize a ponto de não ser mais problema.

Tive a sorte da minha jornada não ser a da prostituição. Apesar de não ser algo errado, só faria se houvesse necessidade. Não seria menos digna por isso, porém minha avó proporcionou um prato de comida na mesa e uma cama para eu dormir. Tive a chance de estudar, coisa que não é uma realidade para minhas irmãs travestis. A maioria é expulsa de casa, agredida, e vive nas ruas batalhando por uma vida melhor. Falta emprego, respeito, oportunidade. Não venha com essa de querer naturalizar o 'ah, mas hoje em dia tem mais chances' pois infelizmente não é assim para quem é trans.

Demorei para tomar hormônios pois tinha medo de me automedicar. Ficava receosa no que eu poderia ter, de trombose a câncer. Quando fiz 18, tomei um pouco, mas graças à Deus hoje em dia posso contar com um ambulatório especial feito para mim, para pessoas que também vivem por esse tratamento.

"O que nós trans queremos? Uma história feliz. Queremos viver da maneira que merecemos e podemos ser".

A maior prova da minha vida não foi nem a de me assumir de fato, mas suportar a dor de perder minha avó tão cedo. Ela era o amor da minha vida, fruto de um amor incondicional que nutria, e sei que ela sentia por mim também. Tudo que eu passei, entre transição e preconceitos, não se compara a me despedir dela. Tirei de mim uma força ímpar, para continuar de pé, viva, para continuar cuidando da minha mãe que hoje se encontra acamada. Eu estou firme. Já que Deus me fez assim, do jeito que eu sou, ele saberia que não seria fácil, mas que eu teria a garra para aguentar tudo.

Para finalizar, o que nós trans queremos? Uma história feliz. Queremos respeito, dignidade, menos transfobia, mais oportunidade de emprego, menos rejeição. Queremos viver nossas vidas da maneira que merecemos e podemos ser".

A cada semana do mês de junho, O Pantaneiro lança uma reportagem diferente sobre o mesmo tema: #Diversidade. Contando histórias da nossa gente, a série promove uma reflexão sobre respeito, amor e aceitação – independente de gênero e sexualidade.

Tem uma sugestão de pauta? Mande a sua via WhatsApp!

 

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