X
Aquidauana

Após se graduar em Aquidauana, antropólogo conquista reconhecimento e prêmios

Paixão pela história dos índios levou Giovani José da Silva a publicar um livro sobre os Kadiwéu

Giovani (de azul) visitou a casa do professor Arnaldo Begossi, que escreveu a capa do livro / Rhobson T. Lima

Ele foi aprovado nos vestibulares das faculdades mais concorridas do Brasil, como USP (Universidade de São Paulo) e Unesp (Universidade Estadual Paulista). Entretanto, decidiu se mudar para Aquidauana e se formar na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), por entender que o município sul-mato-grossense seria o lugar ideal para conhecer os "índios da vida real", e não apenas nos livros.
Doutor em História, especialista em Antropologia, premiado a nível internacional e consultor da novela Alma Gêmea, exibida nacionalmente pela Rede Globo. Essas são algumas credenciais do professor Giovani José da Silva, que sempre se interessou em estudar a vida dos indígenas. A vontade de conhecê-los melhor veio por parte da sua mãe, que foi criada em Porto Murtinho, cidade considerada a última guardiã do Rio Paraguai e que conta com um grande número de indígenas. Como perdeu o pai muito cedo, aos quatro anos, os laços familiares por parte da mãe acabaram falando mais alto e despertando o interesse por conhecer as etnias da região.
No ano de 1991, Giovani decidiu cursar História na UFMS e se mudou junto com sua mãe para Aquidauana, onde passaram a morar com a tia dele, Justina Torres, que reside na cidade pantaneira. No campus da Princesa do Sul, teve aulas com professores como Arnaldo Begossi, Vilma Begossi, Carlos Corrêa da Costa, Marisa Bitar, Amarílio Ferreira, Gilson Martins, Cesar Benevides e Mário Baldo. Durante o período de graduação, trabalhou nas escolas Cândido Mariano, no Instituto de Educação Aquidauanense e na Fundação Cera. Foi bolsista de iniciação científica e de um projeto da alfabetização entre os índios terenas, coordenado pelo professor Gilson Martins.
Quando se formou, no início de 1995, decidiu retornar para São Paulo com planos de dar continuidade à vida acadêmica, enquanto sua mãe voltou para Porto Murtinho. Um ano depois, em casa, ela recebeu a visita da recém-eleita prefeita da cidade, Mirian Conceição Silvestre dos Santos, e do marido, dela, Heitor Miranda dos Santos, atual prefeito de Porto Murtinho, tendo como tema um convite de trabalho para o filho. Ao receber a notícia da mãe, Giovani não pensou duas vezes em retornar para a cidade dela, onde começou a trabalhar com os índios Kadiwéu, aventura que ele próprio considera como a mais importante da sua vida.
?Aceitei um convite que, naquela época, parecia irrecusável. Deixei São Paulo e voltei pra Porto Murtinho, que considero uma cidade muito importante, onde estão enterrados meus avós e onde tenho uma história muito bonita. Tinha 24 anos de idade, estava prestes a fazer 25 e com a cabeça cheia de sonhos, uma vontade enorme de fazer coisas que, até então, eu só tinha planejado?, lembra o professor.
O retorno ao município guardião do Rio Paraguai foi cheio de experiências positivas. Ele trabalhou com os Kadiwéu até o ano de 2004 e, nesse período, ajudou a criar a Escola Municipal Indígena Ejiwajegi, expressão que significa ?Eu sou índio?. Juntamente com sua equipe de trabalho, também desenvolveu o ensino fundamental, o ensino médio, o curso de formação de professores e magistério.
Prêmios
Pelo trabalho realizado na aldeia, Giovani foi indicado para receber o prêmio Victor Civita ? Educador Nota 10, no ano de 2001. ?A escola era a mais precária possível, não tínhamos energia elétrica e nem água potável, enfrentávamos condições adversas, mas a vontade de fazer algo diferente e bonito era tão grande que, olhando pra trás, eu fico pensando que nós éramos realmente loucos, no bom sentido, claro, porque o desafio foi enorme?.
Após ficar entre os 12 finalistas do prêmio Victor Civita, a alegria maior veio na noite do dia 09 de outubro daquele ano, ao ganhar o prêmio de Educador Nota 10 e a honraria de melhor professor de escola pública do Brasil, das mãos do cantor Ivan Lins, diante de uma plateia de 2 mil pessoas. A cerimônia foi acompanhada pelos alunos de Giovani, através de uma televisão instalada na aldeia por meio de gerador, e o professor teve a oportunidade de fazer um discurso especial de agradecimento aos indígenas, na língua kadiwéu.
Posteriormente, ele fez mestrado no campus da UFMS em Dourados, onde atualmente fica a sede da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados). Sua tese de doutorado, defendida na UFG (Universidade Federal de Goiás), tendo com tema os índios chiquitanos, foi considerada a melhor tese de ciências humanas defendida na universidade entre os anos de 2008 e 2010 e recebeu o prêmio ?Expressão Acadêmica?. Em 2009, mesmo ano em que concluiu o doutorado, ele também recebeu o prêmio Peter Muranyi, com um trabalho desenvolvido em conjunto com a sua irmã, Giane Ramona da Silva, e a professora Léia Lacerda, da UEMS, sobre um programa de prevenção às DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis) entre os índios do Pantanal. Neste ano, ele concluiu o pós-doutorado na UNB (Universidade de Brasília).
Com a experiência de ter trabalhado com quase todas as etnias indígenas de Mato Grosso do Sul, exceto os guaranis, Giovani publicou o primeiro livro sobre os kadiwéus, que se chama ?Senhoras da Arte, Senhores da Guerra?, no ano de 2011. Para a obra, ele reuniu especialistas das mais diferentes áreas para escrever sobre a etnia e contou com a participação especial do professor Arnaldo Begossi, que escreveu a capa do livro. Entre outros assuntos, debates sobre a polêmica questão das demarcações indígenas.
"Eu não vejo que tenha um lado certo ou errado. O governo do final do século XIX, primeiro governo republicano, e assim como o do início do século XX, emitiu títulos de terras para as pessoas que chegavam aqui. Esses títulos são válidos, ao contrário do que dizem. Nós temos famílias centenárias na região, inclusive de Aquidauana. Acontece que eles chegaram aqui e descobriram que essas terras não estavam tão vazias, e aí o conflito é gerado. Do meu ponto de vista, é preciso convocar as pessoas que conhecem a trajetória histórica dessas populações, para nós refletirmos sobre os que foram enganados, pois os dois lados se sentem lesados, e com razão", acredita.
Alma Gêmea
Em 2005, o antropólogo foi convidado pelo autor da novela ?Alma Gêmea?, Walcyr Carrasco, para ser consultor de história de antropologia da trama global, responsável pela maior audiência da história da emissora no horário das 18 horas. O período foi marcado por um número incontável de cartas e o convívio com artistas do primeiro time que ele sempre teve admiração, como Fúlvio Stefanini, Elisabeth Savala, Ana Lúcia Torre, Julia Lemmertz e Priscila Fantin, que até hoje mantêm amizade com Giovani.
Atualmente, depois de mais de duas décadas ligado a Mato Grosso do Sul, Giovani se mudou para o Amapá, onde leciona na Unifap (Universidade Federal do Amapá). Ele continua trabalhando com os índios e agora se dedica aos estudos das etnias da Amazônia. ?Meu futuro está entrelaçado com a história dos índios. Pretendo ficar um tempo longo no Amapá, escrever sobre as etnias de lá e também continuar escrevendo sobre o Mato Grosso do Sul. Talvez, mais tarde, voltar para São Paulo, porque minha mãe mora na cidade e é o lugar onde eu nasci. Nós dois temos uma ligação muito forte, inclusive por causa dessa cultura indígena que ela carrega?.
Até hoje, porém, o antropólogo mantém contato com os colegas de graduação e professores de Aquidauana, cidade que foi extremamente importante para a construção de sua trajetória e motivo de orgulho para ele próprio. "Não importa se fazemos faculdade num grande centro ou numa cidade do interior de Mato Grosso do Sul, numa universidade que é considerada, ainda hoje, periférica. É muito mais o que você faz com o que tem nas mãos. Hoje, não devo nada a quem tenha se formado em um grande centro, podia muito bem ter ficado em São Paulo e ter me formado lá, mas eu queria conhecer o índio conversando com ele", finaliza.

Deixe a sua opinião

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Empreendedorismo

Senar e Anastácio capacitam 250 pessoas das áreas urbanas e rurais

Centro de Qualificação Profissional ofereceu 35 cursos

Neste fim de semana

Aquidauana recebe 4ª etapa do Circuito Unimed de Vôlei de Praia

A competição, que entra em sua fase decisiva, será disputada nos dias 5, 6 e 7 de dezembro na Arena Portal do Pantanal Beach

Voltar ao topo

Logo O Pantaneiro Rodapé

Rua XV de Agosto, 339 - Bairro Alto - Aquidauana/MS

©2025 O Pantaneiro. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software

2
Entre em nosso grupo