Quem liga a TV, todos os dias, em programas televisivos que exploram a violência urbana, nem sempre se lembra que grande parte das atrocidades que nos deixam boquiabertos, tem a ver com o consumo de drogas e que o caminho dessas tragédias que atingem níveis epidêmicos em algumas regiões da nação passa perto de nós. A Bolivia, “logo ali”, responde por 30% das quase 100 mil toneladas de cocaína que entram no Brasil por ano.
Foi com essa preocupação que o presidenciável José Serra, que recentemente esteve em Campo Grande, criticou dura e corajosamente
“los hermanos”, sendo, de imediato, também criticado pelos seus oponentes no cenário político. Sua declaração, de que a Bolivia faz “corpo mole” no combate ao tráfico de cocaína, teria sido irresponsável, segundo membros do governo federal e sua candidata, Dilma Roussef.
O que pensa Evo Morales, o presidente do outro lado, sobre o tema? “Coca, sim, cocaína não” tem sido o lema de sua política. Ou seja, a cocaína merece combate, mas o cultivo da folha de coca para usos líticos deve ser apoiado. Em torno dele se movimenta parte da economia boliviana. Por lá a folha deste produto que, do lado de cá, gera permanentes tragédias, é um símbolo poderoso, pois faz o elo entre a tradição anterior à conquista espanhola e o projeto contemporâneo da “verdadeira independência”.
Na Bolivia o crescimento da área plantada de coca encontra justificativa num pretendido aumento futuro da utilização lícita da folha para a produção de manufaturados tais como licores, chás, remédios, etc. para consumo interno e para exportação. Daí a solicitação do seu governo para que a ONU faça distinção entre a cocaína da folha da coca e seus derivados lícitos.
O grande problema, porém é que a alta lucratividade do produto para seus fins mais utilizados e o poder do crime organizado por lá, tem estimulado um jogo de interesses paralelo que sobrepuja “as boas intenções” de Evo Morales. A questão, portanto, não pode ser ignorada pelo Brasil, considerando que grande parte da cocaína acaba entrando no país, que tem uma imensa fronteira seca. Dificilmente este ingresso maldito será coibido.
O resultado real e concreto deste estímulo a plantação de coca do lado de lá, para utilização lícita, e o desvio irrefreável de propósito, tem sido um consumo em escalada cada vez maior de cocaína e crack na sociedade brasileira, produzindo danos irreparáveis. O acordo de cooperação entre a Policia Federal e as autoridades bolivianas sinaliza com alguma esperança em relação ao combate, mas o poder do crime organizado nos dois lados lança dúvidas sobre sua eficácia.
Simpatias políticas à parte, como lembra Sérgio Fausto em pertinente texto no Estadão, a verdade é que a declaração de Serra, mesmo que “irresponsável” na opinião de alguns, serviu para continuar lembrando aos homens de bem dos dois lados – Bolivia e Brasil - que no caso gravíssimo do avanço do consumo de drogas ninguém pode ficar indiferente. Outras vozes, inclusive locais, deveriam se manifestar. Afinal, uma das maiores tragédias universais passa por aqui, bem perto de nós, já que fazemos parte da rota do tráfico.