Sobrevivendo às intempéries humanas, natureza volta com temporada dos ipês
Quando o assunto é ipê, o sul-mato-grossense se orgulha em dizer "essa foto não tem filtro, não". Imagina então a comunidade pantaneira? Ao pintar nossas ruas, praças e campos de rosa e amarelo, a paisagem se transforma e fica ainda mais linda.
Ao mesmo tempo que tem muita gente fazendo clique bonito por aí – inclusive fazendo questão de compartilhar com O Pantaneiro –, nem todo mundo sabe dizer ao certo o porquê de o ipê tingir os "céus" justo nessa época do ano. Aliás, mais do que ser um dos símbolos do Pantanal, a árvore revela por meio de cores a tamanha importância de sua existência.
Da janela, nas ruas, na estrada, nas praças e bairros, o que mais se vê são os ipês floridos (Foto: Lise Rossi Jones Lima)"O ipê serve de abrigo, local para nidificação, alimento para herbívoros, polinizadores e frugívoros de várias espécies, incluindo insetos, aves e mamíferos", explica a bióloga campo-grandense Camila Aoki, de 40 anos.
"Seu principal componente arbóreo – o 'paratudal', como é conhecido – é reconhecido por ter propriedades medicinais seculares, cuja casca é utilizada como remédio para febre, dor de estômago, diabetes, inflamações e muito mais. Por isso o alcunha de 'para tudo'", esclarece.
Quem é que tem coragem de limpar o chão da Praça da Matriz? Bonito é ver flores de tapete natural (Foto: Ju Brandão)Dentre as espécies da família bignoniaceae – a qual o ipê faz parte –, Camila que elenca o ipê-amarelo mais conhecido. Mas esse "paratudo" não é sozinho. Em Mato Grosso do Sul, há registro de pelo menos 10 espécies cujas flores variam de tons de amarelo, verde, branco, rosa ou roxo.
"Para os seres humanos, os ipês também prestam excelentes serviços ecossistêmicos. Em ambiente urbano, fornecem sombra, reduzem a poluição do ar, melhoram a infiltração de água no solo e embelezando as cidades – o que já é um enorme papel na saúde e bem-estar. Ainda, muitas das suas espécies são utilizadas na medicina popular. Na culinária, as flores de ipê são comestíveis, e são várias as receitas que podem ser feitas com elas", descreve a doutora em ecologia e conservação, com trabalho em fenologia.
No município aquidauanense, ipês colorem fachadas de casas, prédios e órgãos públicos (Foto: Patricia Melo)Pesquisa voltada aos fenômenos cíclicos dos seres vivos, a fenologia nas plantas – por exemplo – tenta compreender os fenômenos ou fases da produção, entre elas a queda de folhas, flores e frutos. Para Camila, campo que vale a pena estudar.
"Entender isso ajuda na conservação das espécies vegetais e também para os animais que dependem delas, inclusive o próprio homem. Várias delas têm importância alimentícia e econômica para todos, e entender quando uma planta produz frutos é saber como cultivá-los, quando colhê-los, e também fatores que influenciam na sua produção", afirma a bióloga.
Camila é a bióloga campo-grandense, doutora em ecologia e conservação, com trabalho dedicado à fenologia.E sim, caso você ainda não tenha percebido, estamos no meio do período de floração dos ipês.
"O primeiro a florescer é o ipê-roxo (entre julho e agosto), depois o ipê-amarelo (entre agosto e setembro) e, por fim, o branco (setembro e outubro, geralmente). Durante esse período, as árvores perdem suas folhas e o colorido das flores predomina na copa das árvores", detalha Camila.
Leitora do O Pantaneiro fez questão de parar o passeio de bike para clicar esse registro (Foto: Ju Brandão)
Registro de um entardecer na região pantaneria com a florida copa de um ipê-rosa (Foto: Bia Nascimento)Em 2020, com a maior queimada da história do Pantanal até o momento, ainda não se sabe dizer como o fogo afeta cientificamente falando a reprodução dos ipês. Entretanto, o bioma que persiste em sobreviver revela suas verdadeiras cores – e o vermelho-alaranjado da queima não está entre elas.
"Há ainda a necessidade de realização de pesquisas para entender melhor como incêndios florestais e outros impactos – as mudanças climáticas, por exemplo – afetam o seu florescimento, frutificação e germinação das sementes. Consequentemente, não sabemos quais são seus efeitos nessas populações a médio e longo prazo. Entretanto, preservar sempre", confirma.
Abaixo, confira a galeria de imagens de ipês enviadas pelos leitores do O Pantaneiro.
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