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A Begossi

Lilica IV

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"Amai o que jamais se verá duas vezes"
Vigny (1797 - 1873)

...dia chuvoso, a "peça" amarela deve ter adentrado passando por baixo do portão de balaústre, fôra encontrada, sobre o tapete da varanda, era um "floco" cor do âmbar, pensávamos que retornaria a seu ponto de partida e fomos, cada um de nós, a cuidar dos afazeres-serviço, faculdade... entretanto, na República ficara.

A casa era pequena, dois quartos, cozinha, sala, wc, quintal com pés de árvores frutíferas, pequena/grande-ideal para quatro jovens "estrangeiros" que haviam escolhido Aquidauana para a formação profissional.

Chegara/sumira-dois/três dias e o seu "piado" fez-se presente no degrau da cozinha. Era um "galináceo redondo", cantador, simpático e, não temeroso do "bicho-homem".

Restos de arroz, goiaba, banana... o ciscar no quintal tornou-se cotidiano/cotidiano passou a ser o farelo, a água embaixo do tanque, e a "paternidade" foi gradativamente assumida pelo quarteto, habitantes da "República do Coxão".

Era interessante como a ave ali ficara, ali criara laços, ali preenchia os momentos de ócio daqueles que, longe de casa, careciam de afeto e "necessitavam dividi-lo, partilhá-lo, mesmo com quem só, teoricamente respondia por pios-piu/piu...

Cada um ao chegar em casa, era recebido pela "amostra", Lindalva, bólinha, prexeca de anjo, flóquinho... e outros nomes mais que, de acordo com o nosso emocional, era dado a ave que, assim crescia, mudava de "penugem" -; um dia, lendo O Pantaneiro, JC selecionou um artigo escrito por um pastor da Igreja Presbiteriana, onde o mesmo, narrava a estória de Lilica que viajara "pisoteada"; a II fugira e a Lilica III presenteada por Lourival alegrava o dia/dia de Beatriz, "filhota" do articulista - JC contou-nos e, assim, Lilica IV assumiu a sua identidade, apenas, tínhamos dúvida quanto ao sexo da mesma mas, decidido ficara, se macho, viraria Lilico.

Provas, des/encontros, des/empregos e a avícula tornou-se "família", era "mano", tornara-se comum encontrar um de nós, sentado nos degraus da cozinha em monólogo/diálogo quiçá, com a ave que, consciente ou não, era confidente. Quando AT foi despedido por um mal entendido, envolvendo desvio de dinheiro, ele ficou a noite/madrugada, trocando apreciações com Lilica.

Sete/oito dias, AT é procurado pelo ex-patrão, a dúvida desfeita, desculpas aceitas, retorno ao emprego e, Lilica premiada, no fim de tarde ganhou cólo, quirela no bico e beijos mil.

Era um galináceo estranho, nunca fizera as necessidades dentro de casa, era sempre nas terras do quintal... parecia reconhecer cada um de nós. Tornara-se "amiga" de IM, namorada de PO, aceitando-a como se da República fosse.

Quando fazíamos "festas", churrascos com bebidas, cantorias, refugiava-se nos galhos da goiabeira. Parecia perceber quando o ambiente ficava "turvo", quando a situação era para os ditos "racionais".

Lilica era "especial", engordara, tomava medicamentos orientados pelo "tio Miltinho", era um belo exemplar-penas marrom-avermelhadas, elegante porte e era de fato uma galinha, uma fêmea, uma parceira das horas incertas. Sua presença fôra assimilada, tornara-se símbolo do reduto... quando JC foi expor a sua monografia, repetiu-a tantas vezes para a "colega"... dizíamos que, a mesma estava mais preparada que o próprio. Ali chegara, ficara, marcava presença.

Em todas as comemorações, a citada era envolvida e, recebia presentes, nem sempre condizentes a uma "cocorocó" mas, o que fazer com seus parceiros que, também de certa forma, estavam mudando de "plumagem", crescendo, buscando espaço, tornarem- se "adultos".

Vou confessar uma situação... por dois anos, tentava chamar as atenções de uma linda vizinha, tudo tentado e nada além de insípidos: -Bom-dia, Boa-tarde! Até que... num entardecer, acariciando Lilica no cólo, sentado no portão, a cuia de tereré ao lado... eis que ela surge, para/parou o meu respirar, disparava o meu cardio, aquela presença emanava calor, odor, sonhos, esperanças-mudez...

- Nunca vi ninguém carregar uma galinha no cólo!

- Mas, esta é Lilica IV!

- E,daí ??? - (risos).

E daí... resultou uma "virada" de tereré, conversas e, promessas de saídas.

Feliz/feliz... fui comprar um parceiro para a Lilica, um companheiro "raçudo", não contei para os "manos" o porque da decisão, senão a gozação seria incontrolável... só espero que Lilica IV, seja tão feliz como eu.

Em tempo... a Lilica já "aceitou" a minha namorada na "família"... espero logo/logo ver o quintal cheio de "flocos amarelos" e a música dos pius/pius/piu...

a. begossi
a.begossi@opantaneiro.com.br
13/03/2008

NA - Pastor Vivaldo S. Melo, escusas pelo uso de seu texto "Lilica"; Obrigado! (ab).

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