“E foi sem deixar de si saudades”. A frase, atribuída por um historiador a um rei bíblico que teve trajetória semelhante a de muitos homens públicos, lança luz sobre o maior patrimônio que um homem pode ter, ao longo de sua peregrinação terrena: sua própria história. Esta semana marca o desfecho de mais uma história, a do radialista Rui Pimentel, uma das raras unanimidades neste ramo, em Mato Grosso do Sul.
O velório deste combativo profissional dimensiona sua importância. Nomes importantes de todas as orientações políticas do Estado, algumas com antagonismos que extrapolam os limites da civilidade, afinaram o discurso, coisa rara nesse campo. A cerimônia super concorrida, logo após um pleito eleitoral, também reforça o valor do falecido, pois a presença de políticos é muito mais forte em épocas de campanha, quando comumente mandam flores e se mostram interesseiramente presentes, interagindo com os enlutados.
Se amava o Estado que escolheu para viver nos últimos 35 anos, este bom baiano de Salvador demonstrava um carinho ainda maior por Aquidauana, especialmente pela região de Piraputanga, onde tinha muitos amigos e costumava visitar, fugindo das tensões normais resultantes de seu difícil labor no programa Tribuna Livre, na FM Capital, campeoníssimo de audiência em Campo Grande. Sabedor deste vínculo, o prefeito Fauzi Suleiman lembrou que o estilo de Rui serviu de parâmetro para outros profissionais em Mato Grosso do Sul.
Numa época de acirrada discussão sobre os parâmetros que credenciam um profissional de imprensa, o exemplo de Rui Pimental lança luz sobre um referencial seguro indicado pelo próprio chefe do executivo aquidauanense, o caráter. Num campo onde a audiência é fundamental, muitos são ouvidos pelo estilo polêmico, independentemente do caráter. Poucos, contudo, ganham o direito de serem ouvidos tanto pela coragem característica dos que polemizam, como pela capacidade de manterem-se íntegros.
Rui Pimentel, por isto, é um bom referencial para os novos profissionais, considerando-se que muitas das lições mais importantes para a sobrevivência, especialmente nesta área do jornalismo, certamente não são ensinadas na academia, sem nenhum demérito a esta. É preciso muito mais do que um diploma. Por outro, os que não têm o canudo de papel, mas militam na área e reivindicam o direito de serem chamados de profissionais da imprensa, devem saber que só serão respeitados como tais se mirarem-se no exemplo de homens como Pimentel.
O som de violinos e as palmas dos colegas de profissão e dos políticos de todas as matizes no enterro do amigo de Piraputanga, na última quinta feira, não foram por acaso. Mas, uma justa homenagem. Ao contrário do rei bíblico, Rui, como Claudio Valério, outro dia, que coincidentemente também militou no Rádio, já está deixando saudades!