Quinta-feira, mal dormira, indagava-se, o que aquela moleca queria ? Estudar? Almoçou, descansou mas não consegui dormir, tomou banho, roupa limpa e abriu a porta, lá estava ela, sentada no chão, caderno à mão, escrevendo. ? Você demorou, quase te acordei . Como você sabe que eu dormia ? ? Fui espiar ... você estava de calção azul, sem cueca e roncava ... ? Eu não ronco! ? Ronca sim, é que você não escuta . Sorriu e nada mais se disse. Passaram a tarde toda estudando. Olhares trocados, sorrisos contidos . ? Nor, ta na hora de eu ir embora, tchau ! Amanhã, posso voltar? Não esperou a resposta, partiu.
Mer cursava a 2ª série do antigo ginasial, Nor engenharia florestal, passaram a estudar juntos todas as tarde, era comum ele abrir a porta e ela já estar ?trabalhando?. Agora já interrompiam as atividades, riam, conversavam, os estudos rendiam para ambos. Nor sentia quando algum imprevisto ocorria, algum atraso ... começou a perceber, a sentir, que a ?parceira? efetivamente havia entrado no seu dia/dia.
O tempo foi passando, a ?peralta? havia alegrado a vida daquele ?fora de casa?, daquele ?pau rodado?. Aos sábados e domingos, Mer arrumava em casa, algum motivo para sair e aparecer na ?Come quieto?. Lá conhecia a todos ,e, ajudava no que podia ... varrer, lavar a louça, pregar um botão, alinhavar uma roupa ... Mer ?crescia?, um dia, mais precisamente num sábado á tarde, apareceu de vestido, penteada, com tiara, sandália ... surpresa geral, era outra adolescente.
Nor , ...a viu pela primeira vez, não era mais a mesma, convidou-a para uma ?sorvete?, poucas palavras mas, sentiram que algo estava acontecendo/ acontecera ... saíram da lanchonete, acabaram andando sem destino, e ... de mãos dadas . A ?magrela? ficara guardada, no retorno, ao entrar na república , na sala, ao pegar o veículo, ?abortou? o primeiro beijo, rápido, sem preparo ... ela pegou rapidamente a condução e partiu sem nada dizer ; ele ?gelado? pelo ato instintivo , gelado e mudo ficou. Questionava-se ...seria real? Acontecera? Ela uma ?criança?, ele ?maior?... mas, estava feliz , alegre, ainda sentia o corpo arfante junto ao seu, o calor do beijo inexperiente, a saliva com gosto de fruta madura ... deitou na rede, ainda sentia o cheiro de sabonete, ali ficou, postado, estava em êxtase.
Na ?roleta da vida?, o cantar agora em dueto com o violão do Nicanor, a alegria de ambos era contagiante, nunca falaram em ?ficar?, em namoro, mas estavam sempre juntos. Mer contara para as irmãs, essas para a mãe, apenas Negão fazia de conta que não sabia e tudo ficava em ?família?.
A formatura aproximava-se, Nor estudava/estudava Mer...Nor conseguiu formar-se ... era mais um profissional no mercado, muitas juras foram trocadas. Reuniões, churrasco de despedida, de formatura, poderia levar acompanhante; Mer não conseguira liberação, a permissão ficara em suspense mas, a jovem fez o possível para Nor participar, afinal seria o último contato com a turma, na segunda o pai viria buscá-lo ... aí, até um dia!
Domingo radiante de sol, o ônibus em frente a matriz, alvoroço, vozes, cantorias, ?chamamentos?, Nor na solidão do Eu ,aprecia ...vê no banco, a figura conhecida ... de calça comprida , camiseta, óculos escuro, chapéu , o eterno sorriso de brancos dentes.
Viajaram juntos/juntos ficaram . A fazenda destino era linda, bem cuidada, com campos esportivos, piscina, riacho, bosque ? churrasco, carnes diferenciadas, bebidas á vontade, após almoço foram passear, entre o verde da mata, o amarelo do ipê, na sombra da árvore, filamentos do vermelho de Mer, na calcinha e na cueca, marcas indeléveis do histórico acontecido.
Voltaram abraçados com ?caras de panacas?, o retorno pareceu curto, Mer tornara-se mulher em meio de prazer, realização, riam mesmo ?sem? motivos. Nor acompanhou-a até em casa, ao despedir-se ouviu :-Obrigada,hoje é o meu dia mais feliz, eu moro aqui, tchau e, boa viagem! Olhos lacrimejantes, abriu a porta, entrou ... ele cabisbaixo, andava nas nuvens, ainda sentia o coração acelerado, trêmulo...foi direto para a república.
Acabou de arrumar seus pertences, malas/caixas, na madrugada o pai veio buscá-lo, partiu de corpo, de ?coração? ancorado ... na viagem, contou ao pai que estava amando um ?anjo?. O velho na experiência que só a idade traz, sorriu ... o filho crescera, prometeu que o ajudaria a arrumar emprego e, se fosse de seu gosto, iria conhecer a escolhida.
Cartas chegavam/partiam ... em uma delas a notícia ...?menstruação atrasada? ... contei para minha mãe... ? não se preocupe, irei buscá-la, foi a pronta resposta. Num entardecer, depois de passar por um hotel, Nor, irmão, pai, mãe ...bateram em busca da futura ?mamãe?.
- Boa noite, eu sou o pai do Nicanor, esta é minha esposa, este meu outro filho, o sr deve será pessoa que chamam de Negão. As ?crianças? adiantaram as ?coisas?, estamos felizes. Será meu primeiro neto ou neta . Viemos para conhecê-los e, pedir a ?mão da Mer? ...ele só fala dela, deve querer muito ficar com ela, nossa fazenda é grande e sempre estará à disposição da família, temos acomodações...
A noite encerrou-se em cantorias, violeiros, muitos risos, bebidas, o casal só sorrisos, de mãos dadas, beijos, abraços ... Mer mais ?roliça?, Nor com sombra de bigode ... dias de esperanças, compromissos na caça da felicidade.
?A felicidade é antes de tudo um sentimento tranquilo, contente e seguro da inocência .? ? Ibsen (1828/1906)