Introspecção: observação ou exame da vida interior pelo próprio indivíduo;
exame que faz alguém dos próprios pensamentos e sentimentos; auto ? análise.
Ronaldo fora promovido supervisor de vendas, como primeira atividade deveria percorrer os fregueses e se possível, ampliar a clientela. Era toda uma região diversificada e repleta de anomalias. Fim de semana partiu de Campo Grande com destino a Corumbá, no percurso, passando por Anastácio, lembrou-se de Aquidauana e do ?barulho esquisito? ao mudar de marcha, retornou e foi procurar um mecânico.
Lembrou-se do encontro futebolístico do Estado, uma semana de jogos universitários, hospedados em escolas, os ?jogadores sabiam dos olheiros? e assim, todos queriam mostrar o seu ?jogo?. Ronaldo fez a conversão, ciente e seguro, partiu para Aquidauana. Procurou um mecânico, um hotel, hospedou-se, tomou um banho e dormiu. A tarde caia, acordou, aprontou-se e foi à portaria colher informes, programas, na noite de sábado, de ?atração?, apenas uma peça teatral com um grupo de Campo Grande. Comer, andar pela cidade , tentar preencher a noite . . . olhou o relógio, quase 19:10 . . . teatro às 19:30 horas, auditório da UFMS, sabia onde era, optou, foi sem informação sobre a peça, autor mas, era um programa numa cidade de poucas atrações.
Comprou ingresso, entrou, luzes apagadas, apenas a ribalta iluminada, . . . entram personagens, sons, luzes . . . descobre que o texto era espírita, percebe falas do ?Livro dos Espíritos ?, de Alan Kardec, de Chico Xavier, de Bezerra de Menezes . . . acomodara-se na metade do auditório, lado esquerdo na 2ª cadeira pois, a 1ª estava com o encosto quebrado.
Ali estava, não era optante da crença mas, ficou. Ajeitou-se na poltrona e procurou assistir sem as convencionais barreiras . . . lembrou-se das curas do Dr. Fritz . . . era um ambiente de paz, sem conversas paralelas, sem palpites tão comuns em encenações interioranas . . . acomodado sentiu um perfume adocicado, a sonoplastia projetava à plateia uma música orquestrada. Fechou os olhos e sentiu uma mão suave sobre a sua . . . olhou e nada viu. A mão acariciava a sua . . . assustado tentou levantar-se, quando ouviu: - Calma Ronaldo, sou eu Ivi . . . dito num sussurro.
Ivi fora sua parceira durante o campeonato. Prometera que voltaria, um dia, não cumpriu o prometido. Quis conversar, ela pediu ?silêncio?. Sentiu uma cabeça cheirosa apoiar-se no seu ombro e, assim ficaram. Era uma platéia diferenciada, ninguém levantava-se ,saia . . . artistas amadores mas razoáveis, boa iluminação, músicas repousantes e ele com uma presença que sentia mas, não via .
Com a peça recordou alguns momentos vividos com a jovem, uma ?criança grande? como dizia. Alguns passeios, nadar no Santa Martha, pescar, o baile de encerramento, com orquestra de fora e ele, de terno emprestado, seu coração já estava mais calmo, com os afagos a taquicardia ?partira? . . . uma situação estranha. Imaginação? Lembranças? Agora já sem temor, sentiu o acender das luzes, os aplausos . . . e, a cadeira vazia. Só o perfume ficara, inundando o ambiente. Esperou . . . a saída geral, fez o mesmo.
Na calçada pequenos grupos conversavam. Olhou a Matriz, imponente, catalizadora de esperanças, lembrou-se dos degraus, após o baile, ali sentaram-se, conversaram. Sentou-se, acendeu um cigarro, quando ouviu: - Me dá uma tragada? Olhou, era Ivi, linda como sempre, - Você quer um? ? Não, deixei de fumar, apenas deu vontade e, devolveu o cigarro, sentando-se ao lado no degrau . . . o perfume continuou ? Você não envelhece Ivi, continua com a mesma pele clara, face, olhos . . . me dá a receita?
O diálogo continuou como se tivessem parado a poucos instantes, conversaram sobre o ontem, o presente, o futuro, ela sempre sorrindo. Quando deram por si, o dia amanhecia, as estrela recolhiam-se, ela levantou pegou-o pela mão . . . ao sair ele foi até o canteiro e, colheu um botão de rosa branco, tirou os espinhos, ela beijou a flor. Foram andando de mãos dadas até próximo ao hotel . . . ? Você fica por aqui. Boa-noite ! ? Não, eu vou te acompanhar.
-Não, não tem perigo. Até amanhã, e um longo e salivado beijo, configurou a separação.
No domingo, na hora do café, Ronaldo indagou para a copeira:- Por favor, a senhora poderia informar se a Ivia ainda mora no sobrado do posto? ? A família ainda mora! Pegou o carro no mecânico e partiu em direção ao posto, chamou um empregado: - Você pode me chamar a Ivia? ? Não! Porque? . . . ela está no ?Saudades?. È um túmulo branco, de mármore, ao lado direito do Cruzeiro.
Mais uma vez sem entender, foi ao cemitério, uma campa simples, a foto de Ivia num retrato de porcelana . . . sim era ela . . .próximo ao retrato o botão de rosa branco, caule sem espinhos . . . lágrimas brotaram, entrou no carro, passou no hotel, fechou a valise, partiu, destino Corumbá!
? O amor não é cego. Vê sempre as pessoas queridas tais como são e as conhece na intimidade mais do que os outros? ? Emmanuel.
A.Begossi ? 28/07/15