Um misto de indignação e tristeza tomou conta da população da segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul nesta semana. Em Dourados, um sistema gigante de corrupção no setor público foi desmontado, a partir da decisão do Secretário de Governo, Eleandro Passaia, de denunciar o seu chefe, leia-se prefeito Ari Artuzi.
Essa história funesta, que projetou negativamente este município além fronteiras, reúne todos os ingredientes de um grande drama, prevalecendo dois que estão na base de alguns dos maiores problemas do homem: ganância e imoralidade. As cenas de homens, escolhidos pelo povo para governá-lo, recebendo dinheiro de propina, com a maior naturalidade, chocam. O esquema tem um alto grau de imoralidade, considerando-se que em Dourados, a exemplo do que acontece na maioria dos municípios brasileiros, a saúde pede socorro. E só neste setor, o montante desviado pode chegar à casa dos R$ 2 milhões mensais, R$ 500 mil dos quais direcionados para o bolso do prefeito.
Este filme, contudo (e infelizmente) tem centenas e até quem sabe milhares de versões país afora. Ninguém duvida que o interesse maior de muitos atores dos processos políticos em nosso país nunca será a reversão de nossa ainda triste realidade social. Ao contrário, a sua manutenção, pois alimenta um processo perverso de corrupção, a partir dos setores de licitação. Destina-se para setores como saúde verdadeiras migalhas, considerando-se o potencial de recursos disponíveis, e o filé acaba sendo rateado para homens de má índole, muitos travestidos de líderes religiosos.
Muda-se o contexto, mas os personagens são sempre os mesmos nos escândalos nossos de cada dia. Além de gananciosos e imorais, não resta dúvida que são homens néscios, pois teimam em práticas ilícitas, mesmo diante dos vários exemplos de parceiros do mal que são descobertos, hoje, como resultado de várias operações de órgãos como a Policia Federal. Muitos atingidos pelo “furacão” desta semana, em Dourados, já tinham sido pegos, ano passado, em outra operação, a Owari.
Em nosso papel de informar/formar, temos o dever de alertar aqueles que se alimentam deste sistema, enquanto é tempo: não existe impunidade permanente. Não existe o mal feito “bem feito” o suficiente para que não deixe rastros. E, em última instância, tem algo além de nós, numa reação mística de causa e efeito, que sempre volta.
Ari Artuzi e alguns de seus súditos experimentaram uma dose amarga do mal que plantaram. Não fosse um delator que alegou problema de consciência, eles estariam na linha de frente deste processo que lamentavelmente é muito mais comum país afora do que podemos imaginar. Que bom, apesar de toda dor e tristeza que essas revelações trouxeram, pois é um sinal de alerta para todos que transformam o bem comum em bem pessoal.