Logo que o Valdecir assumiu a prefeitura cruzei com ele um dia saindo da OAB numa empolgação danada. Puxando-me pelo braço até o carro deu a mais alvissareira das informações que qualquer douradense de boa cepa poderia receber de um prefeito: "vou asfaltar essa cidade inteira". No decorrer dos primeiros meses de administração até parecia ser verdade e eu comecei a pensar em como mudar o foco do blog, já que se ele cumprisse aquela promessa não teria como não reconhecer este que seria um feito histórico. Aí vem a Uragano e, novamente o Valdecir, já preso, mas gravado por Eleandro Passaia, fazendo bravata na TV, naquele que poderá ter sido o maior escárnio em cima destes mesmos douradenses: "Vou asfaltar essa cidade inteira, vai ser asfalto pra todo lado". Em tom de deboche, ele não estava preocupado em cumprir com o prometido ao repórter e blogueiro, mas comemorando a descoberta da galinha dos ovos de ouro, enfatizando, entre sorrisos, diante do algoz que acabara de lhe entregar mais uma merreca provavelmente proveniente de retorno de alguma obra de asfalto ou tapa buraco: "vai ser asfalto pra todo lado".
Realmente, asfalto dá um retorno danado. É pra deixar qualquer um feliz. Do deputado que consegue incluir a grana nas tais emendas parlamentares, passando pelos lobistas que negociam com as empreiteiras e com funcionários corruptos das prefeituras até o vereador que indica os bairros que devem ser beneficiados e depois sai por aí dando pulinhos de alegria por não ter onde guardar tanto dinheiro, como aconteceu com Zezinho da Farmácia (foto). Não só asfalto, como - e principalmente - tapa-buracos e drenagem. Afinal, quem está disposto a sair por aí com uma trena medindo o tamanho dos buracos para os quais não há massa asfáltica que chegue ou a profundidade de córregos e rios por onde igualmente é drenado o dinheiro para o famigerado retorno aos políticos?
O que a Polícia Federal e Ministério Público estão tentando descobrir, em relação a personagens como o do post anterior, o deputado Geraldo Resende, é o percentual do retorno, ou seja, quanto eles embolsam em cada uma dessas obras como comissão, quer dizer, propina mesmo, tema da prosa gravada entre o parlamentar e o alcaguete Eleandro Passaia, numa tarde nublada da primavera de 2010.
Que a corrupção existe, é endêmica e provavelmente nunca vá acabar, qualquer criança do grupo escolar sabe. O que intriga, no caso de Dourados, é a voracidade (nem verba da saúde é poupada) e a generalização, com seus percentuais estratosféricos, o que se reflete em ruas cada vez mais intransitáveis, em escolas mal-acabadas desabando nas cabeças dos alunos ou que as vezes ficam só nas maquetes (agora virou moda, pegar dinheiro até de maquetes) e assim por diante.
Bons tempos aqueles em que tudo isso acontecia de forma muito discreta e em percentuais mínimos, tudo obedecendo a rituais de cautela e exclusividade. Traduzindo: só o chefe roubava e assim mesmo, era muito pouquinho, passando batido e não afetando o cronograma ou a qualidade das obras. Mais recentemente, todo mundo passou a meter a mão e a querer muito. Quer dizer, houve uma espécie de metástase, com o câncer da corrupção se espalhando por todos os órgãos, tirando-se dinheiro de tudo quanto é lugar. Como ficou provado pela Uragano, até o sagrado dinheirinho da saúde estava indo pros bolsos de vereadores da lista do mensalinho municipal.
A corrupção em Dourados chegou a níveis tão indecentes e escandalosos que a própria sede do poder é, hoje, o maior símbolo de desmandos, de desperdício e da gula dos mal-intencionados. Não bastasse a obra em si da prefeitura, uma das mais acochambradas do Mato Grosso do Sul (adivinhem por quê?) tentou-se, no período da Uragano, lucrar com o que já era um prejuízo danado com o Erário. Depois de muitas negociações com o Banco Pactual, que financiou a obra e levou os canos R$ 32 milhões, isso já com uma montoeira de juros em cima, pactuou-se pelo pagamento de R$ 10 milhões, mas algum bom coração entre os antigos assessores municipais entendia que o banco "merecia" receber pelo menos R$ 20 milhões. Que tal? A pendenga está para ser decidida no STF, com a prefeitura, agora, propondo-se a pagar apenas 10% da dívida principal, o que já é uma dinheirama danada.
Como o estupro dos retornos é inevitável bom seria que os políticos, os deputados, principalmente, se espelhassem nos ideais republicanos do Marquês de Barbacena, que, do primeiro empréstimo externo contraído pelo Brasil durante o reinado de D. Pedro I junto a um banco inglês, em 1823, exigiu uma comissãozinha de pouco menos de 60 mil libras esterlinas, equivalente a 2% do empréstimo. Como Valdecir teve Passaia, D. Pedro tinha o tal "Chalaça", um influente serviçal da Corte que, por razões mais ou menos parecidas com as de Passaia acabou "entregando" o Marquês de Barbacena, demitido do Ministério Imperial e humilhado publicamente embora as denúncias jamais tivessem sido comprovadas.
2%, só, a gente até aguenta a pagar, não é mesmo?