X
A Begossi

O banho

Compartilhe:

A-

A+

- . . . pode me chamar de Tiana, meu nome é Sebastiana Moraes mas, todos me conhecem por Tiana.

Recorda como se fosse hoje: Tiana! Uma jovem adolescente, espigada, de longas pernas, de busto em formação que tornara-se uma atraente mulher - "teúda e manteúda". . . assim ensimesmava Naciph, o católico, o maçom, o incorruptível descendente do mundo oriental. O "turco" que tornara-se "libanês", após anos de efetivos exercícios na comunidade.

Naciph um prático em farmácia que começara a trabalhar desde muito cedo como auxiliar, um "faz-tudo", na Drogaria Viriato, a única prestadora de serviços "para-medicos", do pequeno lugarejo no interior de Mato Grosso. Ali crescera, aprendera a ler bulas, a entender os "garranchos" do doutor Viriato, seu patrão, à preparar fusões, á aplicar injeções, cristéis. . . á "receitar" na ausência do titular, quando a necessidade assim o exigia.

O mancebo nunca tivera outra atividade profissional. Aprendera com apuro as ações/trejeitos/manias do proprietário. Ganhara a confiança do mesmo; a "mão e tudo o mais" de sua única filha e, "clinicou" como substituto nos afazeres da medicina, após a trágica morte do impoluto clínico e, no comando da Drogaria Viriato.

Jovem casou-se com Crotilde Das Mercês, prole não tiveram. Dedicavam-se as atividades sociais/religiosas. . . os dias/noites foram sucedendo-se, sem muitas angústias, sem muitos prazeres, sem desditas, uma rotina morrinhenta-semanas/meses/anos.

O casal integrara-se na cotidianidade. . . levantavam-se as seis horas. As sete a farmácia abria as suas portas. No intervalo, Crotilde "passava" o café, recolhia o leite deixado sobre o pilar do portão, pegava o pão na padaria da esquina. Sempre o famoso "filão", exceto aos domingos, que aí, era a "broa-de-milho com erva-doce". As doze fechava o estabelecimento que reabria as treze e trinta. Fechar era modo de dizer das encostadas portas. O odor de comida chegava ao balcão onde aberto ficava "A Tribuna do Oeste", jornal local, sob o som da "Rádio da Fronteira". . . e, suas não notícias. . . duas cadeiras para as visitas costumeiras. . . um "vidão" como apregoava o "prático-oficial".

Às segundas, reunião na Loja Maçônica, às quartas as assembléias com a Irmandade de São Cornélio, a missa das sete aos domingos. . . domingo à tarde, o compromisso de assistir o futebol do "Imperial", time em que era contador/técnico/mantenedor. . . torcedor fanático. As demais "aberturas" de tempo. . . eram preenchidas com o nada. Sentar na varanda e nada/nada fazer.

Dias cultuados na semana era: - quintas e sábados. Quinta-feira era o dia da ritualística sexual do casal, hábito contraído desde as núpcias e, o sábado, o ouvir discos de música clássica, aliás, a melhor discoteca da cidade.

Dona Crotilde, a "Tidinha" dos íntimos momentos, após trinta anos de convivência e poucos estímulos, tornara-se uma mera figurante do jogo amoroso, de seqüências/posições não mais criativas mas, conhecidas/decoradas. Ou. . . como raciocinava o "parceiro": - quatro e meia semana/mês, em doze meses, cincoenta e quatro semanas/ano. . . em trinta aos. . . 1630 semanas e, tudo/tudo sempre igual. O mesmo disco na vitrola, as mesmas posições, o mesmo. . . o mesmo cada vez mais buscado orgasmo. Buscado e de difícil encontro/achado.

Envelheciam/engordavam. Crotilde já não era tão asseiada como antes. Os banhos diários, tornaram-se "obrigatórios" apenas às quintas e não mais, com as preocupações minuciosas de antes. . . foi nessa época que teve uma flebite nos órgãos inferiores, dificultando a sua mobilidade/locomoção.

-. . . pode me chamar de Tiana! Desse modo, a auxiliar adentrou na vida dos "Viriatos". Cozinhava/passava/lavava. . . limpava, enquanto Crotilde prostrada ficava e, a tudo dependendo de ajuda. No início Tiana ia para casa pernoitar, com a evolução da inflamação das veias, passou a pousar esporadicamente no "quarto de hóspedes"/hospedes de pouca presença/presença de circunstâncias que tornou-se efetiva.

Casa pequena de um só banheiro, ocasionou a instabilidade. . . o banho. O banho da patroa "acontecia" na banheira, com água aquecida no fogão à lenha e a "molhadeira" era geral/geralmente finda a higiene de Crotilde, a muda de roupa de Tiana fazia-se necessária/necessária e conveniente raciocinava Naciph. O vestido da "enfermeira", ficava molhado/colado as formas da menina que transformava-se em mulher. O tecido "colado" denunciava os eretos mamilos sem outra guarnição a não ser o vestido. O baixo ventre úmido. . . úmido/colante começou o "prático" a sentir-se quando auxiliava na higiene/locomoção da esposa.

Cincoenta e quatro vezes . . . banhos, até onde conseguiria ficar imune a tantos atrativos, ruminava. A Loja, a Igreja, o futebol. . . já não eram estimulantes/estimulante era o banho de Crotilde, não propriamente o banho em si, mas sim, o vestido molhado da Tiana e, por questão, não de higiene, passou a dois semanais e depois, três.

Foi num início de outono, frio, chuva fina e contínua, pouco movimento nas ruas, na farmácia, apenas dois cães à procura de abrigo. Naciph "quebra uma palha", "picota um naco de Santa Bárbara", segura o "paieiro" com o indicador e o polegar da mão esquerda, guarda o canivete na gaveta e parte em busca de um "neguinho requentado".

Crotilde dorme. Na chapa do fogão em "banho-maria", o bule. Pega um tição, acende/recende o cheiro de fumo novo, abre-se a porta do banheiro. Tiana com a toalha envolta no corpo, sustentada por uma das mãos, assusta-se com a presença inesperada. . . o envólucro desprende-se, cai a seus pés, emoldurando o "monumento". . . só consegue balbuciar:- Seo Naciph!

Nunca mais a vida foi a mesma na residência da rua. . . na pequena cidade de Mato Grosso.

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Odilon Ribeiro reúne jovens e lideranças em agenda em Aquidauana

Eleições 2026

Odilon Ribeiro reúne jovens e lideranças em agenda em Aquidauana

Candidato a deputado estadual pelo PL participou de encontros nesta quarta-feira; ele apresentou propostas voltadas à geração de emprego e renda, investimentos e ampliação das oportunidades para a população da região

Viviane Luiza defende saúde, educação e infraestrutura na fronteira

Eleições 2026

Viviane Luiza defende saúde, educação e infraestrutura na fronteira

Candidata a deputada federal pelo PSDB destacou demandas de Bela Vista; saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento estão entre as prioridades

Voltar ao topo

Logo O Pantaneiro Rodapé

Rua XV de Agosto, 339 - Bairro Alto - Aquidauana/MS

©2026 O Pantaneiro. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software

2
Entre em nosso grupo