As chamadas ditaduras militares promoveram horrores no século passado em alguns países da América do Sul. Os vôos da morte, por exemplo, na Argentina, literalmente jogavam opositores do regime, em alto mar. No Brasil, muitas histórias são contadas de torturas inimagináveis praticadas contra quaisquer suspeitos que representassem perigo para o sistema estabelecido. Na base de tudo, estavam ideologias conflitantes.
É sob esse pano de fundo que as ações e reações, de um lado e outro, precisam historicamente ser compreendidas. A tendência comum de se nomear mocinhos e bandidos nessas situações precisa ser abandonada. Cada momento da história tem suas particularidades e podemos encontrar até motivos para justificar, em tempos de guerra, aquilo que não é justificável em tempos de paz. Calvino, o grande reformador de Genebra, consentiu com a morte de um opositor no contexto de uma realidade histórica específica.
No caso da ditadura militar no Brasil, os capítulos que envolvem as tensas relações entre direita, representada pelo regime militar, e esquerda, por diversos grupos organizados da sociedade civil, produziram ações extremadas inevitáveis, considerando-se o momento da história. Hoje, os tempos são outros. Entre os militares, por exemplo, muitos compactuam dos mesmos ideias dos remanescentes daqueles movimentos de oposição. E muitos desses, definidos até como guerrilheiros, sentam-se com aqueles que poderiam lembrar os verdugos do passado, para discutir idéias e projetos comuns.
A geração do hoje é privilegiada por viver em tempos literalmente de paz no campo das liberdades de expressão e escolha. E não pode permitir, por isto, que os resquícios negativos deste período da história, reflitam-se naquilo que hoje se constroi. Deste passado apenas os sinais de alerta, para que determinados eventos e posturas não se repitam, pois não servem para os nossos dias. E como muitas feridas ficaram expostas, torçamos para que nas relações que ainda se conectam com este passado fluam o perdão.