Solidariedade
Ailuj Martins Wandscheer relata também já ter sofrido gordofobia; ela diz acreditar que a canção será um sucesso na voz da cantora
Publicado em 17/10/2026 às 11:31
Ailuj Martins Wandscheer compôs uma música para se solidarizar com a cantora Gleici Helena / Arquivo pessoal/Divulgação
Após tomar conhecimento dos ataques gordofóbicos contra a cantora Gleici Helena, a compositora Ailuj Martins Wandscheer, também moradora de Aquidauana, ficou decidida a transformar indignação e solidariedade em música. Em conversa com a reportagem de O Pantaneiro, ela conta sobre a história de uma composição feita especialmente para a artista e o que a levou a dedicar a canção a alguém que, assim como ela, já teve de lidar com julgamentos relacionados ao corpo.
Ailuj explica que também conhece de perto o preconceito enfrentado por pessoas que não se encaixam nos padrões físicos impostos pela sociedade. Para ela, comentários sobre a aparência podem desconsiderar a história, as dificuldades e as qualidades de alguém, reduzindo a pessoa a características físicas que não definem sua capacidade nem seu valor.
Ao falar sobre Gleici, ela faz questão de destacar o talento e o direito da cantora de ocupar seu espaço sem precisar se justificar diante de ataques nas redes sociais.
“Gleici Helena tem talento, tem voz, tem história e tem o direito de ocupar o espaço dela. O corpo dela não diminui seu talento, não apaga sua capacidade e muito menos determina o valor que ela tem como ser humano”, diz Ailuj.
Segundo ela, a composição "Por trás deste corpo" surgiu de maneira espontânea, como uma forma de demonstrar carinho e encorajar a artista neste momento. Ailuj afirma que costuma escrever músicas regularmente e que, desta vez, decidiu usar essa habilidade para transmitir uma mensagem de força a Gleici, na expectativa de que a homenagem também alcance outras pessoas que passam por situações semelhantes.
“Foi de coração. Eu acredito que essa música vai fazer sucesso com ela, porque ela é capaz e uma super mulher. Vai conseguir passar por tudo isso e fazer mais sucesso ainda do que ela já faz”.
A iniciativa se soma às manifestações de apoio que Gleici Helena vem recebendo após os comentários ofensivos. Fãs, artistas, comerciantes e lideranças políticas também se mobilizaram em defesa da cantora, reforçando o reconhecimento ao seu trabalho e a rejeição aos ataques relacionados à aparência.
Ao mostrar a música à reportagem, Ailuj também compartilha uma mensagem que vai além da homenagem individual - a importância de respeitar as pessoas sem conhecer suas histórias e de não permitir que o preconceito tire o espaço do talento, da trajetória e da dignidade de ninguém.
A seguir, confira a canção composta por Ailuj Martins Wandscheer especialmente para Gleici Helena e as pessoas que também sofrem com ataques gordofóbicos. Também é possível ouvir a música através do aplicativo Suno, por este link.
"Por trás deste corpo"
[Verso 1]
Você conhece a minha história?
Sabe o que eu tive que enfrentar?
Conhece as noites de silêncio,
As vezes que eu quis desabar?
Você só enxerga o meu corpo,
Mas não consegue enxergar
As cicatrizes que eu carrego,
Nem as batalhas pra continuar.
[Pré-refrão]
Antes de julgar, olhe pra dentro,
Antes de ferir, tente entender.
Ninguém tem o direito de arrancar
A vontade de alguém viver!
[Refrão]
Não julgue o meu corpo, respeite quem sou!
Deus sabe das marcas que a vida deixou.
Meu peso não mede o tamanho do meu coração,
Não cabe nos olhos de quem julga a minha dimensão.
Eu tenho uma voz, tenho sonhos, tenho valor!
Não sou o padrão que o mundo inventou.
Se o espelho não mostra o que existe em mim,
Deus vê minha alma, e isso basta, enfim!
[Verso 2]
Por trás de um sorriso existe uma história,
Por trás de uma foto, alguém a lutar.
Palavras machucam, destroem a autoestima,
E quem as pronuncia nem para pra pensar.
Será que é tão difícil ter empatia?
Será que custa tanto estender a mão?
Enquanto você ri da aparência alheia,
Alguém está chorando em silêncio no chão.
[Pré-refrão]
Antes de julgar, olhe pra dentro,
Antes de ferir, tente entender.
A beleza não tem forma nem medida,
E ninguém nasceu pra agradar você!
[Refrão]
Não julgue o meu corpo, respeite quem sou!
Deus sabe das marcas que a vida deixou.
Meu peso não mede o tamanho do meu coração,
Não cabe nos olhos de quem julga a minha dimensão.
Eu tenho uma voz, tenho sonhos, tenho valor!
Não sou o padrão que o mundo inventou.
Se o espelho não mostra o que existe em mim,
Deus vê minha alma, e isso basta, enfim!
[Ponte]
E se um dia a vida te ensinar
A sentir na pele a dor de alguém,
Que você encontre mãos que te acolham,
E não julgamentos de quem não te quer bem.
Eu não preciso ser perfeita,
Nem mudar pra merecer amor.
Sou muito mais que a minha aparência,
Sou filha de Deus, sou obra do Criador!
[Refrão final]
Não julgue o meu corpo, escute a minha voz!
O preconceito não fala por nós!
Quebramos os padrões, levantamos do chão,
Ninguém vai calar nossa força e canção!
Eu tenho uma voz, tenho sonhos, tenho valor!
Minha história é feita de luta e amor!
E se o mundo insiste em me diminuir,
Vou cantar mais alto e continuar a existir!
[Final — voz e violão]
Por trás desse corpo existe alguém…
Que também sente, que também chora.
Não me julgue sem conhecer minha história…
Respeite quem sou. Eu também tenho valor!
Veja, também, o texto completo feito por Ailuj em que ela explica o que a motivou a prestar solidariedade à cantora e às vítimas de ataques gordofóbicos:
"Minha atitude nasceu da empatia, mas também de uma realidade que conheço de perto. Eu sei o que é viver em um corpo que, muitas vezes, é julgado pela sociedade. Sei o que é ser alvo de comentários, chacotas e olhares que machucam, como se a aparência de uma pessoa definisse seu caráter, sua capacidade ou seu valor. Eu e meu esposo também já enfrentamos situações dolorosas por causa disso.
O que muitas pessoas não compreendem é que ninguém conhece todas as batalhas que existem por trás de um corpo. Existem questões de saúde, tratamentos, limitações e histórias que não aparecem em uma fotografia. No meu caso, enfrento problemas de saúde importantes, e meu corpo carrega marcas de uma trajetória que nem todos conhecem. Por isso, entristece-me ver alguém ser reduzido à própria aparência, como se a pessoa tivesse escolhido sofrer preconceito ou como se o seu peso desse aos outros o direito de humilhá-la.
Quando vi a situação da Gleici Helena, não enxerguei apenas uma cantora sendo criticada. Enxerguei um ser humano que merece respeito, acolhimento e a oportunidade de exercer seu talento sem precisar se defender o tempo todo por causa do próprio corpo. Enxerguei também tantas outras pessoas que sofrem caladas, que deixam de frequentar lugares, de realizar sonhos e até de se sentir bonitas porque foram convencidas de que não se encaixam no padrão que a sociedade impõe.
Foi por isso que decidi escrever. Não para alimentar conflitos, mas para levar reflexão; não para pedir que todos pensem da mesma maneira, mas para lembrar que ninguém precisa ser igual a nós para merecer respeito. E a música surgiu como outra forma de transmitir essa mensagem, porque acredito que a arte pode tocar corações onde, muitas vezes, as palavras não conseguem chegar.
Sou cristã e acredito que Deus nos ensina a olhar para o próximo com amor, e não com desprezo. Aos olhos do Senhor, nosso valor não está no número que aparece na balança, no tamanho da roupa ou no padrão estético que a sociedade considera ideal. Está na nossa humanidade, naquilo que carregamos no coração e na dignidade que cada pessoa merece.
Não estou dizendo que precisamos ignorar os cuidados com a saúde, mas que saúde e aparência são coisas diferentes, e nenhuma delas deve ser usada como justificativa para maltratar alguém. Podemos incentivar o cuidado, oferecer apoio e estender a mão sem ferir, constranger ou diminuir.
Se esse texto e essa música conseguirem fazer alguém repensar uma piada, evitar uma palavra cruel ou abraçar uma pessoa que já se sente rejeitada, então minha atitude terá valido a pena.
Eu não escrevi porque sou perfeita, nem porque tenho todas as respostas. Escrevi porque conheço a dor, porque também tenho minhas lutas e porque não quero que outras pessoas continuem sofrendo em silêncio por algo que jamais deveria ser motivo de humilhação.
Que possamos aprender a enxergar pessoas antes de enxergar corpos. Que a nossa boca seja instrumento de acolhimento, e não de feridas. E que nunca nos esqueçamos de que ninguém precisa ter o corpo que o mundo exige para merecer o amor, a dignidade e o respeito que Deus nos ensina a oferecer.
Essa foi a minha motivação: transformar uma dor conhecida em uma mensagem de amor, solidariedade e respeito ao próximo."
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