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A Begossi

Poderia ter acontecido

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O sul de Mato Grosso é uma área repleta de estórias/"causos", ali nas "fronteiras" com o Paraguai existiam núcleos de yerba silvestre (Caá), essa planta nativa com dezenas de variedades, propiciou riquezas para o capital estrangeiro, beneficiando diretamente paises vizinhos, acelerando dois pólos Ponta Porã e Buenos Aires.

No findar do século XIX e princípios do XX, as terras devolutas/desocupadas do Estado foram cedidas pelo Governo à particulares, uma só companhia (argentina) conseguiu agregar mais de dois milhões de hectares, graças a influências/influências que "atravessaram" a monarquia e a república e que, teoricamente, esse "uso" findou no período Vargas mas, foi apenas na 2.a metade do século (1960) que os arrendamentos cessaram, durante a vigência da concessão, o estado não intervinha, não recebia impostos, lá não era soberano e, Cuiabá era mera referência cartográfica.

Anos e anos de exploração da "selva", das ocorrências de erva-mate (minas), dos nativos principalmente os paraguaios. Quando o "sitio" cessava, partia em busca de novos/novos homens eram aprisionados aos "costumes" da empresa, obrigados a consumir no entreposto (comissária) tudo o que necessitavam - charque, charuto, canha, machete, roupas. . . a empresa era um agregado de tensão, ódio, paixão. . . dívidas crescentes para os mineiros.

A empresa transformou homens e mulheres em mercadorias/mercadorias de "valor" de uso e de troca, um monopólio de produção e de vida humana. O número de mulheres era reduzido. As disputas cotidianas, o instinto aflorava e a estrutura dominial, graças à milícia própria, a única a ter armas e fogo, estipulava a prática/abuso de qualquer fêmea, não importando quem fosse ou não o seu parceiro. A hierarquia funcional possibilitava o acesso, inclusive deslocando quando "necessário", o macho em busca de novos ervais. Não havia relações efetivas/duradouras. O afeto era deluído, a hombridade volatizada. A "mercadoria" era utilizada, nada à fazer ou a morte/extermínio a resultante direta.

As mulheres (chinas) aumentavam a dependência à estrutura. Quando jovens viviam nas "bailantas", quando a carne perdia a rigidez, tornavam-se "quilombolas", de menor preço. Eram exploradas pela Cia, trocando de parceiros por opção ou precisão, dificilmente eram exclusivas a não ser por curto lapso de tempo. A administração decidia, criando "leis e moralidades". . . quando desejavam/derrubavam/possuíam, os homens eram obrigados a aceitar, tornar-se meio-homem ou. . .

Nesse "fim de mundo", nessa época (ao redor de 1920/30), "onde aprendia-se a não sofrer com a dor alheia", teria nascido Maria, a cuñatai (donzela) filha de paraguaio e mãe guarani. Menina morena, de olhos lânguidos, cabelos/olhos negros, busto em formação, adolescente. . . sofrer os desatinos do agrupamento e à força, tornara-se mulher-engravidara. Mesmo "embuchada", continuou a ser perseguida/possuída até que, atinara em fugir, ciente de que, poucas chances teria de subsistir, se encontrada. . . passaria pela sanha de todos os funcionários, como era hábito nos ervais.

A cuña escolhera uma noite escura, sem lua e partira em busca da liberdade, do direito de poder ser de quem lhe dedicasse carinho/atenção. Na mata "trilhou" o mais que pôde, pés sangrando/gretados, a pele marcada pelo rasgar de espinhos/gravetos. . . correu/desmaiou numa furna. Acordou com as lambidas de uma cadela. Nunca a presença de outrem, fora tão benvinda. O animal não latia, ali ficara à espreita, guardando a presa à espera do dono.

Temerosa, Maria tentara levantar-se mas, não conseguira-pés inchados, o coro doía, a barriga incomodava/movimentava-se a cria que abrigava no ventre. . . montado em um jumento de lentos passos, chega Zé Aroeira. . . um fugitivo da empresa, famoso pela conquista de poder ser, senhor do livre arbítrio.Era um nome proibido de pronunciar-se nas rodas de tereré nos redutos da companhia, "dona absoluta" dos mineiros, de suas ações/pensamentos e palavras.

Maria acordou, um estirão. . . estava num catre-de-vara, a cachorra, o burrico, os pés tratados/envoltos em ervas, as pernas. . o ente no ventre parecia repousar, o companheiro atento, com sua espessa barba, cabelos compridos, chapéu de carandá, o machete de muitas luas.. . atinava/atinava. O rude homem a olhava/olhava e pouco falava. Os anos de isolamento o tornaram monossilábico. A recuperação/cicatrização foi chegando. Chegaram frutas-guavira/ariticum/cajú,manga/fruta-pomba/tamarindo. . . carne de caça. . . água fresca. . . até a "criança" parecia agradecer o tratamento.

A cuña. . começou a dar os primeiros e pequenos passeios, ao redor da choça, a auxiliar o companheiro em tarefas triviais, contava "coisas" ao camarada. Onde ia, a cadela a acompanhava. Na coleta de frutos, no banho na fonte. . . os seios cresciam/crescia a barriga. Ao cair da noite, falava de "coisas" que vira/ouvira/vivera. . . a nativa falava de Peabiru, o caminho dos índios; contava de Pay Sumé que os ensinara a fazer chá da erva; comentava das "artes" de Anaí, de Nakirã, de Flora, suas amigas. . . dos estupros, das explorações sexuais, das perseguições aos casais; das estórias das bailantas; dos infortúnios das chinas nos quilombos. . . o parceiro ouvia, mascava fumo, ouvia/aprendia/encimesmava. . . um dia retornando da caça/coleta, sem demonstrar temor, informa:

- Maria, vamos embora. Encontrei marcas dos homens da empresa. Prepare algumas "tráias" - água, carne, panos. . . sairemos à noitinha. Assim fizeram e, o grupo partiu em busca de novos horizontes. O burrico carregando a grávida, a cadela/parceira acompanhando ao lado da montaria. Zé Aroeira, seu machete, o porongo preso à cintura, a frente, abrindo caminhos. Dois/três dias de caminhada, a criança querendo ver/gritar no "novo mundo" . . . tiveram que parar. Zé achou um rancho abandonado à beira de uma branca praia, preparou um "canto" para o repouso. . . na espera ficaram. No céu repleto de estrelas, uma brilhava com maior esplendor. . . dores, contrações, suores, um vagido. O homem atende, presta serviços, envolve o seu nascente em sua camisa, mostra-o aos "amigos" de quatro patas. Sorri feliz olhando o céu estrelado. . . Maria descansa, cumpriu a sina de mulher-fêmea. . . três homens aproximam-se. . .

-Vimos quando chegaram. Somos da Estância Esperança. Trouxemos comida, água fresca. . . vocês podem ficar tranqüilos. Podemos ver a criança? O que é?

- É um menino. Um pantaneiro.

. . . poderia/poderia ter acontecido!

a.begossi
a.begossi@opantaneiro.com.br
04/12/07

Autores de "travessia": Lelia R.Ribeiro, Jérri R. Marin, Hernani Donato, Dair M. Ferreira, Paulo C. Oliveira

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