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Ao longo deste segundo semestre, equipe da DPHCEx realizou gravações em Aquidauana / Arquivo pessoal

Setenta anos depois da entrada do Brasil na 2ª Grande Guerra Mundial (1939-1945), uma equipe da DPHCEx (Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército) visitou o município de Aquidauana e reconheceu a participação de índios da etnia terena no conflito. A visita aconteceu ao longo deste segundo semestre, durante a elaboração de um documentário do Exército Brasileiro sobre os ex-combatentes pátrios que estiveram na Europa. A equipe foi coordenada pelos coronéis Heider Antunes Ramiro de Lima e Claudio Skora Rosty, da própria DPHCEx, além do coronel Valdenir de Freitas Guimarães, assessor cultural do CMO (Comando Militar do Oeste).
De acordo com pesquisas que até então não eram oficializadas, os índios da etnia terena foram incorporados ao 9º BE Cmb (Batalhão de Engenharia de Combate) - Batalhão Carlos Camisão, que foi a primeira tropa brasileira a cumprir missão de combate na campanha da Itália. A visita da Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército teve como objetivo concluir uma série de entrevistas a ex-combatentes (pracinhas) e seus descendentes para a confecção de um documentário em homenagem aos 70 anos da FEB (Força Expedicionária Brasileira). Em Campo Grande e Aquidauana, foram entrevistadas cerca de 20 pessoas ligadas ao conflito. De Mato Grosso do Sul, a equipe do DPHCEx seguiu para a Itália, palco do confronto militar na 2ª guerra mundial, onde está na fase de conclusão dos trabalhos do documentário.
As pesquisas do tema ?Participação Terena na 2ª Guerra Mundial - Vucápanavo" foram iniciadas e divulgadas graças aos trabalhos pioneiros do jornalista Geraldo Duarte Ferreira e do pesquisador Mário Moura. Ao mesmo tempo, o professor mestre em Antropologia Paulo Baltazar, que é da etnia terena, com conhecimento de causa, além de ter sido um dos primeiros a organizar o acervo do Museu Marechal José Machado Lopes (Museu do Expedicionário do 9º BE Cmb) e a constatar que não havia registros oficiais da participação de índios brasileiros na 2ª Guerra, pesquisou e divulgou seu trabalho sobre o tema.
Em Aquidauana, durante mais de uma década, o tema também foi pesquisado e divulgado pelo historiador Wallas Freitas, do Museu Marechal José Machado Lopes, que também é sargento do Exército. Ciente das pesquisas de circulação regional que mencionavam a participação de integrantes de etnias indígenas na última grande guerra, o historiador reuniu as informações e passou a abordar o tema em palestras, além de submetê-lo ao conhecimento de integrantes da direção do Laboratório de História Indígena e da Coordenação do Laboratório de Estudos Interculturais Indígenas Povos do Pantanal, do Campus de Aquidauana da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Até que, recentemente, durante a preparação das Forças Armadas para a comemoração do septuagésimo aniversário da FEB, o assunto foi levado a conhecimento da Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército.
Monumento à Vitória
Um importante acontecimento colaborou para o avanço da pesquisa sobre os terena na 2ª Grande Guerra Mundial. Por ocasião das comemorações dos 60 anos da participação da FEB na Campanha da Itália, o presidente da Fundação Eduardo Contar, o então procurador do Ministério Público, Carlos Eduardo Contar, ao tomar conhecimento de que o 9º BE Cmb não dispunha dos nomes dos pracinhas (febianos), como são chamados os ex-combatentes da FEB que lutaram na guerra, por iniciativa própria, viajou até a cidade do Rio de Janeiro e pesquisou nos arquivos do Exército. O esforço foi recompensado, já que ele recuperou a quase totalidade dos nomes, que foram fixados numa placa em um monumento no interior do Batalhão Carlos Camisão, o Monumento à Vitória, idealizado pela Fundação Contar, pelo 9º BE Cmb e pela Associação Nacional dos Veteranos da FEB/Seção MS/Anvfeb, sob direção do veterano da FEB, Agostinho Gonçalves da Motta.
Neste segundo semestre, com a vinda dos pesquisadores da Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército a Aquidauana, uma das mais importantes partes da pesquisa ?Participação Terena na 2ª Guerra Mundial - Vucápanavo" foi concluída, com a intermediação de entrevistas de descendentes de febianos com a DPHCEx, pelo sargento Wallas, e com a mediação do professor Paulo Baltazar. Também participaram a liderança terena Izaltino Demencio, cacique da Aldeia Bananal, e os seus conselheiros, acompanhando e permitindo o acesso às casas dos terena ex-combatentes da FEB e aos túmulos de Leão Vicente (Aldeia Bananal) e Irineu Mamede (Aldeia Água Branca), heróis esquecidos pela história oficial.
As histórias dos terena ao lado do Exército Brasileiro são antigas, pois estes estiveram presentes na épica ?Retirada da Laguna?, imortalizada na obra de Visconde de Taunay, da Força Expedicionária de Mato Grosso (1865-1867), por ocasião da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) contra Solano Lopes, do Paraguai. Entre os anos de 1900 a 1906, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon contou com apoio do povo terena para a construção da linha telegráfica, entre Cuiabá a Corumbá, alcançando as fronteiras do Paraguai e Bolívia. Nas primeiras décadas do século XX, com o advento da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, considerada um sinônimo de desbravamento da região oeste brasileira, novamente os índios da etnia estiveram presentes, apoiando com mão de obra.
Por ocasião da 2ª Guerra Mundial, os terenas foram convocados entre os mais de 85 mil brasileiros para a seleção dos cerca de 25 mil homens que integraram a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária Brasileira, mais tarde batizada de Força Expedicionária Brasileira. Os terena foram incorporados no 9º BE Cmb, que era a tropa de engenharia da FEB, sediado em Aquidauana, no distante Mato Grosso. Os convocados eram reservistas e voluntários para compor as tropas do 9º BE Cmb que integrariam a FEB, entre eles índios terena, como Irineu Mamede, Aurélio Jorge, Honorato Rondon, Antonio Avelino da Silva, Leão Vicente, Dionísio Lulu, Pedro Belizário Pereira, Wenceslau Ribeiro (de Nioaque, a confirmar a etnia) e Otávio (a confirmar dados e a etnia), este último, talvez, um índio kadiwéu. Os dados ainda estão sendo levantados com mais precisão.
Resgate histórico
Os depoimentos das famílias dos febianos da etnia terena que combateram no Teatro de Operações da Itália foram registrados, e não deixam dúvidas do sacrifício e das lutas vencidas por estes homens e por suas famílias, mas também não há espaço para duvidar do orgulho que os mesmos carregaram por toda sua vida de ter lutado contra o nazifascismo, em terras na distante Itália, sem perder sua identidade cultural e utilizando-se de sua conhecida capacidade de adaptação e sobrevivência.
Portanto, o resgate histórico dos nomes e componentes da FEB pertencentes às etnias indígenas e a valorização de suas ações e sacrifícios são dívidas históricas com esses povos. Porém, na atualidade, ainda é possível a reconstrução dos fatos, graças à importante contribuição de pessoas como Wagner Lulu dos Santos (neto do ex-combatente Dionísio Lulu), Gideão Jorge (filho do ex-combatente Aurélio Jorge) e de lideranças como do cacique Izaltino, da Aldeia Bananal, permitindo o resgate da história dos terena na 2ª Guerra Mundial.
O trabalho de consolidação da relação definitiva dos índios terena e de outras etnias que lutaram na 2ª Guerra Mundial está sendo coordenado pelo professor doutor Baltazar, do Laboratório de Estudos Interculturais Indígenas Povos do Pantanal, em parceria com o historiador Wallas, do Museu Marechal José Machado Lopes, para publicação em 2015, ano dos 70 anos do término da 2ª Grande Guerra Mundial.
Segundo ficou acertado entre o coronel de Engenharia Heider Antunes Ramiro de Lima, da Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército, com o cacique da Aldeia Bananal, Izaltino Demencio, e os seus conselheiros, a lista dos terena combatentes da campanha da Itália será gravada em placas metálicas, a serem fixadas nas comunidades da etnia, para o registro para a posteridade do sacrifícios e bravura dos terena na 2ª Guerra Mundial. (*As fotos utilizadas nesta reportagem foram cedidas ao site O Pantaneiro pelo sargento Wallas)

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