Capital
Obra parte da experiência clínica e de memórias de Raissa Ramos Ferreira Pedroli para questionar a pressa em superar perdas; lançamento será realizado neste domingo, em Campo Grande
Publicado em 24/09/2026 às 13:40
A psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli é a autora do livro "Sinto Muito" / Divulgação
Existe uma frase que quase todo mundo já disse diante da morte de alguém: “Sinto muito”. Ela aparece em uma mensagem, em um abraço, em um comentário nas redes sociais. Às vezes, é tudo o que se consegue dizer, destaca a psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli, antes de provocar a reflexão sobre o que acontece posteriormente. Depois do velório, das flores, das mensagens e do retorno à rotina de quem está por perto, lembra ela, a pessoa que perdeu alguém continua diante da mesma ausência.
É justamente nesse espaço, quando as palavras começam a faltar, que Raissa, especialista em lutos e perdas, escreveu seu primeiro livro, "Sinto Muito". A obra será lançada neste domingo (27), em Campo Grande, e parte da experiência clínica da autora, mas também de uma relação pessoal com a morte que começou ainda na infância.
O livro não se propõe a ensinar alguém a “superar” uma morte. Pelo contrário, questiona a pressa em transformar o sofrimento em uma etapa que precisa ser concluída e os clichês usados para tentar consolar quem perdeu alguém.
“Às vezes, a pessoa enlutada só tem uma notícia velha. Perguntam ‘como você está?’, mas ela não tem uma novidade para dar. A pessoa continua morta, a falta continua ali. Parece que existe uma expectativa de que, depois de algum tempo, ela tenha alguma melhora para contar”, explica Raissa.
“Notícia velha” é justamente o nome de um dos capítulos do livro. A expressão resume uma experiência comum no luto. Enquanto a vida ao redor continua e as pessoas esperam alguma mudança, a ausência permanece.
É a partir desse lugar que Raissa escreve não apenas sobre a morte, mas, principalmente, sobre quem ficou e sobre aqueles que permanecem ao lado da pessoa enlutada sem saber exatamente como ajudar.
“Sobre a morte, realmente não há mais o que fazer. A pessoa morreu. Mas há muito o que fazer sobre a vida de quem ficou”.
Para a autora, uma das dificuldades está na tentativa de preencher rapidamente o silêncio provocado pela perda. Frases como “você precisa ser forte”, “foi melhor assim” ou “você precisa seguir em frente” podem nascer de uma intenção de acolher, mas nem sempre conseguem alcançar aquilo que a pessoa está vivendo. É o que Raissa chama de “a crueldade do consolo”: quando a necessidade de encontrar uma explicação ou oferecer uma solução acaba deixando pouco espaço para simplesmente estar ao lado de quem sofre.
“A morte não é justa. Não é boa, não é legal. Não existe uma maneira de transformar aquilo em algo ‘ok’. Quando alguém perde uma pessoa que ama, às vezes o que temos para oferecer é presença. Não uma solução”.
O livro também aborda as mudanças provocadas pelas redes sociais na maneira de viver e expressar o luto.
Fotografias, homenagens, perfis de pessoas que morreram e lembranças que reaparecem inesperadamente nas telas fazem com que a presença digital continue depois da morte. Ao mesmo tempo, a exposição pública pode modificar a forma como o sofrimento é compartilhado.
Antes da psicologia, da especialização e da experiência clínica com pacientes enlutados, Raissa já havia estabelecido uma relação particular com a morte.
A autora conta que teve contato com ela ainda criança, de uma forma que descreve como “muito crua”. Foi somente mais tarde que percebeu como outras pessoas evitavam falar sobre o assunto ou buscavam formas mais delicadas de se referir à morte.
“Eu conheci a morte primeiro de uma maneira muito crua. Só depois fui entender a parte eufêmica, a maneira mais bonita que as pessoas encontravam para falar dela. Para mim, falar que alguém morreu era normal. Depois, descobri que, para muita gente, não era”.
Essas memórias aparecem no livro e ajudam a compreender a escolha profissional de Raissa e sua disposição para permanecer em conversas que muitas vezes são evitadas.
“Essa proximidade me deixou sem medo de estar perto, de fazer as perguntas difíceis e de escutar conversas e respostas dolorosas”.
A experiência pessoal, no entanto, não é colocada pela autora como uma espécie de proteção contra o sofrimento. Para ela, estudar o luto e acompanhar pessoas enlutadas não significa estar imune à própria dor.
“Ser especialista não protege a gente de sofrer. Eu conheço a teoria, acompanho pacientes, estudo o luto há anos. Mas, quando alguém que eu amo morre, eu também sou uma pessoa enlutada”.
Com 132 páginas, Sinto Muito reúne experiências clínicas, reflexões e memórias pessoais em textos que podem ser lidos separadamente. A proposta é acompanhar quem vive uma perda, mas também oferecer referências para quem convive com alguém enlutado e nem sempre sabe como permanecer por perto.
“Eu pensei nele como uma companhia. Uma coisa que a pessoa pudesse levar na bolsa, deixar no carro, na cabeceira, abrir quando tivesse vontade”.
Mais do que apresentar respostas para uma experiência que não possui respostas simples, o livro parte de uma ideia central. Diante da morte, talvez nem sempre seja necessário encontrar a frase certa, segundo a obra. Às vezes, permanecer, escutar e reconhecer a ausência já é uma forma de cuidado, pontua a autora.
Serviço
Livro: "Sinto Muito"
Autora: Raissa Ramos Ferreira Pedroli
Lançamento: 27 de setembro de 2026 (domingo)
Editora: Instituto de Formação e Capacitação Ser
Páginas: 132
Venda: Clínica do Luto — @clinicadoluto
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