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A Begossi

Madrugada

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". . . o sol é sempre o anúncio de um novo dia."

Os ponteiros do relógio teimam em caminhar a passos lentos, o som monocárdio envolve o ambiente-tum/tum/tum. . . sentado na poltrona, cigarro entre os dedos, a quitinete na penumbra, as cortinas abertas, o néon da cantina defronte emite luz alternativa. Um copo semi vazio descansa na mesa, o Logan pedindo substituto, os olhos buscando o nada através da janela. Vendo sem ver. Boca contraída. . . traga o fumo agridoce em profundas baforadas, o coração acelerado, peito ofegante, a testa com gotículas de suor. . . veleja por mares escalpados de tenebrosas brumas, nos vidros a chuva corre como copiosas lágrimas/lágrimas que não ousa liberar. O cinzeiro repleto demarca o passar das horas-chove!

Era verão quando a conhecera. Fora durante os Jogos Universitários de 19. . Estava em quadra para a partida decisiva contra a UFMT quando ao disputar uma "dividida no garrafão", levou uma cotovelada na cabeça e "desabou". Desacordado/acordando com o gêlo colocado pelo médico, abrindo os olhos visualizou "aquelas duas joboticas", como acostumara falar, através da grade do alambrado. Julgou estar etéreo, esqueceu a dor, via/sentia as "duas jaboticas" sobre si. Retornou à partida, sentia-se guiado/protegido pelo "doce olhar".

Partida ganha, comemorações, a "preciosa" desaparecer mas, àqueles olhos negros, àquele sorrido, o cabelo preso, a cor canela. . . ficara marcado.

Três/quatro meses, indo assistir um torneio de voley. . . na quadra, ela. . . esguia. Longas pernas sobressaiam no branco uniforme. Nádegas "esculpidas como por artístico cinzel", seios medianos, era um puro exemplar da raça afro, miscegenada mas guardando os traços de seus ascendentes.

Ela mantinha os cabelos presos como"a conhecera". As "jaboticas" brilhavam, de brancos dentes refulgiam dentre os grossos lábios. . . deixou o lugar onde sentara, dirigindo-se à divisória, separação-campo/arquibancada. Queria vê-la mais de perto. Perto, sentiu-se extasiado, sentiu que era ainda mais linda. Numa jogada, seus olhos se encontraram. Parou. . . "perdeu o timing", foi substituída. Ao sair, um sorriso confirmou: - ela o reconhecera.

No término da partida, esperou-a na saída. Encontraram-se como dois velhos conhecidos.

- Com a pancada, você melhorou ou piorou? Disse, com um sorriso maroto. Pessoalmente era mais graciosa. Jovem nos seus dezoito anos. . . linda como se tivesse a beleza acumulada por séculos/séculos.

Conhecer/ficar-ficaram morando juntos após seis meses. Quisera legalizar a situação, oficializar a união e ela "adiava" prerrogava sob os mais diferentes argumentos. . . desistira após pressioná-la por meses mas, costumava afirmar: - não falo mais nisso. Quando você quiser, nós resolvemos a situação!

Assim ficaram por cinco anos. . . e por quê? Nunca soubera. Não quisera engravidar. Viviam um para o outro.

Tiveram os problemas de todos os casais. . . desemprego, carência de recursos. A engenharia oscilava, no magistério ela era parcamente remunerada. Flutuavam como todos os recém-formados. O espaço em que viviam tornou-se aconchegante. Dividiam as tarefas caseiras, permutavam carícias, amavam-se. . . até que, após uma noite de amor, era um domingo de madrugada. Ouvira soluçõs. . . tentou saber o motivo. . . ouviu: - bem, tenho um tumor no útero e, o médico me informou. . . a matastase fizera-se presente. Ele não garantiu a cirurgia. . . estou com medo de morrer. Não quero ficar numa cama. Temo a quimioterapia. Cabelos/dentes/unhas. . . não/não!

Os trovões continuavam. Raios iluminavam a cidade. Chovia. . . sentado, fumando, tentava programar o, à ser feito. Custara pra atender o seu pedido. Ela colocara um "vestido domingueiro", maquiara-se, tinham feito amor. . . um tiro apenas nas têmporas. Um filete vermelho marcava o travesseiro. . . ajeitara os pés, os sapatos de verniz, olhou-a pela última vez, um último beijo na imóvel amada. . . na poltrona esperava o momento. . .

Na madrugada um segundo tiro, confundiu-se com o rumor dos trovões. . . amanhecia. Chovia!

a.begossi
a.begossi@opantaneiro.com.br
18/04/07

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