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A Begossi

Cinco Fotografias II

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Chegara em casa, rua deserta/deserto estava o seu universo.. . sexta-feira findando os compromissos semanais, exceto o artigo para o jornal, três laudas à serem entregues até às 18:30 horas de domingo. Assunto já escolhido/definido. . . era só sentar frente ao teclado, aciona-lo, reler e remete-lo. Abriu a pasta, na divisória, o envelope pardo demarcava presença/curiosidade.

Cinco fotos. . . tirou-as uma a uma, afastou a toalha/cinzeiro, sobre a nua mesa, espalhou-as, alterando-as, na busca de uma provável sequência. Imaginava-as parte de uma história em quadrinhos. . . cada "fotograma" deveria ser uma facção, parcela de imaginária narrativa cuja "chave" tentava decifrar. . . onde estaria o princípio? O fim? Os momentos squenciais/intermediários?

Um "trago" preparado com apuro: uma dose de vodka, martini seco, gelo, suco de limão, açúcar na borda do copo e um cigarro. . . olhando-as optou pela seqüência 4/5/4/2. . . e, montou um enredo mais ou menos racional ou, ao menos, relativamente lógico: o anel representando um compromisso, uma opção de vida a dois, um querer/tentar juntos. . ., o parque infantil, uma proposta assumida de família, a reprodução/perpetuação de seres/pessoas, crianças/ paz/futuro. . . o prédio, a identificação do carro, chapa "AB-1940", vulgaridades apartamento compacto de periféricos habitantes das grandes cidades, que tanto poderia ser dela ou. . ., um jantar íntimo à luz de velas, comida simples em relação ao tempo/consumo, a taça com marca de batom e por fim. . . a horizontabilidade, o trono/ringue de ilusões incessantes, o lençol "testemunho" do ser/ter. . ., anel/posse-doação. . . é poderia fazer sentido a seqüência.

Um outro queimar de tabaco, outro gole, a reflexão. . . e, a sequência. . . 2/4/3/1 e 5? Ou. . . 5/1/3. . . ou . . . e, o sábado anunciava o seu nascer. O sol adentrava no apartamento de sala-quarto com os primeiros ruídos de um novo dia. Identificou sons do leiteiro, do padeiro, dos vizinhos que partiam para a labuta do "ganha-pão". Abriu a janela, preparou mais um coquetel, fumava esperando o amanhecer pleno, tentar o contacto como número "356-42. . . "impresso no envelope da "Foto. . .", supondo que, no sábado pela manhã, deveria "atender comercialmente". . . Olhou repetidamente as fotos, alterou a última posição e, retornou a reflexão. . . e, se. . .

Será que seriam um casal hetero? Por que não? Por que sim? Recordou do "caso" que tivera com um travesti. . ele/ela usava peças íntimas femininas, ocasionalmente sandálias/salto-alto/vestidos. . . era homem/mulher, lábios pintados. . . ou, lésbicas, por que não?

Conjecturava o possível "relato"/acontecido;- por quê? Por que teria recebido tal "oferenda"? Seria um privilegiado? Um escolhido? Por quê? Os ponteiros do seu relógio deslizavam morosamente, os minutos pareciam horas. . . às 09:00 horas, decidiu? ligou "356-42. . ." e, depois do 3.o sinal, foi atendido:

'Alô, "Foto. . . 356-42. . .", a sua disposição!

- Por favor, aqui quem fala é. . .; recebi ontem um envelope pardo, com cinco fotos e, . . .

- Um momento meu senhor. . . (esperou e, ouviu outra voz);

- Pois não!

- Meu senhor, aqui quem fala é. . .; recebi um envelope timbrado, com cinco fotos. . .

- Graças à Deus. . . obrigado pela gentileza de sua atenção; o nosso setor de expedição teve problemas. . .

- Por que é que "eu" fui agraciado?

- Bem. . . a estória é que. . . Vivi, responsável pelo setor, endereçou vários envelopes, inclusive alguns particulares, saindo momentaneamente do local, seu auxiliar ao abrir a porta, uma rajada de vento. . . no chão, fotos/envelopes/slides. . . temeroso de reprimenda, recolheu-os e, postou-os.

- Vivi? Vivi de. . .

- Vivi de Vicente!

Aí a imagem foi refeita. . . o velho "caso", o parceiro/a de meses, a "Vivi" saudosa, período de diálogos/prazer/parceria. . . a resposta do por quê?

- Por favor, o senhor pode remeter as fotos. . . assumiremos as despesas, afinal, nem sabemos realmente o que e, para quem foram remetidas as "mercadorias".

- Pode deixar, no máximo segunda-feira, remeterei as fotos.

- Obrigado, muito obrigado em nome da empresa e de Vivi. . . desculpas pelo transtorno.

- Pois não, e. . . recomendações à Vivi. . .

Celular desligado/ligado ficou. . . outras doses/cigarros. . . será que conseguiria esperar até segunda-feira para ligar para Vivi/Vicente. . . "Vivi". . . aquelas pernas longas, depiladas; aquela pele morena, sedosa; aquelas nádegas firmes, aquelas mãos, aquele. . . será?

A. Begossi
17/12/06

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